17 de outubro de 2019

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Viação acelerada – o automóvel

A partir de 1901, quando chegou a S. Miguel o 1.º automóvel (o “Decauville” de Mariano Sodré), a “aceleração” da viação acelerada foi – e continua a ser – de tal ordem que há quem receie pela estabilidade da Ilha do Arcanjo, se acaso um dia esta chusma de carros convergir toda para a Ponta da Madrugada, a nascente, ou para o miradouro do Escalvado, a poente… 
Em Abril de 1902 transitam pela cidade de Ponta Delgada dois lindos automóveis, do eng. José Cordeiro e do dr. Jacinto Arruda, que «pela novidade, muito teem attrahido a attenção do publico”. E, em Julho de 1926, S. Miguel já tem 505 automóveis; em Novembro de 1927, mais de 600! (“Dicionário Cronológico dos Açores”)
O Relatório da Comissão Superior de Viação referente a 1931 reza, entre várias outras informações, que a mais alta numeração de carros atingida nos Açores foi 1116, cabendo certamente a maior parte a S. Miguel. 
Mas, mais interessante do que tais minudências é vermos o impacto que a viação acelerada trouxe a esta urbe sonolenta e espreguiçada à beira-mar, os sobressaltos e agastamentos que a velocidade, o ronco de motores e a estridência de apitos e buzinadelas provocaram nos cidadãos, habituados à velocidade de cruzeiro das viaturas hipomóveis.
Em 1906, o “Diário dos Açores” alerta a população e as autoridades para o perigo constante que resulta da confusão entre «os toques de alarme d’automoveis e bicycletes», pois, «mais do que nunca, com o desenvolvimento que a velocidade tem aqui tomado, parece ter augmentado de um modo quasi exclusivo o numero de cornetas».
«Ao atravessarmos qualquer rua são a cada passo feridos os nossos ouvidos pelos timbres e cornetas [das bycicletes], signaes de que os velocipedistas usam e muitas vezes abusam. A campainha desfere um som que previne sem incommodar. A corneta, pelo contrario, irrita excessivamente (. . .) Isto (. . .) toma uma feição accentuadamente grave [pela] similhança entre o som das cornetas de velocipede e o som das cornetas dos automoveis. Esta similhança (. . .) é eminentemente perigosa. O publico de Ponta Delgada deve esperar as providencias necessarias (. . .) que não podem consistir senão em que apenas seja usada a campainha como signal preventivo por parte dos velocipedes». Enfim, confusões sonoras ou sonoridades confusas…
Os carros, estes são cada vez mais, e mais potentes, como se depreende desta notícia de Março de 1914: «O automovel do sr. dr. Francisco A. Machado de Faria e Maia, que é uma excellente machina “Sperber” subiu ha dias o rebentão dos Barreiros com quatro pessoas, serviço que ainda nenhum outro conseguio fazer».
Em 1915, raia o caos na cidade à conta dos aceleras, como se lê no “Diário dos Açores” de 27 de Setembro: 
«A DESPOTICA SOBERANIA DA AUTO-LOCOMOÇÃO: Circulam nas caprichosas ruas, em que habitam os 17:620 moradores de Ponta Delgada, 103 automoveis e não sabemos quantas ruidosas moto-cicles! Pelas tropelias de tão descomedidos caminheiros, toda a população d’esta cidade se move sempre receiosa, d’olho atraz, olho adiante, para se guardar, quando não seja de um atropelamento, ou “dérrapage”, (. . .) pelo menos de um esguicho de lama, que provocadoramente parece desafiar os simples mortaes, cuja locomoção “pelintra” se faz em “auto boot”. Já não se pode sahir de casa despreocupadamente. É, quasi sempre de corrida, cosido com as paredes e agarrando a familia e os velhos (. . .) parecendo esperar o fim dos seus dias ao voltar d’uma esquina! (. . .)
– Arreda, arreda, que ahi vem um automovel! – é o grito constante que se ouve entre peões (. . .) Misericordia, pois, para os nossos ossos, limpesa para as nossas roupas e um pouco de socego para os nossos ouvidos!» (“Açoriano Oriental” de 27Mar1915)
Inevitavelmente, os desastres começam a engordar as colunas dos jornais. É carro contra carro, carroça, charabã, carro de pão, bicicleta, camionete, árvore… a que acresce o atropelamento de animais e pessoas…
Em Abril de 1932, o “Correio dos Açores” publica «UMA ESTATISTICA QUE PROMETE… Durante o primeiro trimestre de 1932 registaram-se em Ponta Delgada 21 desastres de automóveis», isto com a respectiva calendarização, descrição e estragos produzidos. 
Do “Correio dos Açores” de 14 de Abril de 1933 respigámos esta notícia:
«(. . .) na estrada da margem da Lagôa das Furnas deu-se um violento choque entre dois automoveis, um Essex e outro Rosengart (. . .) ficaram ambos com as rodas da frente e frentes do motor muito avariados, tendo sido arrastados para as Furnas por juntas de bois (. . .)». 
Na altura, não havia auto-reboque. Só boi-reboque, com tracção às quatro patas…
 

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Categorias: Opinião

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