“Não queremos nadadores salvadores a fazer salvamentos, queremos nadadores salvadores a fazer prevenção para evitar que sejam feitos salvamentos”

A 23 de Dezembro de 2009 nascia nos Açores a primeira Associação de Nadadores Salvadores dos Açores (ANSA), preparando-se agora para comemorar os seus dez anos de existência marcados, sobretudo, pela vigilância nas zonas balneares do arquipélago, pela colaboração na organização dos cursos de Nadador Salvador na região, pelas mais de 150 acções se sensibilização que têm como objectivo prevenir situações de risco e, mais recentemente, pelo facto de serem a associação nacional com o maior programa em Desfibrilhação Automática Externa (DAE).
Esta associação, conta o seu único presidente até ao momento, surgiu num momento em que os nadadores salvadores na Região – onde o próprio se incluía – “não tinham quem os representasse ou quem defendesse os seus interesses”, tornando-se assim necessário existir uma entidade que “permitisse desenvolver a nossa actividade para que pudéssemos ter melhores meios e para nos tornarmos melhores profissionais”.
Até àquele momento, conta Roberto Sá, “os nadadores salvadores eram geridos ou pelos concessionários directamente, ou por associações de bombeiros. Era-nos dada uma escala que informava que estávamos de serviço em determinada zona balnear, a partir daqui fazíamos apenas essa função, não havia planeamento nem de treinos físicos, nem de formação, nem campanhas de sensibilização junto da população”.
Por esse motivo, salienta, aqueles que estavam ligados a esta profissão sentiam que a sua “actividade estava estagnada e que havia muitos aspectos que poderiam ser melhorados, daí que tenhamos sentido a necessidade de fundar a ANSA para desenvolver tudo isso”.
Para o presidente e um dos sócios fundadores, esta foi uma decisão que viria a marcar pela positiva a imagem do nadador salvador, uma vez que a associação “fez com que o nadador salvador hoje em dia seja visto de uma forma muito diferente, com uma dinâmica completamente diferente da que tinha há dez anos”.
Apesar de considerar que o número existente de profissionais há dez anos é semelhante ao que número que hoje existe, em comparação com a altura em que as formações de nadador salvador tinham um custo muito reduzido, de cerca de 70 euros, Roberto Sá adianta que actualmente há “mais dificuldade em encontrar candidatos para concorrerem ao curso de nadador salvador porque a formação agora custa cerca de 200 euros”, preço este que uma pessoa no desemprego ou um estudante tem mais dificuldade em pagar.
Por esse motivo, e para fazer face “aos altos e baixos” que a associação sente no que diz respeito à formação, “nos últimos três anos o Governo Regional tem apoiado a formação em 25% do seu valor, precisamente para tentar colmatar essas faltas pontuais que têm ocorrido nos últimos dez anos”, uma vez que para garantir o trabalho desempenhado com as autarquias “é preciso que tenhamos nadadores salvadores suficientes para que as épocas balneares estejam asseguradas”.
A par da formação de nadadores salvadores, que a cada três anos deve ser renovada por aqueles que tencionam continuar na profissão, foi criado no ano passado por esta associação um “projecto pioneiro nos Açores com a formação complementar de Suporte Básico de Vida (SBV) e Desfibrilhação Automática Externa (DAE)”, uma vez que até ao ano passado os nadadores salvadores não tinham nem formação nem capacidade para utilizar um DAE.
Assim, a partir do investimento empenhado pela ANSA neste projecto, o seu respectivo programa de DAE é, neste momento, “considerado o maior programa de DAE a nível nacional em associações de nadadores salvadores, e isto porque entre o ano passado e este ano tivemos no total sete desfibrilhadores em zonas balneares diferentes, e o maior número de nadadores salvadores formados, que nesse momento já conta com 85 no total”, explica.
Inclusive, por ser o maior programa a nível nacional, na passada semana a ANSA esteve representada no “World Conference of Drowning Prevention”, realizado em Durban, na África do Sul, permitindo assim “apresentar o nosso programa e levar o nome dos Açores a uma conferência a nível mundial”, refere Roberto Sá.

