Novas linhas de investigação sobre os Açores no Mundo

 O que esteve na origem deste convite para a sua ida a Maputo?
Enquanto investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, há mais de uma década que me associo aos colegas no continente para partilha e complemento de informação, inserindo as pesquisas produzidas num todo nacional e internacional. Em 2016, resolvi trazê-los aos Açores, para o I Colóquio Internacional “Detenção, Degredo e Deportação no Império Colonial Português (sécs. XIX e XX): História e Memória”, tendo contado com o apoio do Museu de Angra do Heroísmo e da Câmara Municipal. Saldou-se o encontro como um sucesso a repetir em 2019, em Moçambique, e agora em 2021, em Cabo Verde. Embora numa linha de investigação diferente, estes encontros repetiram-se em São Miguel (2017), associados ao centenário do bombardeamento de Ponta Delgada pelo U-155; no Faial (2018), evocando-se a efeméride da República Nova e o centenário da gripe Influenza de 1918, e finalmente em 2019, em Santa Maria. 

Da sua viagem, que ilações retirou do papel dos Açores no império de então?
São inúmeras. Para além de relembrar e posicionar os Açores e o Atlântico, no complexo sistema de repressão política antes e durante o Estado Novo, facilmente depreendi que a deportação ou prisão nos Açores poderia ser pacífica quando comparada com zona extremas como Mabalane, a cerca de 400 quilómetros de Maputo. Obviamente que enquanto parte do sistema repressivo, a vinda destes condenados políticos para as ilhas constituía uma dupla ou tripla forma de prisão, variando o nível de clausura ou esquecimento por parte do Estado, podendo em caso de desobediência ficarem sujeitos a fortes penas em áreas temidas como a Poterna ou o Caleijão. Contudo, se cumpridores, as autoridades procuravam que, à semelhança do Depósito de Concentrados Alemães na ilha Terceira na I Guerra Mundial, cumprissem a sua pena sem grandes problemas às forças da ordem, regressando ao continente (ou deportados para outras paragem), quando o governo entendesse. Contudo, o formato da pena variava de acordo com os governos estabelecidos e o tempo que analisamos.

É um fenómeno exclusivo da ilha Terceira, e porquê a GNR e o Depósito de Presos?
Apesar de alguns estudos, considero haver a necessidade de aprofundar a realidade das ilhas, no período correspondente à chegada de Gungunhana (1896) e o final da II Guerra Mundial (1945) porque, apesar de uma das principais levas de prisioneiros para o Tarrafal ser oriunda da ilha Terceira, a importância manteve-se e bem, até ao final do conflito. Na primeira metade do século XX, não só existem deportados em praticamente todas as ilhas como surgem Depósitos de Revoltosos, por exemplo em Ponta Delgada e Graciosa. Estes depósitos, efémeros e ao sabor das mudanças políticas na República, acabam por ser substituídos por um maior, o Depósito de Presos em 1933, ano em que António de Oliveira Salazar estabelece o Estado Novo em virtude da Nova Constituição, conhecendo-se duas fases do campo, terminando a primeira com a criação do Campo do Tarrafal, já anunciado pelas autoridades terceirenses ainda antes da sua abertura. A GNR ressurge nas ilhas, após uma rápida passagem em 1921, por ser uma força de segurança altamente especializada; habituada a lidar com este tipo de prisioneiro (ao contrário do soldado açoriano, mais permissivo, amigável e por vezes até abusivo); e por estar a enraizar-se uma célula comunista na cidade de Angra do Heroísmo, para apoio reviralhista a estes presos, com ligações ao rectângulo por via dos tripulantes dos navios da carreira das ilhas. A sua missão é exclusivamente vigiar e controlar os prisioneiros, não lhes cabendo por exemplo aplicar castigos. Esses, estavam numa primeira fase na dependência do comandante do campo, um oficial do Exército em diligência no Ministério do Interior, dependendo da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, dos tribunais e do Ministério do Interior. Tirando uma ou outra situação de maior tensão, e tendo em conta a sua missão, a GNR desempenhou-a sem problemas de maior regressando ao continente em janeiro de 1936, quando a abertura do Campo do Tarrafal era já uma realidade. 

