16 de outubro de 2019

Com os pés na terra (421)

O Dr. Guilherme Poças Falcão e o São João na Lagoa do Congro

Até à presente data não encontrei nenhum documento que me ajudasse a datar o início da tradição de comemorar o dia de São João, 24 de junho, nas margens da Lagoa do Congro, o mesmo se passando com a data em que a mesma terminou, nem as razões para que tal acontecesse.
Enquanto não encontrar prova em contrário, penso que o São João na Lagoa do Congro só terá começado depois de José do Canto ter comprado, em 1853, 9 moios de terra onde estava implantada a Lagoa do Congro, aberto vários caminhos, construído as casas e criado a sua mata ajardinada, com a ajuda do jardineiro inglês George Brown.
Em relação às casas, nos primeiros meses de 1855, foram postos vidros nas janelas, foi lajeado o seu interior e retelhadas, tendo José do Canto e a família passado alguns dias lá no verão daquele ano.
Sabe-se também que os caminhos abertos por José do Canto para além de se destinarem às plantações e à criação de pastos, também eram usados para proporcionar passeios aos seus familiares e visitantes.
Em toda a bibliografia consultada o nome que aparece associado às festas de São João na Lagoa do Congro é o do seu proprietário Guilherme de Poças Falcão (1855-1942) que sempre autorizou a utilização do espaço por parte dos vila-franquenses e de vários habitantes da costa norte que para lá convergiam a 24 de junho de cada ano.
Guilherme de Poças Falcão, natural de Ponta Delgada, formou-se em direito na Universidade de Coimbra, tendo sido advogado e exercido funções de oficial do Governo Civil do distrito de Ponta Delgada. 
Para além da sua generosidade para com os vila-franquenses, o Dr. Guilherme de Poças Falcão distinguiu-se por ser sócio benemérito da Sociedade Afonso Chaves, apoiar diversas instituições de caridade bem como ajudar muitos estudantes pobres a prosseguir os seus estudos e a proteger viúvas e órfãos, de tal modo que o seu falecimento foi sentido em toda a ilha de São Miguel.
A propriedade da Lagoa do Congro, que não incluía a Lagoa dos Nenúfares que pertencia ao Conde Botelho, foi herdada pela filha de José do Canto Maria Guilhermina que era casada com o Dr. Guilherme de Poças Falcão que numa visita à  mesma pensou recuperar a casa para servir de recreio.
Tudo levar a crer que terá sido no tempo Dr. Guilherme de Poças Falcão, que por vezes também participava, que começaram as festividades de São João na Lagoa do Congro. Sobre este assunto o professor José Cabral, num depoimento publicado no livro “São João da Vila”, de Eduardo Furtado, mencionou o seguinte: …
Assim juntavam-se famílias que iam para a Lagoa do Congro, quando era ainda propriedade do Dr. Guilherme Poças Falcão. Toda a zona era um relvado bem cuidado onde se organizavam balhos populares e onde as pessoas se divertiam de manhã à noite”.
Terão sido alguns dos herdeiros do Dr. Guilherme de Poças Falcão, que não seguiram o seu generoso exemplo, e que pela proibição do acesso à propriedade levaram a que o São João na Lagoa do Congro terminasse. 
Sobre o fim daquela salutar prática, Manuel Inácio de Melo, num texto publicado no jornal “A Vila”, em 1969, depois de escrever que ainda estava “aberta uma dívida a pagar a esse Bom Homem que foi o Sr. Dr. Guilherme Poças Falcão”, acrescentou: 
“Repito, pois, Santos tempos aqueles em que se contam às dezenas as raparigas que balhavam sem haver rogos, trajando vestes garridas e chapéus de palha do nosso trigo com flores campestres. E ficamos por aqui, faleceram aqueles ricos proprietários e tudo morreu na Borda da Lagoa, que passou de um extremo a outro!”

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Categorias: Opinião

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