A nossa gente (219) – José Carlos Simas Raposo

“Não vejo que o PSD consiga voltar ao que era e se não arrepiar caminho não sei como se manterá com ambição de poder”

 De onde é natural e como foi o seu crescimento?
Eu sou natural de Vila do Porto, em Santa Maria, porque a minha mãe era professora e estava colocada lá e eu lá nasci. Depois, com três anos, vim para São Miguel e cá estou. 

Como era Ponta Delgada enquanto crescia?
Eu não vivi Ponta Delgada sempre porque a minha mãe era professora. Temos de voltar atrás 75 anos para fazermos uma análise do que era ser professor naquela altura. Somos quatro filhos e dois são dos Arrifes, eu sou de Santa Maria e o mais novo é da Bretanha. A minha mãe andava sempre de um lado para o outro e o meu pai ia com ela porque era enfermeiro e naquele tempo havia dificuldades nessas áreas e não havia problemas de colocação. 

Do que se lembra da sua infância?
Tenho óptimas recordações. Desde logo andar depressa com a minha mãe para apanhar a camioneta para ir para as Feteiras. Fui aluno da minha mãe da 1ª à 4ª classe e era bom aluno, por acaso. A minha mãe exigia muito e eu tinha de dar o exemplo. Era eu e um moço chamado Avelino Rodrigues que era das Feteiras, que éramos muito bons alunos. Mas depois eu degenerei e passei a ser menos bom.

A que se deu essa mudança?
A fase infantil vai passando, depois vimos para a cidade e talvez fosse por aí. Mas fui sempre equilibrado e foi dando para passar. Não passei do 9º ano na Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada mas a minha mãe ficou com um desgosto porque queria que eu fosse, pelo menos, igual a ela mas nenhum dos filhos conseguiu.

Disse que foi para a Escola Industrial e Comercial estudar e depois?
Na Escola Industrial tinha uma actividade muito interessante, pertenci ao folclore, ao órfeão, fui um dos fundadores dos “Académicos”, e até fomos uma vez à ilha Terceira tocar em 1960 e poucos, o que não era brincadeira. Era uma coisa brutal sair daqui para ir tocar.
Depois fui para a tropa em 1964, para Mafra, onde fiz o Curso de Furiéis Melicianos, fui para o Hospital da Estrela porque fui indicado como enfermeiro seguindo as pisadas do meu pai. Estive ali praticamente um ano e fui para o Ultramar onde estive mais de dois anos e regressei. Quando fui para o Ultramar deixei uma namorada e quando regressei, casei.

Que instrumento tocava nos “Académicos”?
Bateria. Era eu, o Taveira em contra-baixo, o Orlando Brandão Medeiros que tocava acordeão, e o irmão Tovi que ainda hoje toca nos “Académicos”. Éramos alunos da Escola Industrial, gostávamos de música. Eu cantava no órfeão, estava no folclore, o Tovi tocava viola da terra no folclore, o irmão tocava acordeão no folclore, e depois tínhamos a nossa professora de inglês que era alemã mas gostava muito do que era cultura regional e com a ajuda dela fomos empurrados para fazer os “Académicos”. 

E marcaram gerações...
A geração que me seguiu teve outros meios e outras possibilidades. Quando veio a loucura dos Beatles eu já estava em Mafra, punha-me nas máquinas gira-discos que se punha uma moeda, uma jukebox, e púnhamos os discos dos Beatles a tocar ao Domingo à tarde. 
A nossa música era o rock e o twist que foi o que apanhámos, a geração a seguir apanhou outro tipo de música. O meu irmão substituiu-me na bateria, o acordeão desapareceu, tudo foi evoluindo. 

Em Mafra ouviu muito os Beatles?
Ao fim-de-semana íamos para a Ericeira, ouvir música. O dinheiro era muito pouco e por isso conversávamos e ouvíamos música num cafezinho. Éramos quatro ou cinco e cada um punha uma ou duas moedas e dava para ficar ali umas horas a ouvir música. 