Quais as suas considerações sobre o II Colóquio Internacional «Detenção, Degredo e Deportação no Império Colonial Português (sécs. XIX e XX)», e sobre Moçambique?
Senti que o seminário havia crescido duas a três vezes mais a partir dos Açores. Para além da partilha das pesquisas, em áreas como aldeias portuguesas criadas de propósito para receber aldeamentos autóctones, rodeadas de arame farpado; senti feridas a cicatrizarem-se: anciãs a falar da sua captura e do homicídio/enterro em valas comuns dos maridos pela PIDE/DGS; filhos a narrar o seu critério de felicidade, dentro das prisões, junto das “mães”, sem a noção que a verdadeira felicidade estaria fora daquela prisão. Em excelente ambiente académico, estes e outros assuntos foram debatidos em sã camaradagem, culminando numa viagem de 20 horas, à Prisão de Mabalane, e ao monumento dos 75 que a inauguram, em companhia de uma destas pioneiras. A caminho, conheci um Moçambique profundo e em desenvolvimento: das estradas de asfalto, passamos às esburacadas e por fim, à terra batida. À janela, a savana e uma constante lembrança dos nossos veteranos da Guerra do Ultramar: palhotas e mais palhotas, em diferentes formatos. A prisão: camaratas, em que os prisioneiros dormiam no chão, uma “turca” servindo como wc, sem privacidade, e a narrativa de violentos espancamentos pela PIDE/DGS, fazendo-se deslocar o principal responsável de helicóptero, a partir de Maputo. Teve um mau fim, quando o império colapsou. Vi um povo cujos políticos, demagogia à parte, se envolviam muito com a população (ao que soube, 29 etnias, 26 dialetos. Só 60% fala português), em virtude das eleições presidenciais de 15 de outubro. Vi e ouvi, debates políticos por parte dos estudantes, em sã camaradagem; constatei respeito e preservação da Memória portuguesa no encantador Forte de Maputo, e contatei um povo com muita vontade de aprender, de desenvolver e que, perante muitas adversidades, demonstra felicidade, muitas vezes dançando. 

De regresso, quais as suas expectativas?
2019 Está a ser um ano de finalizar muitos projectos académicos, pelo que preparo um 2020 diferente, mais calmo no que concerne à transmissão/divulgação de conhecimentos, e mais orientado para uma série de pesquisas já desejadas há muito tempo. Trata-se de uma reorganização de Tempo e prioridades, uma vez atingidas várias metas. Para já, os resultados são para além do “crescer” académico, a sempre melhoria perante os meus alunos, que beneficiam directamente destas investigações/aprendizagens. Aliás, dentro do projeto educativo do Colégio do Castanheiro e da Escola Profissional INETESE, o apoio desde sempre concedido é muito revelador da vontade do Grupo Tetrapi de uma Educação para a Cidadania, pró-activa e na linha fronteira à investigação nos Açores. Com a autonomia da disciplina de História, Geografia e Cultura dos Açores, penso serem evidente que quanto maior e mais ampla for a formação dos docentes, melhores serão os resultados. Como sempre, trata-se de um processo aberto aos colegas das outras escolas, até mesmo porque de forma geral já nos conhecemos, uma vez que já percorri a convite, a maior parte das escolas de São Miguel. Como sempre, disponível dentro das minhas possibilidades.

E De Santa Maria? O que poderemos contar?
Santa Maria constitui o quarto seminário que organizo nas nossas ilhas, meditando neste momento sobre um quinto, no Corvo. A dita paragem para um regresso às origens ainda não está ainda totalmente delimitada. No III Congresso Internacional “A República no Pós-Guerra: os Açores, centralidade e comunicações no Atlântico Norte”, regresso a uma linha de investigação tradicional, marcando um tema que queria trabalhar em conjunto com colegas: a questão da aviação nos Açores e mesmo dos aeródromos, hidroportos e aeroportos. Hoje, é um erro apontar as origens da aviação no arquipélago para a II Guerra Mundial. Na realidade, o sistema está a ser estudado e montado no final da I Guerra Mundial, falhando apenas em virtude de dois grandes aspectos: incapacidade tecnológica para assegurar de forma regular as travessias, situação que irá ser refinada ao longo das décadas de 1920 e 1930; e o carácter provisório com que muitas nações olham o estabelecimento destas infraestruturas nos Açores, que por sua vez passarão a definitivas na II Guerra Mundial. Há também que posicionar as ilhas na Aeronáutica portuguesa, uma vez que data desta altura uma série de acções praticas e concretas para o estabelecimento de bases marítimas e terrestres no Faial, Terceira e São Miguel, entre mais estudos.
Este seminário acaba também por ser muito rico pela diversidade de momentos, tendo um dos mais interessantes no lançamento de três obras sobre a História dos Açores, a que se juntam seis opúsculos do Instituto Bartolomeu de Gusmão, numa compilação de conhecimentos que ficará para debater noutra altura, aqui no Correio dos Açores.                     
                                                                                                       

C.A.
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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