20 de outubro de 2019

Arquitectura LXX

Pois é, mas por cá apenas e rapidamente vingou forte a ideia pragmática de arquitectura como curso prático para atender um mercado muito pouco exigente, que nós próprios arquitectos, ajudámos a criar, e por incapacidade nossa fomentámos e alimentamos, e por isso aqui, já “fechou” o curso de arquitectura na Universidade dos Açores.
Mas também já não foi o primeiro, o que significa que antes das ideias se passaram a pôr os números, quer a abrir cursos quer a fechá-los. 
Entre o ideário de Paulo Mendes da Rocha, que felizmente tantos partilhamos e o “Arquitecto para todo o serviço” que o anúncio nos disponibiliza, vai todo um curto e muito infeliz percurso que até aqui nos trouxe, e que infelizmente tivemos a sorte(?) de testemunhar.
E realmente, já vemos como Tadao Ando tinha razão quando nos dizia: “ a arquitectura dos investidores vai substituir a da cultura e vão deixar de precisar de arquitectos”.
A da cultura é aquela que partilhamos com Paulo Mendes da Rocha, e a dos investidores a visão pragmática de resposta rápida e barata a um mercado muito pouco exigente, mas onde tudo tem que dar lucro, onde o capital mata as ideias e o tempo.
A arquitectura ao longo da história foi sempre atributo de Mestres e Engenheiros, estigma de que não se libertou, e de que bem se aproveitaram e aproveitam os Engenheiros.
Nascida como curso profissional nas Belas Artes, também nunca delas se libertou, cultivando a boémia e a irresponsabilidade que aí grassavam.
Neste cenário, saiu das Belas Artes e ingressa na Universidade Técnica, libertando-se a cada passo das disciplinas das ciências e técnicas, ora deixando-as cair, ora reduzindo-lhes a carga horária e respectivo âmbito curricular, enformando e informando apenas a área do projecto, o mais das vezes alheia de todas as envolventes que o deviam conformar.
E assim, fomo-nos formatando num quadro estreitamente disciplinar, na ausência de pragmatismo e numa arrogância cultural, que auxiliadas pelo desprezo que os políticos demonstram pela técnica em benefício da rapidez das decisões e soluções, de falsas economias e desenvolvimentos, nos conduziram ao arquitecto para todo o serviço, caldeado entre alugueres e prazeres.
A proliferação de cursos de arquitectura, onde a concorrência nivelou por baixo, trouxe consigo a maior razão de profissionais por habitante, dificultando a meu ver, num país pobre e pequeno, que já demonstrava uma certa alergia aos arquitectos, vulgarmente considerados utópicos e irrealistas, a sua empregabilidade e aceitação.
Simultaneamente perdeu-se a escola que os ateliers constituíam, onde entre colegas se partilhava o ideário de arquitectura como “forma peculiar de conhecimento multidisciplinar e abrangente”, logo ali desde os primeiros anos das Belas Artes.
Hoje o ambiente é bem outro, e nos ateliers, melhor dizendo, nos gabinetes de arquitectos empregam-se recém formados a muito baixo custo, ou mesmo a custo zero, esperando a nova leva de formatura para a sua pronta substituição, nas mesmas miseráveis condições. 
E assim, assobiando para o lado, continuamos a ter o território desmantelado, cheio de objectos esdrúxulos replicados segundo modas formais, desconexos nos conteúdos, desgastando-nos em guerras superficiais, tantas vezes internas, entre pares, enquanto proliferam clandestinos e outros “curiosos do projecto”, remetendo-nos a muito baixo custo e sem tempo, às poucas atribuições que a legislação ainda não revogou.
Esta mediocridade, não impede contudo, o exceptional reconhecimento de uma arquitectura projectada por alguns, muito poucos arquitectos de nomeada internacional, que a exercem muito mais lá fora, em mercados de excepção, do que por cá.
Mas não são estes, sem mãos a medir, que nos reabilitam o território, onde o político de mãos livres é quem manda, desmobilizando os poucos técnicos que ainda nalguns organismos públicos sobrevivem, esvaziando os organismos de poder técnico, enterrando sem critério projectos, e começando sempre de novo porque ele é que sabe, conhecimento que ainda por cima julga que reforça com o andar do tempo, quando afinal, na sua ignorância, só confunde saber com prepotência.
Neste caminho fazendo a vontade aos promotores, sem capacidade de reacção, na mira de uns trocos, já nem vislumbramos a importância da arquitectura no desenvolvimento social das comunidades, que todos devíamos reivindicar.
Atingido o patamar entre alugueres e prazeres, “para todo o serviço”, alguém vislumbra ou se interessa pela inversão do processo?  

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima