Nossa Gente (220) - José Maria Jorge

“Gostaria de ter concluído a Casa do Escuteiro”

 Onde é que nasceu e como foram os seus primeiros tempos de vida?
Nasci a 21 de Junho de 1951 em São José, na cidade de Ponta Delgada. Foi um parto prematuro e muito complicado. Nasci com 7 meses. Minha mãe era RH negativo. Esteve 10 anos sem filhos e ao fim desse tempo, eu nasci, o que contribui para que muitos dos meus primos sejam muito mais velhos do que eu.
Meu pai trabalhava nos escritórios da empresa Varela e minha mãe era doméstica. A determinada altura, fomos morar para a freguesia da Conceição, na Ribeira Grande e lá fiz a 1.ª e a 2.ª classe na Escola Central, com um professor que recordo com muita saudade, o professor Leonel. Tenho amigos com quem ainda convivo desse tempo de escola, nomeadamente o João Reveredo e outros.
Depois, regressámos para Ponta Delgada, para a freguesia de São Sebastião, já prevendo que depois teria que ir ou para o Liceu ou para a Escola Industrial porque não havia transportes naquela altura.   
Estive numa escola, que é a actual Biblioteca Municipal. Só tinha duas salas de aula: da parte manhã, era a 1.ª e a 2.ª  classes e da parte da tarde, a 3.ª e a 4.ª classe. O nosso recreio era o tribunal – o actual auditório municipal. Assistíamos a muitas sentenças e a muitos julgamentos. Brincávamos nos corredores.
 Foi aí nessa escola que, pela primeira vez, tive contacto com os escuteiros quando estava na 4.ª classe. O padre José Maria de Almeida ia lá dar uma aula de moral de 15 em 15 dias. Não havia tecnologias. Eram uns quadros/painéis que ele levava. Para nós era delirante porque interrompia todo o ensino e tínhamos aquela hora e meia de maior descontracção. Ele tinha uma cruz ao peito e como era curioso, quis saber o que era. E um colega meu disse-me: “aquela cruz significa que ele é assistente dos escuteiros”. Perguntei então o que eram os escuteiros e a resposta que tive foi que era “uma coisa fora de série”.

Que idade tinha quando entrou nos escuteiros?
Tinha 9 anos. Comecei como Lobito e fiz o percurso todo. Os primeiros dias como Lobito foram um bocadinho difíceis. Eu tinha alguma dificuldade na integração de grupos novos. Para além de dois ou três colegas de escola, não conhecia os outros. Mas, depois, a coisa correu maravilhosamente. Quando acabei a 4.ª classe fiz o exame de admissão ao Liceu e à Escola Industrial, no caso de perder um, avançava para o outro. Por acaso, passei nos dois e optei pela Escola Industrial.
Na escola industrial, fiz um percurso normal. Tive professores de que me recordo com muita saudade: o Dr.Palha ; o Dr. Albergaria, que morreu muito novo, era meu professor de português e deixou marcas muito profundas na minha formação a nível de português; e o Jorge Amaral também na ginástica.
Tenho dois lemas na minha vida que procuro seguir. Uma é da autoria do Jorge Amaral: “Insiste, persiste e nunca desiste”. Isso ficou-me sempre em toda a minha vida perante os obstáculos. Ainda estou a vê-lo ao nosso lado, com o seu equipamento a dizer aquela frase. O outro lema foi do Padre José Maria. Quando era escuteiro, quando fiz a minha promessa de explorador, devia ter uns 12 anos de idade, ele escreveu num livrinho “Serve e nunca te sirvas”. Portanto, esses 2 lemas, um do meu antigo professor de Educação Física que ainda é vivo, e do Padre José Maria, já falecido, estão sempre na minha mente em tudo aquilo que eu faço.
Apesar de ter familiares no continente, pôs-se logo de parte a hipótese do ensino superior porque os meus pais não tinham possibilidades financeiras. 
Nós vivíamos numa época muito interessantes. Quando acabávamos o curso – tirei o Curso de Formação Geral do Comércio – a nossa dificuldade era escolher o emprego.

