25 de outubro de 2019

Crónicas de Bruxelas – 56

O estranho contraste entre vida vivida e a memória que prevalece

Recentemente, tomei conhecimento da obra de Luís Filipe Thomaz dedicada a compreender o último feito de Fernão Magalhães, a primeira circum-navegação. Fiquei estarrecido ao saber que, afinal, Fernão Magalhães não tinha qualquer propósito de dar a volta ao mundo quando deixou terras ibéricas. Deixo os detalhes para a obra do historiador e apenas saliento a seguir o que me parece mais importante. 
Lemos nesta obra que o extraordinário navegador português se ofereceu ao imperador Carlos V, não para fazer a circum-navegação, mas sim para confirmar a posição das possessões castelhanas no Pacífico e por uma rota que evitasse grande parte das zonas controladas pelos portugueses em África e na Ásia. Foi por essa razão que torneou a América pelo Sul e se lançou Oceano Pacífico adentro. 
O ponto essencial é que ele iria tentar regressar pela mesma rota que tinha seguido até aí. Isso apenas não aconteceu porque morreu nas Filipinas e quem lhe sucedeu, Sebastian Elcano, que,não sabendo tanto de navegação, não arriscou voltar para trás através do grande e desconhecido oceano. A história, na totalidade, é fascinante e vale mesmo a pena ler o livro de Luís Filipe Thomaz. Para o que me interessa nesta crónica, podemos ficar por aqui. Fernão Magalhães ficou para a história por algo que não tinha intenção de fazer e que não fez: circum-navegar o planeta Terra.
Jacques II de Chabanesou Senhor de La Palicefoi um filósofo que, em toda a sua vida, passou o tempo a dizer coisas muito sensatas e óbvias. Depois de falecer, o seu trabalho passou a ser usado por todos sempre que se querem referir a algo evidente. Mentira! Como mentira?! Todos nós já ouvimos políticos a dizer para algo óbvio “O senhor de La Palice não diria melhor!” ou “Caro colega, isso é uma La Paliçada”, quando pretendem minorar a afirmação de um adversário por ser evidente. Onde está afinal a verdade?
A verdade é que o Senhor de La Palice foi, na realidade, um valente guerreiro que combateu ferozmente sob as ordens de três reis de França e morreu com bravura, já como marechal, no campo de batalha. “E, no entanto”, como alguém afirmou com toda a razão,”o Senhor de La Palice nada disse”. O que aconteceu é, na minha opinião, verdadeiramente extraordinário. 
Depois de morrer, como acontecia então com os heróis de guerra de França, o corpo foi transportado de Pavia, em Itália, até Paris com escolta militar. Os seus homensdedicaram-lhe um longo poema que cantaram durante a viagem. Tudo se complica no final dessa longa poesia, tão longa como a idade e os feitos do Senhor de La Palice: “Hélas La Paliceestmort, IlestmortdevantPavie, Unquart d’heureavantsamort, Ilfaisait encore envie”. Repare-se, o que está escrito é que um quarto de hora antes de morrer, ainda causava inveja. Que mais poderia ser dito em homenagem a um grande guerreiro? Pouco antes de morrer ainda se batia com tal valentia que causava inveja!
Acontece que, o tempo muito rapidamente se encarregou de trocar as últimas palavras que passaram a ler-se “… Unquart d’heureavantsamort, Ilserait encore envie” ou um quarto de hora antes da sua morte estava ainda vivo. Passamos de uma honra militar para uma evidência e o Senhor de La Palice, que nada disse, passou a ser referido cada vez que alguém diz uma evidência óbvia, passe o pleonasmo; algo que ele, eventualmente, nunca terá feito. 
Deve haver outros casos de pessoas que se tornaram conhecidas por algo que nunca fizeram. Aliás, há sempre a tendência de vangloriar os que partem, apagando o menos bom. No entanto, penso que dificilmente alguém chegará ao contraste de Fernão Magalhães e do Senhor de La Palice. Foram seres humanos com vidas extraordinárias, plenos de valor e factos pelos quais devem ser recordados, excepto por aquilo por que todos os reconhecemos habitualmente. 
 

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Categorias: Opinião

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