Desafio: “Como é que se transmite uma verdade que não muda no tempo que muda?”

Questionado como foi essa experiência, o nosso entrevistado disse que “a primeira eucaristia não é diferente das outras eucaristias todas, mas para nós, sabe-nos diferente, no sentido de perceber espiritualmente a nossa miséria e que Deus faz-se presente através da nossa miséria. A eucaristia é o mais alto sacramento da vida da igreja, sempre foi e sempre será, e é o centro da minha vida, a eucaristia. Eu vivo para a Eucaristia, o que não significa que, o meu dia-a-dia corresponda sempre a isso, mas eu tento que em todos os dias, a Eucaristia seja o centro da minha vida sempre”.

Uma verdade que é intemporal

Escusado será dizer que essa eucaristia é diária, a depreender pelas suas palavras através do seu raciocínio. “É diária, tentando transmitir sempre aquilo que é a palavra de Deus, que não é minha. Claro que nós somos frágeis, humanos e não conseguimos sempre transmitir da melhor forma aquilo que é uma verdade que não passa com o tempo, que é intemporal. Somos humanos e precisamos da nossa palavra para perceber, desmistificar, rezar, aquilo que é uma palavra intemporal, que é a Palavra de Jesus, seja na eucaristia seja outro sacramento qualquer, que queiramos levar. Não é a minha ideia, não é a nossa ideia, não é o meu querer, mas aquilo que é o próprio Deus. E isso entra tantas vezes «em guerra» com aquilo que nós somos e aquilo que nós deveríamos ser. É sempre este choque e vamos levar isso sempre até ao final da vida, enquanto existirmos. É sempre aquela tensão, que a teologia chama a tensão entre o já e o ainda não, aquela tensão entre aquilo que nós somos e aquilo que nós deveríamos ser. Claro, que há sempre esta dissonância, que não é necessariamente negativa, é positiva, mas que faz parte da nossa natureza”.

Hoje há “uma sede tremenda de Deus”

E nesta nossa agradável conversa ficou assente que nos dias de hoje, há uma necessidade premente das pessoas procurarem ajuda divina e ajuda de Deus. “Nunca nos faltou nada, nunca nos faltou meios e nunca estivemos tão bem como hoje. Mas, a verdade é que também nós nunca vimos uma sede de Deus como hoje. Uma sede tremenda de Deus, e essa sede também se pode fazer sentir com a contradição ou rejeição do próprio Deus. Pode ser sinal de uma sede tremenda”.
Das pessoas sentirem-se mal e estarem descrentes? “Às vezes dizemos que as pessoas estão descrentes e poderíamos perguntar de quê? Acreditas em quê ou não acreditas em quê? O que é isto do crer? O crer da fé é o crer do acreditar, o acreditar da fé. Houve ali um acidente. Acreditas em mim, acredito! Isto é fé, ou não? Ou a fé, ultrapassa esta realidade?”.
É um enigma... “É por isso que a fé não é apenas pequenos rituais, é algo mais profundo e é um caminho grande”.

Cardiologista da Paróquia

O pároco Nelson Vieira é ainda o padre da freguesia do Rosário, mas porque esta semana falamos apenas da localidade da Atalhada, o nosso interlocutor falou da sua experiência na paróquia que dirige. “Naquilo que é a dinâmica canónica da Igreja, usando a expressão tomada de posse, que é uma expressão simples, porque afinal o que é que vou possuir se nada disto é meu e o que é que eu vou possuir, se isto é de Deus? Posso canonicamente ou administrativamente dizer, que a partir de agora és o pároco e és o responsável de, mas esta foi apenas uma missão que me foi confiada. Estou aqui há sensivelmente um ano e dois meses, no mesmo dia em que, por acaso entrei no Rosário, no mesmo Domingo, no último Domingo de Agosto e neste ano tenho tentado descobrir aquilo que é a realidade da vida da comunidade. Claro, que é um ano e não posso dizer grandes coisas, porque passado um ano estou a ver quais são os hábitos, os costumes e qual é o ritmo da comunidade. A comunidade da igreja deveria ser um coração e nós como párocos, como pastores e como conselhos pastorais deveríamos ser aquilo que eu digo tantas vezes, temos de ser o cardiologista deste coração. Sabermos cuidar deste coração, porque a vida paroquial, a vida de uma comunidade cristã é um coração e nós cuidamos melhor ou pior deste coração. E neste ano, é isto que vou tentando perceber, qual é o ritmo deste coração. Ele está a funcionar bem, não está, será preciso reanimá-lo ou não, será preciso acalmá-lo ou não. Como é que este coração está a funcionar, será que ele está a bater demasiado com coisas que não devia ou não. É isto que eu estou a tentar perceber durante este ano”.    

