18 de outubro de 2019

Coisas do Corisco

Era só o que nos faltava agora!

Li neste jornal, no Correio dos Açores de hoje, domingo dia 13 de Maio, que existe uma  empresa de sucesso açoriana, fabricante de, ao que soube, belíssimos licores e de outras bebidas espirituosas, que se presta para plantar cana de açúcar em S. Miguel, certamente para  entroncar na actividade que a tem feito crescer internacional, e localmente,  preparando-se, mesmo, para receber apoios para o efeito.
Historiando devo dizer, em primeiro lugar, que a produção de cana de açúcar sempre foi a nível mundial, quanto a mim, um autentico rosário de preocupações, recheado de grandes dramas e de   péssimos exemplos dados ao longo dos tempos, principalmente nos países tropicais e sub tropicais muito pobres. Por isso, a produção de cana de açúcar, convive, como sempre conviveu, no topo da cumplicidade da exploração de mão-de-obra  escrava, existente nas terras negreiras, de muitas regiões tropicais e sub tropicais,  do planeta. Também por isso, a sua cultura tem exercido, ao longo dos tempos, um forte fascínio, assim como um dramático teatro de sofrimento, suor, sangue, e lágrimas, onde o domínio das nações ricas  prosperou, escondido na exploração da mão-de-obra escrava, conivente com os  ódios e o racismo, que foi seguido, nas plantações de cana de açúcar e de algodão.
Assim poder-se-á dizer que as explorações da cana de açúcar, e do algodão, estão intimamente ligadas sob o mundo da cobiça dos ricos em enriquecerem à custa de pactos mafiosos com os chefes e dirigentes das regiões produtoras e possuidoras de mão-de-obra barata; à custa da  disponibilidade de terras imensas, não muito produtivas, cedidas sob negociatas tendenciosas e muito estranhas, aos barões do açúcar. 
Para que se saiba, a cana de açúcar é uma gramínea, pertencente à família das poaceae, altamente susceptível a pragas e doenças. É também uma  planta altamente infestante e esgotante, enfim uma planta dominante que quanto a mim, no nosso frágil ecossistema, a sua plantação e exploração,  sem sentido, tornar-se-ia numa fábrica de dores de cabeça.
Por isso o seu cultivo tem, desde há muitos anos, gerado imensa polêmica nas regiões onde tem sido cultivada, com grande impacto e fantasiosas premissas no começo para, depois, principalmente nas regiões mais pequenas, ter desaparecido, deixando um punhado de nada, por lhe ser impossível continuar a produzir capazmente por variadas razões que não compete aqui, agora, extrapolar. O que é um facto real, é que  a cana de açúcar, tristemente desapareceu sem glória de praticamente todas as pequenas regiões  onde foi esperançosamente  cultivada.
As grandes extensões de terreno requeridos para a sua lucrativa exploração, os graves problemas ambientais que a sua  cultura causa, e a sua exigência em água são problemas de monta que a ser cultivada em São Miguel, certamente  nos lançaria na azelhice de conduzirmos terrenos riquíssimos  com uma cultura polêmica, em vez de produzirmos aquilo  que os nossos ricos terrenos têm capacidade para produzir.
Com as suas características tropicais, a cana é fundamentalmente cultivada na América Latina, Ásia e Extremo Oriente, sendo os seus maiores produtores mundiais o Brasil, a Colômbia, Índia, China, Tailândia e Paquistão, por essa mesma ordem.
Uma coisa é certa. A produção de cana de açúcar nunca foi consensual pois só os altos interesses dos países ricos nas terras de nações pobres, por um prato de lentilhas, a corrupção dos seus governos e a disponibilidade de mão-de-obra escrava, os fizeram investir na exploração da cana de açúcar.
Para além disso, a cultura de cana causa problemas  ambientais, a destruição da fauna circundante, uma erosão acelerada  dos solos, e a contaminação e esgotamento da água subjacente acrescido, ainda, de uma expansão vegetativa descontrolada, dominando os espaços, atrofiando todas as áreas circundantes com a malignidade do bambu, das canas vulgares  e do capim alto.
Curioso é que para alem da agressividade da cana-de-açúcar  ela é, altamente susceptível a muitas pragas  e doenças, necessitando de tantos tratamentos que promove uma grande contaminação dos cursos de água, assim como dos lençóis freáticos  circundantes. 
Por isso, e em resumo, a minha opinião é a de que autorizar-se a exploração da cana de açúcar em São Miguel, será um erro histórico como foi no Hawai, na ilha de Oahu, onde depois  de desaparecer deixou grandes áreas produtivas da ilha esgotadas, polvilhadas de raízes, os solos completamente esgotados, e as suas reservas de água nas lonas.
Trazer a cana de açúcar para os Açores, será algo semelhante à introdução, na década de 60,  em S. Miguel, da erva da abelha com os prejuízos daí resultantes. Com a erva da abelha, sem qualquer estudo de impacto ambiental, introduzimos um planta diabolicamente dominadora que se expande subterraneamente pelas suas raízes, com muito difícil controlo. 
Põe-se a questão de haver retorno positivo com a produção  de cana na ilha da Madeira. E há. Só que a sua cultura é feita em zonas de terrenos pobres, em socalcos que, só pior si, controlam a sua desenfreada expansão. Além disso não vejo as ricas terras de pão da nossa ilha cobertas de canaviais doces no sabor, mas amargos na sua acção, qual polvo afogando tudo à sua volta.
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Categorias: Opinião

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