Dez anos de mudanças na profissão

No que diz respeito ao que mudou na profissão nos últimos dez anos, tendo em conta o impacto que a existência de uma associação para nadadores salvadores teve na Região, Roberto Sá destaca, sobretudo, a forma de trabalhar do nadador salvador nas zonas balneares. 
“Hoje em dia vemos um nadador salvador muito mais ativo, que recebe as pessoas na praia, que dá conselhos de prevenção aos banhistas, que faz rondas na linha de água e quando há uma grande concentração de pessoas a tomar banho em simultâneo, vemos o nadador salvador perto dos banhistas a observá-los para que os mesmo também se sintam seguros”, afirmando ainda que “não desejamos nadadores salvadores a fazer salvamentos, mas sim, que façam muita prevenção para evitar que sejam feitos salvamentos”
Outra das coisas que terá mudado na profissão de nadador salvador ao longo da última década é, também, a presença de cada vez mais mulheres na vigilância das praias: “Temos tido cada vez mais candidatas, o que também significa que as mulheres olham cada vez mais para a nossa profissão com respeito e que temos conseguido demostrar que não é um trabalho só para os homens”.
Para Roberto Sá, a presença de mais mulheres na ANSA é vista como um factor positivo, uma vez que podem também existir alguns preconceitos relacionados com a resistência física das mulheres associadas à profissão.
“Por vezes podemos pensar que o homem tem mais preparação ou capacidade física do que a mulher, na maioria dos casos é verdade, mas este não é um trabalho que necessita apenas da parte física, a parte mental também é muito importante e temos visto muitas nadadoras salvadoras com melhor apetência em relação a alguns nadadores salvadores do sexo masculino”, salienta.
Porém, independentemente do género, os nadadores salvadores começaram também a ter um papel importante no que diz respeito à realização de campanhas de sensibilização, surgindo assim a iniciativa “PRAIA SEGURA – A prevenção começa em ti”, que ao longo dos dez anos de existência da ANSA, já atingiu as 150 ações de sensibilização, abrangendo milhares de pessoas de todas as idades e de todas as ilhas dos Açores, contribuindo assim para que as regras de segurança sejam mais respeitadas.

A chegada de uma segunda associação à Região

Há outras associações a nascer a nível nacional e regional, causando assim algumas alterações no panorama que se conhecia até então. Porém, diz Roberto Sá, isso não impediu a ANSA de crescer.
“Nós traçámos os nossos objectivos em 2010 quando fundámos a nossa associação e o que nós temos vindo a fazer é olhar para a nossa casa e desenvolver os nossos projectos. De ano para ano notamos que os nossos projectos estão mais desenvolvidos e que é mais fácil para nós realizá-los porque já temos experiência e o facto de haver outras associações não nos impede disso”, salienta.
Segundo o presidente da ANSA, o único problema que poderá existir na diversidade de associações está relacionado com os critérios dos concursos públicos.
“Nós temos tido a preocupação de formar os nossos nadadores salvadores com formação complementar, o que representa um investimento bastante considerável não só em termos financeiros, mas também humanos, o que significa que se não dermos seguimento ao nosso trabalho no ano seguinte outra entidade beneficiará do nosso esforço”, considera Roberto Sá.
Assim sendo, o representante desta associação adianta que “ao haver no ano seguinte um concurso público sem que sejam pedidos critérios de qualidade no serviço, e onde o único critério é apenas o mais baixo preço, isso torna possível que entidades a nível nacional concorram e vençam com propostas com um valor mais baixo”.
Apesar de ser legal, o problema está no facto de “o serviço ser prestado com uma qualidade muito inferior porque não há, conforme se constou, capacidade para dar formação aos colaboradores, e assim retiram regalias dos nadadores salvadores, como o seguro obrigatório, reduzem-se ordenados e corta-se no transporte para as zonas balneares”, aspectos estes que “desmotivam quem está a exercer esta actividade, originando descontentamento e uma fraca qualidade do serviço prestado durante o exercício das suas funções”.
Para além disso, Roberto Sá adianta ainda que existe “outro problema” com os concursos ganhos face ao mais baixo preço, nomeadamente a contratação de nadadores salvadores do estrangeiro “que, embora sejam bons profissionais, não se importam de ganhar menos, prejudicando assim o emprego dos nadadores salvadores residentes”.
Para Roberto Sá, estes são “aspectos que vão contra os princípios de uma associação que foi fundada com o objectivo de defender os nadadores salvadores sem os prejudicar, uma vez que sempre foi muito importante para nós promover o trabalho junto dos nossos residentes e formar os nossos residentes, contribuindo assim para a economia regional”, salientando que 45% dos nadadores salvadores da ANSA são estudantes na Região.
Quanto ao ano de 2019, e fazendo um balanço da época balnear, adianta que este foi um ano tranquilo: “Este ano, infelizmente, não tivemos um ano muito bom a nível climatérico. A partir do mês de Agosto tivemos várias semanas de chuva e isso quebrou-nos um bocado o ritmo de trabalho. Foi aborrecido para nós estarmos nas zonas balneares em dias de chuva e sem banhistas”, conta, adiantando que o clima esse ano também desmotivou as pessoas de irem à praia.
Ao nível de salvamentos, ressalva que o facto de se insistir na prevenção, “tem feito com que os nadadores salvadores venham a fazer menos salvamentos nos últimos anos, porque ao fazerem prevenção há menos pessoas a colocarem a sua vida em perigo, e de certa forma estamos a salvar as pessoas, mas não através dos salvamentos.
“Estamos orgulhosos de todo o nosso esforço, por estarmos a contribuir para o desenvolvimento da nossa actividade e, felizmente, em 10 anos contamos com zero mortes por afogamento em todas as zonas balneares que gerimos até hoje”.

                                      
 

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