Atalhada é uma localidade 
com características próprias

E o que já percebeu? (Risos) “O que já percebi desta comunidade, em concreto, é que é diferente e não existem comunidades iguais. Esta comunidade é diferente do Rosário, porque é mais pequena. É incrível, no sentido dos tempos que correm, mas a Atalhada não tem pobres, materialmente falando. Todos nós somos mendigos de Deus. É uma comunidade pequena, tem muitos habitantes, mas a comunidade é pequena. Temos muitos habitantes, porque a Atalhada acaba por ser dormitório de Ponta Delgada e a maioria das pessoas não são daqui, vivem aqui, e a comunidade cristã é uma comunidade pequena e é uma comunidade que tem características próprias, comuns às comunidades pequenas. Tem alegrias muito concretas e também tem desafios concretos, seja eles religiosas ou no âmbito social ou cultural”.

Três eucaristias

A Igreja de Nossa Senhora das Necessidades foi inaugurada a 28 de Junho de 1847. Surge a eucaristia semanal às Quartas-feiras, a partir das 17h30, aos Sábados, às 18h00, e aqui tem a participação das crianças da catequese, porque a catequese é antes da eucaristia. Aos Domingos, a Eucaristia é às 09h00, por iniciativa do conselho pastoral, porque antes era às 13h00, depois das eucaristias do Rosário. Obviamente que, nos momentos altos da liturgia da igreja é retomada, de forma que haja outras pessoas que possam participar e não ser tão cedo, então, em vez de ser às 09h00 passa a ser às 13h00, como era antes, mas actualmente, aos Domingos, é às 09h00.
A Atalhada tem a sua festa, que ocorre no primeiro Domingo de Setembro, antecedida de tríduo preparatório, com uma pequena festa profana.

Dor: Dedicação, objectivo e resultado

Acerca de outros desafios que possa ter para com a localidade da Atalhada, o padre Nelson Vieira releva que “o desafio para a Atalhada, que acaba por ser para toda a igreja, é o desafio de nós percebermos, na realidade temporal, como é que se transmite uma verdade que não muda, no tempo que muda?”.
A finalizar, insistimos que deixasse uma palavra e uma mensagem a todos os nossos leitores. “Nunca percam a esperança, seja em que situação for, sejam baptizados ou não, sejam crentes ou não, nunca percam a esperança. Claro, que se nós tivermos esperança, se tivermos fé e se tivermos amor, temos aqui um tripé que nunca nos deixará cair e isso solidificará aquilo que nós somos, enquanto pessoas. Isto é como uma panela, que se ficar sem um pé ficará coxa. Se eu cortar o pé à fé e tiver muito amor, e muita esperança, que me possa elevar, mas depois não creio, caio. Se tiver muita fé eu posso rezar até ao Rosário, a toda a hora e a todo o momento, e posso celebrar a Eucaristia toda, mas se não tiver amor, e isso já diz o Apóstolo São Paulo, não somos nada. A vida sem amor é uma vida ressequida. Há muita dor hoje, mas gosto de desmontar a palavra dor, que tem três letras: Dedicação, objectivo e resultado. E o mal do nosso tempo é que se quer sucesso, sem trabalho”.                                   

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