A Nossa Gente (222)…com o economista Gualter Furtado

“O Governo não é o pai que resolve tudo”

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Gualter Furtado (Economista, Presidente da Comissão Executiva do Novo Banco dos Açores) - Nasci no Vale das Furnas, onde frequentei o ensino primário, embora tivesse feito o exame da quarta classe na escola da Vitória, em Ponta Delgada, porque entrei muito novo para este nível de ensino e o requisito para o poder concluir era fazer o exame da quarta classe como aluno externo e fora de uma escola do Concelho da Povoação. Posso dizer que este foi o primeiro contacto que tive com a cidade. A minha professora primária natural de Vila Franca foi uma heroína ao deixar-me frequentar as aulas. Só me impôs uma condição, quando baterem à porta da sala de aulas esconde-te, pode ser o inspector, eu já estava tão treinado, que um dia ouve um grande sismo que destruiu a nossa escola, conhecida como o Hospital da Misericórdia, ali bem perto da zona das Caldeiras, o certo é que fui dos poucos que não sofreu nada, uma vez que no pico alto do sismo estava bem protegido debaixo da velha secretária de acácia da professora, para onde tinha fugido quando senti um forte barulho na porta. Disse para comigo: lá vem ai o inspector e era o tremor de terra. Este período da minha vida foi de uma enorme felicidade. Tinha uma família equilibrada, uma mãe e um avô que me davam todo o apoio, uma vizinhança alegre e solidária, e muitos amigos, que me acompanhavam nos acampamentos que fazíamos nas margens da então bela e pura lagoa das Furnas, no Salto do Cavalo e nos matos do João Luís da Câmara. Neste contexto a pesca e a caça estavam sempre presentes. Pode-se dizer que fui criado na natureza e com muitos animais, com uma liberdade enorme, um grande sentido de responsabilidade e também de solidariedade. O Vale das Furnas e Sant’Ana sempre foram para mim uma segunda mãe e quem nasce naquele habitat fica marcado para o resto da vida. De tal forma que passei e estive por muito lado mas sempre com a ideia de um dia regressar às origens.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Depois de completar o ensino primário a minha mãe e meu pai, que estava emigrado nas Bermudas, compraram uma casa em Ponta Delgada e mudamo-nos para a cidade, com o objectivo de podermos prosseguir os estudos. Assim, estudei na Escola Comercial e Industrial de Ponta Delgada, com um percurso académico sofrível até ao 4º ano e mesmo com alguns insucessos, até que a partir do 4º ano praticamente nunca mais fiz nenhum exame, já que passei a ser aluno do quadro de honra de tal forma que no ISEG faço parte do quadro de honra dos melhores alunos daquela mais do que centenária Universidade de Economia, Finanças e Gestão. Depois de passar pela excelente escola que foi a Escola Comercial e Industrial de Ponta Delgada, já que nos preparava muito bem em disciplinas como as Mercadorias, Noções Gerais do Comércio, as Contabilidades e cálculo financeiro, e mesmo no desporto com o prof Jorge Amaral, fui estudar para o Instituto Comercial de Lisboa e finalmente para o Instituto Superior de Economia (ISE), chamado agora de Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Com a formação técnica adquirida fui convidado logo nos primeiros anos para Monitor na Universidade no ISE e depois de concluído o curso, para Assistente. Em 1984 regressei aos Açores para leccionar e preparar o doutoramento no Departamento de Economia e Gestão do Instituto Universitário dos Açores. Em 1985 fui desafiado para Director do Crédito da Caixa Económica da Misericórdia de Ponta Delgada, o que constituiu o princípio de uma actividade bancária com cerca de 30 anos. Tenho muito orgulho de ter contribuído para arranjar uma solução que, na altura, foi determinante para salvaguardar e devolver o património da Santa Casa a esta Instituição e designadamente as Instalações do Hospital da Santa Casa, que se encontravam afectas à Caixa Económica e depois com a criação do BES dos Açores foram devolvidas à Santa Casa. Mas também honra-me muito ter contribuído para que o BES dos Açores não tivesse tido o mesmo destino que o Grupo BES, isto é, não fomos resolvidos pelo Banco de Portugal e assim os nossos accionistas preservaram todo o seu capital. Acresce que os poucos clientes que tiveram na ocasião problemas, nenhum deles foi causado pela nossa actuação. Sempre agimos no respeito da lei. Entretanto, de 1988 a 1993 fui membro do Governo dos Açores, com as responsabilidades das Finanças, do Planeamento e da Administração Pública. Foi um período muito difícil já que coincidiu com a perda das receitas da Base das Lajes, de cerca de 40 milhões de dólares por ano e isto em consequência de uma nova ordem internacional que resultou do desmoronamento do “império soviético”. Tivemos que reprogramar todo o nosso planeamento financeiro, e em baixa. Mas, paralelamente, foi um período desafiante já que foi exactamente nestes anos que preparamos a nossa adesão à União Europeia, realidade que se mantém até aos nossos dias, com benefícios reais para as infra-estruturas dos Açores, apoio a alguns sectores de actividade e solidariedade europeia, mas também foi nestes anos que conseguimos reestruturar todo o subsistema financeiro e bancário, poupando-o a falências e preservando as empresas públicas de então de défices e endividamento excessivo e tudo isto realizado num quadro de pouca ou nenhuma solidariedade nacional. Enquanto fui Secretário Regional das Finanças do Governo dos Açores nunca autorizei o pagamento de uma despesa pública sem cabimento orçamental, nem nunca usamos os Resultados Líquidos positivos do Banco Comercial dos Açores para acudir às Finanças Regionais.