Havia muito emprego?
A oferta era grande. Muitas pessoas de famílias abastadas, que não queriam seguir estudos, ficam-se pelo 5.º ou 7.º ano, tinha mais dificuldade em entrar no mercado de trabalho do que nós porque nós tínhamos formação comercial (contabilidade, caligrafia, dactilografia). 
Comecei a trabalhar de uma forma muito interessante. Quando estava nos Escuteiros, abriu o Centro de Educação Especial dos Açores, na Rua de Lisboa, para crianças. Não havia educadoras, mas sim auxiliares de educação e os professores. Na altura, era a Cinelândia Cocumbreiro que era a directora do centro especial da parte dos cegos. Ela convidou os escuteiros para colaborar com as crianças. À 4.ªfeira da tarde, como não tínhamos aulas, íamos para lá. Eles estavam em regime de internato. Eram de todas as ilhas, com a excepção de Flores e Corvo. O maior número de crianças era de São Miguel. 
 A certa altura, o Conselho Pedagógica apercebe-se de que era preciso uma figura masculina pois os miúdos estavam a crescer. O Centro era gerido pela Associação Santa Rainha Isabel, em que a directora era a Dra. Ana Maria Bernard da Costa, uma grande pedagoga. Trataram da admissão do primeiro elemento masculino, mas a Cinelândia queria que eu e o António Manuel, fossemos admitidos. E, então, fomos autorizados. Tivemos a proposta de emprego com um ordenado que, na altura, era muito bom.  

Entretanto, continuou o percurso no escutismo.
Fui evoluindo nos escuteiros. Cheguei a chefe de agrupamento. No entanto, sou chamado para cumprir serviço militar em Leiria. Como tinha um problema na úlcera, fiquei nos serviços auxiliares. Primeiramente, deram-me como incapaz e regressei ao centro. Ao fim de um ano, a guerra estava ficando mal e eles lá então resolveram fazer uma reanálise de todos aqueles que tinham sido dispensados e fui chamado. Fui para exames no Hospital da Estrela, isto em 1973. Neste intervalo de tempo, nos escuteiros, conheci o Dr. Mota Amaral. Ele era deputado de Acção Nacional e ia lá à sede muitas vezes para saber o que a juventude pensava de vários temas. Quando ele soube que eu estava no hospital, foi-me visitar. Fui reconduzido no serviço militar e em Janeiro de 1974, assentei Praça. E vivi toda a Revolução. Estava em casa de uns tios meus em Lisboa, na zona do Restelo quando vejo na televisão que estavam a obrigar os militares a regressar aos quartéis. Regressámos naquela noite e foi desconfortante chegarmos lá e termos que nos despir para ver se não levávamos para dentro dos quartéis o livro de Spínola. Além das malas terem sido reviradas, entrámos praticamente de boxers e botas no quartel! Tivemos que ser todos muito bem vistoriados. Acabámos a recruta logo na semana a seguir e depois fui tirar a especialidade para o Porto. Estava lá quando se deu o 25 de Abril. Fomos para a praça e assistimos à prisão do Comandante.
A partir daí (do momento da prisão) foi uma indisciplina brutal porque, logo no dia a seguir, havia colchões de palha de algumas camaratas incendiados pois havia militares que não queriam dormir mais naquelas condições. 
Pediram ao nosso pelotão para defender a central eléctrica na Maia visto que fornecia iluminação ao Porto. Éramos 4 ou 5 daqui dos Açores. E lá fomos nós, o nosso pelotão, de G3, fazer a defesa da central com um tenente madeirense. Havia muita relva, tipo capina, muito alta. Não se via nada. Então, a certa altura começa, a ouvir-se umas vozes e a ver a relva a mexer-se. Lembro-me perfeitamente do grito que dei: “Queda”. Tínhamos que nos atirar, preparar a G3 e afinal havia ali perto uma aldeia que estava em festa e ao saber que estávamos lá em cima, foram nos levar comidas. Eram jovens com leitão, couve, galinha…Sentamo-nos e nunca mais nos lembramos de fazer a defesa…
Depois desse movimento revolucionário, regressei a São Miguel, estive uns tempos no quartel-general e em Dezembro 1975 acabei a minha vida militar.

