FACE A FACE!....com Fernando Menezes, ex-presidente do Parlamento dos Açores

“É natural que se estejam a instalar alguns vícios numa ou outra área da governação açoriana…”

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Fernando Menezes - Sou natural da ilha do Faial, advogado, fui deputado regional, Presidente da Assembleia Municipal da Horta, Presidente do Conselho de Ilha do Faial e Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social
Estudei em Coimbra e Lisboa, fui estudante-trabalhador, exerci funções no Fundo de Fomento de Habitação, na Câmara Municipal de Oeiras, dei aulas no Liceu da Horta e na Unisénior. Exerci advocacia em escritório próprio e faço parte de muitas associações de natureza desportiva e social

Como se define a nível profissional?
Tenho sido apenas um profissional que exerce a sua actividade com grande responsabilidade. Hoje já estou reformado estando apenas a completar alguns casos que se têm arrastado nos tribunais.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
Não é fácil descrever a família de hoje pois ela pode ser de muitas formas para além da família tradicional. Pode, por exemplo, ser monoparental ou constituída por pessoas do mesmo sexo. Todas terão o seu espaço mas a família tradicional será sempre preponderante na nossa sociedade.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A sociedade está a evoluir com grande rapidez. Essa evolução nas sociedades mais desenvolvidas tem aspectos muito positivos ao nível do conhecimento, do bem-estar e do nível de vida dos cidadãos, da saúde da mobilidade e em muitos outros aspectos. Por outro lado e em muitas situações perdem-se valores essenciais que se sacrificam ao materialismo com consequências ao nível de uma cidadania que se pretende activa e participada.

Que importância tem os amigos na sua vida?
Os amigos são fundamentais nas nossas vidas. Precisamos deles para partilhar, problemas, dificuldades e alegrias e para conviver saudavelmente.

Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Leio bastante livros, jornais e revistas, vejo televisão, viajo e gosto de praticar actividades no mar. Mais recentemente tenho muito prazer em estar com os meus três netos, que todos os dias vou buscar à escola.

Que sonhos alimentou em criança? 
Não recordo nenhuns sonhos em especial. Já na adolescência, aos dezasseis anos e após ter assistido a um julgamento, decidi que seria advogado.

O que mais o incomoda nos outros?
Incomoda-me verdadeiramente a indiferença de muitos pela causa pública e a má-língua que exibem dirigida a quem se empenha na sociedade.

Que características mais admira no sexo oposto?
Sem dúvida, a inteligência.
Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição? 
Leio bastante e até vários livros ao mesmo tempo. Um livro de eleição, “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marques.
Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
As redes sociais podem ser interessantes mas são também reflexo de muita solidão e depósito de muitas invejas e frustrações. Tenho os cuidados necessários com a informação que aparece e só participo em grupos fechados e familiares. 

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Creio que seria difícil. São hoje para mim tecnologias indispensáveis para comunicar e trabalhar. Esta entrevista é a prova disso.

Costuma ler jornais
Leio jornais todos os dias.

O que pensa da política? Gostava de ser um participante activo?
Penso que é uma actividade nobre e indispensável à sociedade. Lamento que por vezes alguns façam mau uso da política. Tenho sido ao longo da minha vida um participante activo na sociedade.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto de viajar e já viajei por muito lado. No plano sentimental a viagem que mais gostei de fazer foi um cruzeiro com toda a família desde os meus pais, minha mulher e filhos, os meus seis irmãos, cônjuges e filhos. Éramos mais de vinte.
A viagem que mais me impressionou foi uma viagem à Polónia e uma visita ao campo de concentração de Auschwitz onde me confrontei com o pior da humanidade.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Como praticamente de tudo e gosto de comer. Gosto de cozido à portuguesa e bacalhau cozinhado de qualquer maneira.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que Donald Trump, Bolsonaro e outros que tais, tinham abandonado o poder…

Em que época histórica gostaria de ter vivido?
Gosto de viver nesta minha época.
Que perspectiva tem da evolução política na Região nos últimos anos? Estão a criar-se os vícios próprios de quem está instalado há tempo demais no poder? Quer explicar?
É natural que se estejam a instalar alguns vícios numa ou outra área da governação, provavelmente por falta de uma sólida formação democrática de alguns titulares mas, de um modo geral, a minha opinião sobre a evolução política da Região é positiva.
Reconheço, contudo, que existem constrangimentos importantes em algumas áreas como, por exemplo, ao nível dos transportes aéreos e marítimos afectando algumas ilhas.
Como analisa o fenómeno da abstenção nos Açores? Há um desencanto e falta de confiança nos políticos e nas propostas políticas que apresentam? Os discursos políticos não são suficientemente galvanizadores do eleitorado, sobretudo do mais jovem?
Tenho pensado nisso e lido muitos comentários e opiniões sobre o fenómeno da abstenção. As razões são provavelmente muitas mas não faço disso um drama. Discordo de medidas para aliciar pessoas a votar. Confesso que já não tenho paciência. Não têm interesse, não querem saber da causa pública, não votem. Terão de ser os políticos os culpados de tudo?

Até que ponto se pode ligar a crescente abstenção nos Açores com um certo descrédito no projecto político de Autonomia e nas soluções que deveria representar para toda a população em vez de chegar apenas a alguns? Isto tendo em conta que as maiores percentagens de abstenção, salvo alguma excepção, se concentram nos meios urbanos?
A Autonomia foi a melhor coisa que aconteceu aos Açores e tem sido um valioso factor de desenvolvimento da Região. Não creio que a abstenção resulte de um eventual descrédito do projecto político de Autonomia.

Acredita que a abstenção se resolve com a introdução de medidas de estímulo ao eleitor? E qual a sua opinião sobre uma solução deste tipo?
Não acredito nem concordo. Já estive num sítio onde se pagava para o cidadão ir votar. Isso é muito mau. Para além de um direito, votar é também um dever e, por isso, não faz sentido estimular alguém a cumprir os seus deveres.

A ampliação do aeroporto do Faial é inevitável a curto prazo?
Creio que sim. Só com a ampliação da pista é possível normalizar uma situação que tem sido muito complicada com prejuízo para a ilha do Faial e ilhas vizinhas. 
                                                

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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