No campo académico, não esperava a forma como saiu da Universidade dos Açores. O que aconteceu mesmo? 
Deixei de dar aulas na Universidade dos Açores porque era incompatível com a situação económica e financeira má em que se encontrava na altura a Caixa Económica da Misericórdia de Ponta Delgada. Foi uma opção que me custou muito. Não foi a remuneração que mais pesou nesta escolha e sabia que estava a tomar uma decisão de elevado risco que poderia ter acabado muito mal. Mas facilmente me apercebi que os principais problemas estruturais que a Instituição tinha que era um excesso de liquidez mal remunerada e um elevado crédito vencido, mas de pequena dimensão por cliente, tinham solução, como tiveram. Mas, na realidade, nunca deixei a Universidade dos Açores e ainda recentemente tive muita honra em pertencer ao seu Conselho Geral, cargo que desempenhei sem qualquer remuneração e com uma dedicação total. Fi-lo de uma forma independente e nunca me senti condicionado. Nem tudo correu bem, mas registo como positivo o nosso desempenho na clarificação da difícil situação financeira em que se encontrava a Universidade e o nosso contributo para a reforma e nova organização da UAç. Evidentemente que muito há que fazer na Universidade para cumprir com a missão que esteve na base da sua criação, mas este desígnio exige uma participação mais activa da nossa sociedade e dos diferentes níveis de poder nos Açores. A Universidade foi uma importante conquista dos açorianos e da Autonomia, seria uma tontice e mesmo irresponsabilidade os Açorianos se alhearem do funcionamento e rumo que está a seguir a UAç.

Como se define a nível profissional?
Sou frontal, leal, independente, muito exigente comigo próprio, jamais cometeria uma ilegalidade e finalmente gosto de apoiar e integrar os mais novos.

Quais as suas responsabilidades?
As minhas responsabilidades são amplas. Hoje em dia ser Presidente Executivo de uma instituição financeira é um risco ainda maior do que estar a combater num campo de batalha e sem trincheiras. Para minimizar este risco preocupa-me muito a legalidade das decisões que tomo, respeitar os limites e as linhas de defesa da Instituição, que são o risco, o compliance e a auditoria. Acresce que criamos um Gabinete Técnico que funciona mesmo e a sério. Não menos importante, partilho todas as etapas e decisões que tomo com os meus colegas de administração e com um grupo significativo de Colaboradores. A minha prática é de que não existem temas, nem casos concretos que não devam ser partilhados e trabalhados em conjunto. Procuro, levar esta metodologia para o Conselho Económico e Social dos Açores, mantendo informados todos os membros do Conselho daquilo que ando a fazer.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
Tenho uma mulher e companheira com quem estou casado há 41 anos, que sabe tudo aquilo que eu faço, estava consciente do amor que tenho pelos Açores, e dos defeitos e virtudes que tenho. Sabia da minha paixão pela natureza, pelos cães e pela caça e os sacrifícios que isto implica, já que conviver e partilhar a nossa vida com os animais durante 365 dias por ano, não é a mesma coisa do que ir a um canil 1 vez por mês, fazer uma festinha a um cão, tirar uma selfie e depois ir para casa. Tenho 2 filhos: o Francisco que é engenheiro doutorado pelo Instituto Superior Técnico e pelo Programa do MIT - Boston, presentemente trabalha na OCDE em Paris e sem cunhas nem apoio do pai; a outra filha é médica num grande Hospital da grande Lisboa e também lá chegou por sua conta e risco. Somos muito independentes, mas tenho muito orgulho na minha família.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Preocupam-me muito as famílias desestruturadas e principalmente quando os Pais se demitem totalmente das suas responsabilidades, muitas das vezes por paixões de verão e mais vezes ainda por egoísmo. O resultado disso são jovens tristes, sem auto-estima e mais permeáveis a comportamentos de risco.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A sociedade está como o tempo, umas vezes faz sol, outras um cinzento de cor de chumbo, e outras vezes está como o Lorenzo. Melhoramos em progresso tecnológico, na rapidez com que circula a informação, ganhamos em média uma esperança de vida mais longa, as acessibilidades melhoraram em todos os sentidos, mas, paralelamente, o flagelo da droga é mortífero, não conhecemos os vizinhos do lado, a solidariedade converteu-se em cinema e é assim que vivemos nos dias de hoje.