Vai então para o Ultramar. Em que zona esteve?
Estivemos no Norte, em Diaca. A sede de batalhão era em Mocímboa da Praia e havia três companhias que estavam cada uma em seu sítio. A minha estava em Diaca e ficávamos a cerca de uma hora de Moeda, que era um dos sítios mais complicados. 
Eu fui aluno do Coronel Maçanita, que foi meu professor de geografia, e quando cheguei lá íamos cheios de medo e estavam os mais velhos a fazer a segurança nos caminhos. Chegamos e vejo o Coronel Maçanita que tinha sido meu professor e ela chamou-me pelo nome, eu chamei-o pelo nome, e nem houve continência nem nada. Também havia outra pessoa aqui de São Miguel, o Octaviano Mota que estava na companhia do Coronel Maçanita a fazer segurança ao meu batalhão. 
Em Diaca estivemos 14 meses e fomos para o Sul, e aí tivemos 4 ou 5 mortes, feridos. O meu colega de batalhão foi o João Carlos Macedo, da Fajã de Baixo. 
A pior experiência da minha vida foi no Sul porque a um mês de virmos embora e recebemos uma ordem de serviço para irmos para um sítio perigosíssimo fazer uma operação. Eu não saía, porque era enfermeiro, mas como o meu comandante de companhia tinha de ir, eu tive de ir também. Aí foi uma experiência muito má porque não morreu ninguém mas podia ter morrido. A um mês de vir para casa. 
À minha frente ia um alferes da Ribeira Grande, Luís Pereira que vive no Canadá, e há um soldado que pisa uma mina anti-pessoal que estilhaçou para todo o lado e o meu conterrâneo ficou cego naquele momento. Eu entrei em pânico porque não tinha experiência de uma coisa tão complicada e além disso era um conterrâneo meu. Lá tratei dele dentro do possível, limpei os olhos com soro, e disse ao capitão que ia com ele evacuá-lo. Fomos postos numa Berliet [camião] com sacas de areia para o caso de haver algum problema, amarrei-lhe um lenço preto na cabeça e fomos acompanhados por soldados para nos defenderem se fosse preciso. A 10 minutos do sítio o carro foi pelo ar e só fiquei eu e ele dentro do carro, sem sofrer nada. Entretanto, veio um reforço em nosso auxílio e lá seguimos. Estive com esse conterrâneo há dois anos e foi um encontro indescritível. Falamos todas as semanas. 
Tenho outro amigo que criei nesse tempo de tropa, o furriel Fonseca, já falecido, que era meu confidente e amigo. São amizades que se criam que nunca mais esquecemos. 

Quando regressa, o que fez profissionalmente?
Fui para a Comissão Reguladora dos Cereais, que já não existe. Depois há um amigo meu que trabalhava lá que me disse que havia uma vaga nos Lacticínios Loreto. Naquele altura a função pública era aquém do privado em termos remuneratórios e então falei com a minha mãe, que tinha sido colega da esposa dele, e ela foi dar uma palavrinha e ao fim de uma semana fui para a Loreto onde estive na área de pessoal.

E onde entra a política na sua vida?
Pelo caminho tenho alguns anos de política. Sou um dos fundadores do PPD, juntamente com João Bosco Mota Amaral, Américo Natalino Viveiros, Jorge Nascimento Cabral, Henrique de Aguiar, entre outros. Penso que foi no terceiro mandato do PSD fui convidado para ir para a Assembleia Regional. Nos primeiros mandatos fui sempre um militante com responsabilidades internas mas sem cargos. Andei só a trabalhar, e bem, para deixar um partido vivo. 

Como se viviam esses anos de fundação do PPD/PSD?
Diria que é uma experiência indescritível. Naquela altura o PSD era tido como um partido muito à direita e houve muitos pruridos com João Bosco Mota Amaral. Mas aqueles primeiros anos do partido teve cenas de algum melindre. Cheguei a fazer sessões de esclarecimento com Mota Amaral com uma foice atrás das costas.

Como assim?
Com aquelas foices de cortar o trigo e o milho. Ele estava a falar, eu ao lado dele, e por detrás de nós alguém estava com foices. Ninguém nos tocou mas estávamos com algum medo. Bastava um exaltar-se que a situação podia ficar complicada. 
Outra cena, nas Capelas, em que Pinto Balsemão estava cá, e houve uma provocação terrível de outro partido e gerou-se uma cena diabólica terrível que se não houvesse juízo, calma e ponderação, tinha sido uma desgraça. Foram momentos muito complicados para a fundação do PPD. Só nós sabemos o que custou a fundar e a credibilizar. Porque no princípio, quando Mota Amaral pegou nisso, quem tinha mais experiência política era ele e todos nós fomos aprendendo com ele. Pelo menos temos o mérito de ter assimilado alguma coisa.

Mas sente que fez parte da mudança para a Região com a fundação do PPD?
O PSD tinha um cérebro extraordinário, Francisco Sá Carneiro, que sabia tão bem como nós a capacidade que Mota Amaral teria para fundar um partido, alicerçá-lo, criar raízes sólidas quer no povo mais humilde quer na cidade, que não era fácil. Naquela altura era de bom tom ser-se de esquerda. 
Mas na minha convicção sempre pensámos num partido equilibrado, cabendo todas as facções mais moderadas. Há pessoas em todas as ilhas que foram marcos históricos em termos da consolidação do PSD. E aprendi muito com essas pessoas.

