Fontes Vivas (13) – António Blayer Soares

“A guerra militar é um recurso que se utiliza para estabilizar a situação e dar tempo aos políticos para resolverem o problema”

Como se dá o seu envolvimento na vida militar? E para o Ultramar?
Fui recrutado em 1961 e tirei Praça em Mafra. Depois, fui fazer o curso de Sargentos Milicianos em Tavira nesse mesmo ano. Em Janeiro de 1962, fui colocado na ilha Terceira como Cabo-Miliciano. Dez meses depois, fui para Angola com a companhia que foi formada na Terceira, com militares de todas as ilhas dos Açores, a Companhia de Caçadores 382, e fomos mobilizados – aliás eu fui como voluntário. Chegámos a Lisboa num dia e no dia seguinte, embarcámos para Angola.

Porque decidiu voluntariar-se?
Isso é uma pergunta que já coloquei a mim próprio. Quando temos 20 anos, estamos num certo espírito de aventura. Estava também ver os outros que iam à minha frente e eu ficando na Terceira. Já que iria também na mesma para a guerra, decidi ir mais cedo com o pessoal que eu conhecia. Ofereci-me e fui à aventura. Conhecer terras novas e pessoas novas. Foi uma nova experiência.

Não se arrepende de ter tomado essa decisão?
De maneira nenhuma.

Quantas comissões é que fez em Angola? E durante quanto tempo?
Fiz duas comissões: uma na minha Companhia de Caçadores e outra nos Comandos porque em 1963, houve um convite “obrigatório”, digamos assim, para os Batalhões enviarem grupos para tirarem o curso de Comandos e acabei por me oferecer. Fiquei a saber o que era aquilo, uma especialidade nova que não sabíamos o que era. Voltei a aventurar-me e fui para os Comandos. Tanto que acabei a minha primeira Comissão e fui convidado a ficar e fiz outra comissão como instrutor no Centro Geral de Comandos. Ao todo, durou cerca de 4 anos. E depois de tudo isto, passei para a vida civil em 1966.

Dos momentos que por lá passou, assistiu a algum mais difícil?
Nós tivemos várias situações difíceis. Felizmente, só numa dessas situações é que tivemos problemas com o pessoal, nomeadamente três feridos num ataque. As outras foram situações também difíceis, mas que não houve consequências. 

Apanhou praticamente o início da guerra.
Sim, um ano depois. Podia-se observar todos os efeitos da onda de vandalismo e terrorismo que tinha existido no norte de Angola em 1961. A minha comissão foi sempre feita no norte de Angola. Estivemos os primeiros 6 meses em Uíge, antiga cidade de Carmona. Esse foi dos distritos mais flagelados do terrorismo por causa das fazendas de café. Vimos os estragos feitos, as casas e os carros queimados, o vandalismo que foi feito nessa altura em que há muitas pessoas que pensam que foram os pretos contra os brancos. E não foi! Foi contra tudo o que eles encontraram: contra os pretos, contra os brancos, contra os mulatos, contra tudo o que existia nas fazendas. Eles não escolherem cor. Mataram tudo…a maioria à catana. Os fazendeiros e os empregados não estavam preparados para aquilo e foram apanhados de surpresa. Crianças, mulheres, homens, quer fossem pretos ou brancos. Aqueles que puderam fugir, e cheguei a falar com alguns, foram para as povoações mais próximas e aqueles que não conseguiram, ficaram lá no meio do mato. São momentos que me marcaram muitos. Andámos 6 meses nesta situação a correr aqueles lugares. A minha companhia era uma companhia independente e sendo assim, andava “aqui”, “ali”, “acolá”. 
Tivemos vários ataques, mas mais tipo flagelação do que propriamente um ataque porque nessa altura, os guerrilheiros ainda não estavam muito bem armados e portanto era o “bate e foge”. Assim que reagíamos, eles desapareciam. Nem chegávamos a vê-los na maioria dos casos.
Entretanto, mudámos para outra zona, nomeadamente para o distrito do Zaire e então aí, a vida acalmou bastante. Passámos a ser uma tropa de quadril e tínhamos um quartel. Fazíamos patrulhas e visitas porque depois felizmente houve uma grande campanha psicossocial junto das populações com melhorias quer seja no abastecimento de água, em escolas, em estradas, em postos de saúde e como as unidades militares tinham um serviço de saúde organizado é que iam pelas aldeias prestar esse serviço de saúde. A situação naquela zona estava praticamente estabilizada. 
Houve duas fases: aquela em que as populações do norte de Angola foram apanhadas de improviso para qual nada nem ninguém estava preparado e portanto houve aquele massacre; e depois houve a reacção do exército contra a guerrilha para estabilizar. Já fui na “reacção” do exército, ou seja, fui nesse contra-terrorismo. Aos poucos, a situação foi estabilizando. Fomos “empurrando” o inimigo para as matas e a vida começou a fazer-se normalmente. Claro que o inimigo existia e dava sinal da sua presença de vez em quando, mas mais contra a tropa do que contra a população porque esta já estava protegida.