Voltou à ilha...
No quartel em São Miguel, vivi todo aquele drama com a FLA e os militares.
Entretanto, surge a Junta Regional dos Açores e aparece as primeiras vogalias. Não havia quadros. Havia só Junta Geral. E então, perguntaram a todas as IPSS se tinham funcionários que quisessem transitar para essas secretarias que na altura se chamavam vogalias. Eu aceitei e fui trabalhar com o Dr. Henrique Aguiar. Essa Junta Regional tinha vogais do PS e do PSD, que eram os dois partidos maioritários. O presidente era o Altino Magalhães. Comecei a minha carreira administrativa aí e depois com o primeiro Governo Regional, passou a Secretarias Regionais e nós fomos integrados nos quadros. Eu fui integrado no quadro da Secretaria do Comércio e Indústria.

A sua vida como escuteiro, evoluiu…
Quando regresso a São Miguel, continuei nos Escuteiros. Cheguei a ser chefe de agrupamento do 107 de Ponta Delgada. Tínhamos a grande necessidade de ter uma sede própria porque a sede que tínhamos ficava na Rua Pedro Homem, numa casa gentilmente cedida pelo Eng. Costa Santos, que era de herdeiros. Mas o edifício estava muito degradado. Descobrimos que havia um terreno na Rua Mãe de Deus que pertencia à Câmara Municipal. Fizemos o pedido para nos ceder o terreno para construir o edifício. Anuíram, foi à Assembleia Municipal e na altura, era membro da Assembleia Municipal, o Luciano Mota Vieira. Ele disse-nos que havia outros agrupamentos de escuteiros em São Miguel. Havia a AGP – a Associação de Guias de Portugal, que também estava na nossa sede, e a AEP. “O terreno é grande e julgo que se devia consultar as outras associações primeiro para saber se também estão interessadas no terreno” disse o Mota Vieira. É óbvio que disseram que sim,  e a Câmara dividiu o terreno em 3 lotes que foram sorteados. Na altura, o Secretário Regional do Equipamento Social era o Germano Domingos. Disse-nos que teríamos de que nos organizar e constituir uma comissão. Era eu do 107, um elemento da AEG (D. Conceição Azevedo) e outro da AEP (o Macedo). A D. Conceição acompanhava-nos, o Macedo ficou responsável pelo acompanhamento da obra, que ficou adjudicada, na altura, à empresa Costa Dias e eu fiquei com a responsabilidade de arranjar contactos para pedir apoios para a obra. E funcionou muito bem, tivemos os apoios necessários e conseguiu-se construir as sedes.

Estava no Comércio e Indústria?
Sim. Casei-me e pouco tempo depois do meu filho ter nascido, o Banco Comercial dos Açores decide abrir uma agência no Largo 2 de Março e abriu concurso. Quando alguém na altura decidia concorrer a um emprego e dizia que era escuteiro, as entidades, geralmente, contactavam-nos para pedir opiniões. E quando concorro, um colega meu levou-me os impressos. Na altura, o meu chefe na Secretaria do Comércio e Indústria, José Manuel, dizia que eu o sucessor natural dele  e respondi-lhe que já estava no topo da carreira, como técnico auxiliar principal e que só poderia ir a chefe de secção ou repartição… 

Concorreu para o BCA.
Sim, depois da entrevista, fiz provas na Escola Industrial durante um dia inteiro. E ainda tivemos uma entrevista, com um psicólogo que mandaram vir de Lisboa. Recordo-me que o aspecto do psicólogo que me impressionou. Fez perguntas do género: “com que idade começaste a namorar?” e “que idade tinhas quando teu pai deu-te as chaves da porta da casa?”.
Concorreram 10 pessoas. Mas pensava que ia para o Largo 2 de Março e fui colocado nos Serviços Centrais na Matriz vários anos. O ambiente era agradável, uma sala com muitos colegas.