Bases que lhe serviram para a vida?
Serviram-me para a minha vida. Eu sempre fui uma pessoa que sempre gostou de mexer na sociedade. Fui dirigente do União Micaelense, estive ligado aos sindicatos, fui fundador de uma cooperativa de consumo a Cestante, estive ligado a acções da Igreja Católica, sempre tive uma vida muito activa e sempre gostei de me envolver na sociedade. Sempre com uma preocupação social muito grande. A minha adesão ao PSD sempre foi com esse intuito. Porque andei indeciso entre PSD e Partido Socialista. Naquele altura só decidi ser do PSD depois de um célebre comício no Coliseu Micaelense em que não gostei nada da terminologia que o Partido Socialista de então usou. E houve pessoas que saíram do PS devido àquele comício. Por isso naquela altura decidi que queria uma coisa mais calma e com outra visão das coisas e parece que não apostei mal. Mas neste momento estou muito triste. 

Depois dos momentos tão apaixonantes da criação do PSD, como vê o partido agora na Região?
Com alguma tristeza, se não muita tristeza. Não vejo que o PSD consiga equilibrar-se ou voltar ao que era há uns anos atrás, mesmo depois de termos perdido as eleições com o PS. Se o partido não arrepiar caminho não sei como se manterá com ambição de poder. 

Mas o que falta? 
Começa logo pela liderança. Não faz sentido que a liderança tenha determinados princípios aqui e outros relativamente ao líder nacional. O líder nacional perdeu as eleições e já se fala que tem de se demitir e já se fala em apoiar outro candidato. Mas não se consulta ninguém por ilhas? No tempo de Mota Amaral havia decisões mas previamente havia reuniões alargadas em ilha para debater os assuntos e depois a Comissão Política Regional decidia. Agora decide-se. Acho que é preciso decidir, mas depois cada um assume a responsabilidade da sua decisão. Mas quando se assume que deve haver eleições antecipadas para o partido lá fora porque se perdeu, aqui não se ganhou. E foi por um triz que não ficou 4-1. São dois pesos e duas medidas. 
Se aplicarmos a mesma bitola que se quer para o continente, vamos ter também eleições antecipadas no partido aqui. A Autonomia é muito boa mas temos de ter um fio condutor coerente. Já se apoia Montenegro, mas Rui Rio ainda nem sequer saiu. Penso que estão ainda numa fase de aprendizagem. O problema é se aprendem tão tarde que depois tem de se fechar a porta. 

Como viu a situação entre Rui Rio e Mota Amaral nas europeias?
Com muita tristeza. Fiquei muito triste, por duas razões. Simpatizo com Rui Rio mas acho que Mota Amaral não devia ter sido tratado como foi. Em primeiro lugar o projecto europeu que João Bosco Mota Amaral tem é sobejamente conhecido no âmbito nacional. O povo português sabe muito bem o que Mota Amaral pensa sobre a Europa e  que lhe foi feito não foi correcto. Para além da vertente que era o respeito que merecia a Região Autónoma dos Açores, independentemente da pessoa. A pessoa só vinha acrescentar. Foi um tiro muito mau da parte de Rui Rio, o que me parece que teve alguma influência nas eleições legislativas. 

Também foi dirigente do União Micaelense...
Fui, depois deixei e voltei mas agora já não é para mim. Já são maneiras de ver o desporto a nível regional que para mim não dá. Muito diferente do que era antigamente. 
Eu joguei hóquei dos 14 aos 34 anos, com interregno da tropa. Nós levávamos o material para casa para lavar, mas agora têm tudo e ainda recebem dinheiro que o clube não tem disponibilidade financeira para pagar. Vive-se num mundo irreal. É preciso outra mentalidade para acompanhar esses princípios e para mim já não dá.

Mas nos dias que correm há outra forma de contornar essa situação?
Penso que há, é não se pagar aos jogadores da maneira que pagam.

E aí teriam jogadores para jogar?
É a tal “pescadinha de rabo na boca”. Mas pode-se ir para as escolas de formação. O meu clube, o União Micaelense, tem escolas de formação de futebol que é de facto uma coisa soberba. As escolinhas do Clube União Micaelense são muito boas e em São Miguel só ombreiam com a Fundação Pauleta e com o Santa Clara e é para ganhar. Penso que aí é que se pode dar o tal salto. Isto a nível regional, porque quando se actua noutros escalões, como o Santa Clara, será mais difícil. 
Mas os miúdos da formação podem dar uma ajuda a um clube que financeiramente não tem hipóteses de se aguentar. Também são precisos os sócios que muitas vezes as pessoas não têm disponibilidade para serem sócios de futebol. Penso que hoje em dia é preciso gostar-se muito e ter outra mentalidade para ser dirigente de um clube de futebol. Tem de se ser muito imaginativo e engolir muita coisa. 
Na minha óptica, a nível de São Miguel, se os clubes forem viver por si, não têm capacidade financeira para fazer nada. Porque não têm sócios. Só com a ajuda das Câmaras Municipais e o Governo Regional. 

E agora dedica-se mais aos netos?
Tenho um casal de filhos e tenho dois netos, uma lá fora a estudar e outro está cá.

O que gosta de fazer nos tempos livres?
Gosto de ler os meus livros, de natação no Verão, estar com os amigos da minha geração. 

                                                  

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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