25 de outubro de 2019

O espaço dos partidos de direita

A vitalidade das democracias mede-se pela competição existente entre partidos, com vista ao exercício do poder. 
Quanto mais forças políticas intervierem neste processo, maior será a dimensão dos ganhos para a sociedade em geral, e para os eleitores – e eleitos – em particular. Em sistemas pluripartidários, para o qual convergem as várias formas de ver o mundo, de compreender a realidade e de utilizar o maior instrumento ao seu dispor – o Estado –, o espetro partidário representado no panorama parlamentar é o espelho das mentalidades, das perceções ideológicas e das representações sociais que cada um tem. Uns mais ao centro, outros à esquerda e outros à direita. 
Todos, em sentido lato, somos políticos, pois pensamos e agimos sobre e acerca de política. De um lado ao outro do hemiciclo. 
Para que um regime como o nosso se mantenha estável, é fundamental que os grandes representantes das duas maiores áreas políticas e ideológicas – a esquerda e a direita – se mantenham fortes, estáveis e democraticamente opostas, com vista a serem, a todo o tempo, soluções alternativas ao outro espetro ideológico que detém, temporariamente, o poder.
 Se as diferenças se esbatem pela pouca assimetria entre princípios ideológicos e prática governativa de ambos os campos, será muito difícil aos eleitores manterem-se fiéis a um determinado partido ou área política, se as diferenças só se conseguirem encontrar com o recurso a uma lupa. E mesmo quando, para a criação de maiorias que permitam a obtenção de estabilidade governativa, é exigida a presença dos partidos mais votados de ambos os espetros políticos, a necessária anulação de uma parte dos cadernos reivindicativos e programáticos de cada um, não deve ser um propósito de futuro, mas antes uma opção pragmática ocasional. 
Em Portugal, os partidos do espetro partidário à direita passam por uma profunda crise, que pode – e talvez deva – levar a uma refundação, podendo ser esta a opção última de virem a encontrar um caminho. Tal como a esquerda, a direita nacional é formada por vários partidos, com princípios ideológicos, programas e históricos muito variados. 
O PSD, o mais importante de todos, com responsabilidades de governação nas autarquias, nas regiões autónomas e no país, é talvez por isso aquele que mais terá de fazer para que o espaço que, até aqui ocupou, não seja ocupado por outros. Terá de se definir enquanto partido com raízes ideológicas, ou passará a uma agenda liberal nos costumes, na economia e nas questões sociais, por forma a não ver fugir-lhe os votos que agora permitiram a eleição de um parlamentar da Iniciativa Liberal. Mas com isto, deixará o eleitorado do centro a quem, no centro-esquerda, se apresente para o receber. 
Quanto ao CDS, o seu reaparecimento poderá ser mais custoso. Não tem implantação autárquica, e a entrada do IL e do Chega no hemiciclo poderão levar-lhe algumas das suas bandeiras que, diga-se, já foram muitas e diversificadas. 
Algum reposicionamento ideológico deverá ser feito – talvez o regresso à democracia cristã e à doutrina social da igreja. Perderá o comboio das novas causas, mas não deixará fugir os dois dígitos que em si já confiaram. Em ambos os casos dos partidos tradicionais do espetro político à direita, há algo que os prejudica: o seu histórico esvaziamento ideológico. Poderá ter servido para ganhar alguns combates, mas fará ainda mais falta para levar esta guerra de vencida.  

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Categorias: Opinião

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