Fez a sua carreira toda no BCA?
Fiz a minha carreira até que um dia recebi uma chamada do Gualter Furtado...

Mas foi evoluindo no escutismo.
Sim e na política também. Recordo-me que ainda estava na tropa e num dia 8 de Dezembro, o dr. Mota Amaral viu-me. Disse-me que estavam a tentar fundar a JSD cá e que gostaria que os fosse ajudar. Respondi logo que não podia porque estava na tropa e também porque ainda estava a estudar os programas do PS e do PSD. Ele disse-me qie, quando decidisse alguma coisa, para falar com ele. 
Ainda estive uns anos valentes no agrupamento 107. E concorri à Casa do Povo do Pico da Pedra em 1981. 

Desde esta altura que esteve na Direcção da Casa do Povo?
Não. Estive 4 anos e depois saí para ir para Junta de Freguesia e regressei depois.

Como entrou no PSD?
Um dia, recebo uma chamada do Artur Martins. Como o Dr. Mota Amaral  fazia 40, o Artur Martins sabia que éramos amigos, disse-me para ir com ele e outras pessoas para o jantar de aniversário na Casa do Povo da Ribeirinha. E lá fui. Cheguei lá e descubro que 90% das pessoas que lá estavam eram meus amigos, incluindo escuteiros. Apesar de ter caído lá de para quedas, senti-me em casa e quando fui cumprimentar o Dr. Mota Amaral, ele diz-me que ficou admirado por me ver ali. Respondi-lhe que o tinha ido felicitar e também conhecer melhor o PSD por dentro. E ele tem uma demonstração  que ao longo dos anos vim comprovar de que tem uma memória espectacular. Diz-me assim: “Só é pena que tenhas levado 8 anos, desde o convite que te fiz, no canto de baixo da Rua do Valverde para vires conhecer o PSD”. 
A partir daí, comecei a colaborar. Tive vários cargos. Pertenci a dezenas de comissões políticas concelhias. Cheguei a ser candidato a deputado, mas não fui eleito. 
E um dia, recebo um telefonema do Gualter Furtado, da Caixa Económica, a dizer que queria falar comigo. Disse-me que o Dr. Mota Amaral o tinha convidado para Secretário Regional das Finanças e então convidou-me para Director do Património. Queria uma pessoa de confiança lá pois era uma área muito sensível. Tinha 48 horas para me decidir e aconselhei-me com o Manuel Arruda, que já tinha estado no cargo.  Aceitei o convite e estive 4 anos como Director do Património. Recordo-me desse tempo em que se teve de percorrer as ilhas para fazer o levantamento do património da Região. Conseguimos uma carreira específica, na altura, para o pessoal do património, pois não existia até então.  

Depois, foi convidado para a Câmara da Ribeira Grande…
Quando o António Pedro Costa é eleito para a Câmara Municipal da Ribeira Grande, falaram comigo para ir para lá. E assim o foi. Em vez de estar 4 anos fora do BCA, acabei por estar 17!
Não me deram nenhum lugar de destaque quando regressei ao banco. Fui muito bem recebido pelo Administrador. Na altura, o banco já era Banif Açores. Entrei apreensivo. O banco que eu tinha deixado não existia. Ali já era um mundo diferente. Mas fiquei numa secção espectacular de análise de processos antes de se desbloquear as contas. 

Reformou-se no Banif?
Sim, reformei-me. Quando voltei para o Banif, já estava disponível para a reforma, mas naquela altura, a quota para as aposentações já estava esgotada. Acabei por ficar três anos e correu muito bem.  