Saiu da guerra em 1966. Acompanhou o seu desenrolar?
Após ter saído da guerra, estive cerca de 3 a 4 meses desempregado. E concorri para a Inspecção das Actividades Económicas em Luanda. Aí, a “nossa” guerra era outra. Ia sabendo das coisas através dos jornais. Já não estava no mato nem tinha aqueles contactos diários, embora a população estivesse muito bem informada daquilo que se ia passando. A nossa guerra passou a ser outra, “a guerra económica”, devido à fiscalização que era feita aos estabelecimentos comerciais e industriais. 

Porque fala em “guerra económica”?
Porque nesta altura, Angola com a guerra, teve um desenvolvimento, aliás um boom. Instalaram-se indústrias, comércios e coisas que não existiram e que durante o tempo em que lá estive, notava que de mês a mês, surgiam coisas novas. Portanto a “guerra económica” estava relacionada com o controlo de todas as falcatruas que as pessoas procuravam fazer. Havia falcatruas com frequência, adulteração de produtos, preços exagerados, uma série de coisas relacionadas com a vida económica de Angola e a qual nós éramos o garanto da sua manutenção de acordo com a lei.

Qual a sua opinião relativamente à guerra e ao seu desfecho?
Sou da opinião que quando se deu o 25 de Abril, a guerra em Angola estava ganha pelas Forças Armadas porque uma guerra de guerrilhas ganha-se ou perde-se consoante se tiver a população do nosso lado. Se nós tivermos a população do nosso lado, a guerra está ganha. Tínhamos a população connosco devido ao desenvolvimento social que tinha sido imposto no desenrolar de todos os aqueles anos. Por conseguinte, havia cada vez menos acções de guerra. Militarmente, a guerra estava ganha.

Onde estava quando se deu o 25 de Abril?
Estava em Luanda. Houve um apagão na emissora nacional e depois começou-se a murmurar: “aconteceu alguma coisa em Lisboa”. Ninguém sabia o que era e somente 2 dias depois, é que se soube o que tinha acontecido na Metrópole. 

Permaneceu em Angola até quando? E onde residiu?
Até 1974. Vivi em Silva Porto – actual cidade de Cuíto – e em Luanda. Nós [Inspecção] percorríamos Angola inteira. Fazíamos inspecções às diversas cidades.
Enquanto o General Spínola foi presidente da República, conseguiu incutir uma certa confiança nas pessoas, garantindo que iria haver uma descolonização como deve ser, com eleições, que a tropa continuaria lá a manter a protecção e o cumprimento dos acordos. Mas a malta estava mais ou menos descansada. Mas quando abdicou do cargo, as coisas mudaram completamente. Quase que posso dizer que morreu tanta gente ou tanta tropa nesta altura [na descolonização] porque para os portugueses as guerra tinha acabado. Mas não foi bem assim. As autoridades que foram para lá puseram todo o Governo e todos militares ao lado do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola e este era apoiado pela Rússia, comunista, e nós em Portugal tínhamos o partido comunista a mandar nisto tudo. Gerou-se uma instabilidade completa porque os 3 movimentos, o MPLA, a UNITA - União Nacional para a Independência Total de Angola e o FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola tinham o mesmo direito, segundo os acordos que foram feitos mas nunca cumpridos, vieram para Luanda e começaram a guerrilhar uns contra os outros e a tropa portuguesa a ver. E por conseguinte, criou uma instabilidade enorme. 
Por outro lado, havia milhares de pessoas, jovens como eu na altura, que tinham saído da tropa e que lá tinham ficado na vida civil, que começaram a ser pressionadas pelos movimentos para aderirem a esses mesmos. O MPLA começou a pressionar-me, porque sabia que eu tinha estado nos Comandos, através de outras pessoas para eu aderir. Não queria aderir a nenhum movimento e fugi para África do Sul. 
Permaneci lá, até 1976, em Joanesburgo, a trabalhar como segurança nas minas. África do Sul era um país lindo, mas tinha o destino traçado como Angola…