Criou vários serviços na Casa do Povo.
Criamos um terminal de serviço social, uma sala de jogos e uma biblioteca. A partir daí, determinamos usar essa zona para trás e fomos ter com o Secretário na altura, o Sr. Américo Natalino Viveiros. Ele disse-nos então que nos arranjaria um arquitecto e que teríamos de fazer um mapa de intenções: “Vão pegar na planta que têm, vou mandar alguém fazer o levantamento topográfico e vocês vão dizer o que é que querem”. O arquitecto tinha que localizar o parque infantil, o campo de futebol e o polivalente na eventualidade de se querer fazer algo mais no futuro. O que queríamos fazer, tinha de ser feito devagarinho. Deu-nos um arquitecto espectacular. Primeiro, fez-se o polidesportivo que era o que abrangia mais modalidades. Depois, avançamos para o parque infantil e seguidamente para o campo de futebol – que actualmente já tem relva sintética. E por fim, a zona de lazer. Surge também a ideia da creche. Havia muitos casais novos que queriam uma. Mas aí já foi um pouco mais difícil porque os técnicos diziam que o Pico da Pedra não tinha população suficiente para que se justificasse a abertura de uma creche, atendendo que já havia em Rabo de Peixe. E debatíamos que havia necessidade. Além da creche, construímos um centro de convívio de idosos. Fez-se uma candidatura, já no governo socialista, que foi aprovada no valor de cerca de 1 milhão e 200 mil euros. Inaugurou-se há quase 11 anos.
Temos serviços administrativos, uma biblioteca – com o nome de Onésimo de Almeida - com mais de 6 mil livros, a creche que tem 35 crianças dos 5 meses aos 2 anos e um ATL que recebe 60 crianças da escola e temos um 2.º ATL que funciona na escola primária, através de um protocolo feito com a Câmara Municipal, a partir das 15h com 50 crianças.

E o Centro do Dia?
Tem 17 utentes no centro do dia e 35 no centro de convívio. O centro de convívio está em funcionamento durante o dia todo. Vamos buscar as pessoas a casa. Já o centro de convívio é só três vezes por semana e funciona das 14h às 17h. Temos 27 funcionários efectivos, fora os dos programas ocupacionais.

Foi o escutismo que o projectou...
Sim, sem dúvida. E dá projecção por quê? Porque, quando o José Guilhermino era chefe de núcleo de São Miguel e se demite, eu era o adjunto dele. Pela lógica, eu era o substituto natural dele. Mas a par disto, eu tinha a chefia do agrupamento 107 e para mim era complicado. Tinha ido para lá aos 9 ano e, naquela altura, tinha 37 anos. Sabia que ia ser um cargo solitário, deixava de ter aquele convívio diário com os jovens. Apesar de ser chefe de agrupamento, gostava de aparecer nas reuniões e actividades. Para não parecer um chefe ausente. E aquele convívio é que me dava forças. O que me arrepiava era ter que fechar-me num gabinete. Mas também não havia ninguém disponível para avançar e então falei que só avançaria para a chefia do núcleo de ilha se o agrupamento 107 continuasse em condições. Eu e o Pedro Amaral avançamos então para a junta de núcleo e o Francisco Amorim avançou para a chefia do 107. A Câmara Municipal disponibilizou-nos uma sala na Ladeira de São João e começamos a fundação de agrupamentos por várias freguesias. 

E quantos agrupamentos foram criados?
Passou-se de 12 para 30. E é óbvio que começo a ir às reuniões, às festas e começo a ser conhecido em toda a ilha porque temos agrupamentos desde os Ginetes até à Pedreira do Nordeste. Portanto, identificam-me muito. E também passo a ser conhecido porque comecei a aparecer na televisão. 
Há 2, 3 anos, fui ao Corvo e lembro-me de um rapaz que tinha estado comigo na tropa. Perdi-o de vista após a tropa. Mas ele disse-me que foi-me sempre acompanhando devido às entrevistas que dava na televisão por causa dos escuteiros, da Casa do Povo. “Fui acompanhando a tua caminhada para a velhice!”, disse-me. (risos) Este senhor, por acaso, é o pai do do actual presidente da Câmara Municipal de Vila do Corvo. 
 