E quando se deu o seu regresso a Portugal?
Quando a situação em Portugal já estava mais calma e estabilizada, com um governo constitucional, portanto com uma assembleia, regressei ao nosso país. Fui viver para o Algarve. Derivado aos trabalhos porque fui passando, acabei por vir morar para São Miguel para trabalhar na indústria farmacêutica. E cá estou há 41 anos.

A Guerra do Ultramar fez algum sentido para si?
Nós fomos obrigados a ir para a guerra. Não há guerras justas, mas há umas mais justas que outras. Todos têm direito à sua defesa e Portugal foi atacado. Não foi Portugal quem iniciou a guerra em Angola. Foi o contrário. Foram os movimentos de libertação que iniciaram a guerra contra todos os que encontraram pelo caminho e ainda por cima movimentos sediados fora da fronteira. Vinham do Congro principalmente, fazer esses ataques a Angola e nós íamos atrás deles à fronteira. 
A guerra militar é um recurso que se utiliza para estabilizar a situação e dar tempo aos políticos para resolverem o problema. E foi isso que os políticos não souberam fazer na altura. Nós [militares] estabilizámos a situação, só que os políticos não conseguiram resolver politicamente a situação, ou seja, conversar com os movimentos de libertação. A Metrópole não soube aproveitar a acalmia que se deu depois daquele vandalismo que se deu em 1961. O Governo Civil não conseguiu dar uma resposta e procurar estabelecer conversações, acordos de maneira que se tivesse processado uma transição de poderes de outra forma que não se fez…

Relativamente ao processo de descolonização, visto que também presenciou?
As tropas portuguesas estavam lá e não levantavam um dedo para defender o que quer que fosse civil. Também não regressaram só brancos para Portugal. Nós eramos todos portugueses, quer fossemos brancos ou pretos. Quando se deu o retorno da população, vieram milhares de pretos fugidos da situação caótica que se vivia em Angola porque aos olhos da lei, eles eram portugueses. No entanto, também houve casos de portugueses nascidos em Angola que ficaram por lá. Não tinham outra terra para onde ir porque aquela era a terra deles. Fazer distinção de português e não ser através da cor está errado, na minha opinião. 

Durante o tempo em que residiu em Angola, gostou de lá estar?
Fui para Angola por opção. Fiquei por opção. E sempre pensei em acabar os meus dias em Angola…adoptei aquela terra como minha. Adorava a minha terra. Casei-me lá e as minhas filhas nasceram lá inclusive. 

Ao fim destes anos todos, já lá voltou?
Não. Nem penso sequer em lá voltar. É um capítulo fechado da minha vida. Não dei sangue, mas dei suor e lágrimas durante imensos anos por aquela terra. Não valem o meu suor, as minhas lágrimas e o meu trabalho…

É um capítulo fechado, mas que o marcou e tornou a pessoa que é hoje…
Certamente. Primeiro, a tropa. E depois a guerra molda muito a maneira de ser, o espírito e o carácter das pessoas. Mesmo a tropa sem a guerra, naquela altura, os soldados ganhavam uma desenvoltura, um certo conhecimento e um à vontade. A guerra duplicou ou triplicou ainda mais tudo isso. Evoluíram, digamos assim, pessoalmente. Pelo menos comigo, a tropa modificou muito a minha maneira de ser e a minha maneira de pensar.

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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