E quando saiu do escutismo, o que ficou por fazer que gostaria de ter feito?
Gostaria de ter concluído a Casa do Escuteiro. Da parte das autarquias e do próprio Governo Regional, havia algumas reticências em passar algo para o nome dos escuteiros porque a titularidade era da Junta Central do Continente. E por isso, criamos a Associação Alerta – Associação do Escutismo Católico dos Açores – e esse património já está no nome dessa associação, o que tornou tudo mais fácil. Sou o Presidente da Assembleia Geral desta Associação e também do Conselho de Justiça e Jurisdicional do CNE da Junta Regional dos Açores. Mantenho esses 2 cargos.
 
É muito provável que ainda vá iniciar a obra da Casa do Escuteiro...
Pelo menos se apanhar o seu início. Mas alegra-me quando dizem que ainda precisam de mim. No entanto, não quero ser sombra de ninguém. Por isso, tenho que ter o equilíbrio entre o “ajudar” e o “impor”. Não sei ainda se vou aceitar ou não o convite que me foi feito para assessorar o novo Presidente do Núcleo de São Miguel…
Queria dizer que tudo quanto eu fiz, quer a nível social, político e até profissional, deveu-se essencialmente, às regras, aos ideais de vida e ao método do escutista. E, acima de tudo, ao sentimento de serviço aos outros. Isto é que me fez aceitar todos os convites que me foram formulados para integrar diversas instituições a título de voluntariado.


Que vai fazer a seguir?
O projecto da Casa do Povo ainda não terminou. Tenho um certo gosto de o ver concluído. E isto dá-me uma certa força para avançarmos. Nos escuteiros, para além da Casa do Escuteiro que é imprescindível, aquele novo pavilhão, gostaria que tivesse havido uma intervenção grande na zona de Lagos – o nosso parque escutista por excelência. Apesar de estar sob a jurisdição do agrupamento 436 da Vila Franca, gostaria que se tivesse criado ali infra-estruturas, quer eléctricas, quer em termos de água potável, dos equipamentos necessários para que se conseguisse realizar as actividades sem ter que montar de raiz todas as vezes.
Aqui na Casa do Povo, comprou-se uma casa a sul, que está em ruínas. Estamos a tentar adquirir uma casa pequena que há e gostaríamos de construir um novo equipamento em que tivéssemos um espaço museológico pequeno, salas para artesanato, salas de trabalho onde as pessoas se pudessem reunir, e também termos capacidade de receber as crianças que, com 10 anos, saem da freguesia. Porque quando vão para o básico ou vão para Ponta Delgada, Rabo de Peixe ou Ribeira Grande e os ATL’s que estão aqui na freguesia só dão apoio até ao 4.º ano de escolaridade. E muitas dessas crianças regressam cedo da escola e não têm para onde ir até os pais chegarem a casa. Queremos ter meios para que eles possam estudar lá. É um sonho, vamos ver se o conseguimos concretizar.

 Qual foi um dos cargos mais difíceis que ocupou ao longo da sua vida?
Foi sem dúvida integrar a Comissão de Crianças e Jovens em Risco na Ribeira Grande. Estive lá desde a sua fundação. Ocupei o cargo de Secretário e também de Presidente. É muito complicado. Os casos que me chegavam eram de tal complexidade que obrigariam a uma inter-ajuda de várias secretarias porque muitas das situações que apareciam lá, nomeadamente gravidezes precoces, entre outros, tinham a ver com a habitação. A Comissão não tinha meios para resolver muitas das situações.
 
Quais eram os maiores dramas que lhe apareciam na Comissão?
Sem sombra de dúvidas, violência doméstica. Se bem que um pouco encobertos, mas também violência sexual. Havia casos muito problemáticos. Descontrolo brutal na natalidade brutal. Absentismo escolar. Habitação altamente degradada que trazia problemas gravíssimos em que os quartos eram separados por reposteiros e irmãos dormiam com irmãs na idade da puberdade… Mas falo de uma realidade de há 20 anos.

                                         

João Paz/Rita Frias

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Autor: CA

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