Que importância tem os amigos na sua vida?
Muita,  embora a maioria dos meus amigos estejam na América e no Canadá, isto é, na emigração. Outros estão nas Furnas. Tenho ainda os amigos da caça, uns mais velhos como o Senhor Braga de Santa Maria e uns mais novos como o Celestino.

Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Estar com a família, o que não é fácil, e os amigos, conviver com os meus cães, fazer agricultura, e desfrutar da natureza dos Açores, seja na caça ou nos passeios pedestres.

Que sonhos alimentou em criança? 
Quando era criança sonhava ser veterinário, era uma profissão que me fascinava. Mas como já disse em outras entrevistas, o senhor Fernando, conhecido como o Fernando Cabaço, um grande empreendedor das Furnas e infelizmente já falecido, um dia disse-me, Gualter o teu futuro está traçado e é relacionado com as Finanças e ele tinha razão.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
O que mais me incomoda nos outros é a esperteza “saloia” e pensarem que os outros são tolos, e o que mais admiro é a simplicidade e a transparência.

Que características mais admira no sexo oposto? 
Transparência, amizade, amor e inteligência.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto muito de ler. Leio muitos jornais, e autores como Miguel Torga e o Daniel de Sá são de leitura obrigatória. Mais recentemente descobri o Onésimo de Almeida e o Joel Neto. Também, por dever profissional, reservo um espaço grande para ler os Manuais, as Normas, e os Avisos das entidades de supervisão bancária, às vezes é uma grande chatice, mas tem de ser. Os “Bichos” de Miguel Torga e o “Cão como Nós” do Manuel Alegre são livros que me prenderam e impressionaram pela positiva.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais? 
Não tenho facebook e faço uma selecção muito rigorosa do que leio.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Viver vivia, mas ficava desligado do mundo. O telemóvel e a internet são 2 instrumentos indispensáveis todos os dias, mesmo nos fins-de-semana e nas curtas férias que tiro.

Costuma ler jornais?
Sim, como já disse, gosto de ler jornais todos os dias e já agora gosto também de dar o meu contributo para a sociedade escrevendo artigos nos jornais e nas revistas de especialidade. Como também já escrevi alguns livros e coordenei exposições temáticas, como a do senhor Vasco Bensaude.

O que pensa da politica? Gostava de ser um participante activo?
A política é importante para a nossa vida democrática. Ainda que modestamente já dei o meu contributo nesta área, e de algum modo ainda hoje dou. Evidentemente que a política e os políticos estão hoje sujeitos a um grande escrutínio. Algumas vezes são fortemente criticados justamente, mas muitas vezes também injustamente.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto muito de viajar, a minha ida aos Estados Unidos para ser homenageado pelos Amigos da Furnas da América marcou-me muito pela positiva e como também são sempre vividas muito intensamente as viagens que faço com os meus amigos caçadores ao Uruguai e ao Canadá. As viagens às outras ilhas dos Açores foram sempre momentos altos da minha vida e onde fui muito feliz.  

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Gosto muito de comida do mediterrâneo, dos filetes de abrótea, da bacalhoada e do cozido nas caldeiras das Furnas.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Foi encontrada uma vacina contra o cancro e a miséria humana foi eliminada.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva algumas das medidas que tomaria?
Transparência e dava prioridade à sustentabilidade.

Como vê o fenómeno da pobreza nos Açores e, em sua opinião, que soluções se poderiam adoptar?
A pobreza tem várias origens, é de diversa ordem e manifesta-se de diferentes formas, e nunca será erradicada sem um grande envolvimento dos diferentes níveis do poder e principalmente sem formação e educação.

Qual a máxima que o/a inspira?
Água mole em pedra dura tanto dá que até que fura.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Também já o disse, que me contento com a época em que vivo, embora em criança sonhava com muito entusiasmo com as expedições científicas a África e fascinava-me a fauna africana e sentia-me na pele daqueles exploradores.

É o Presidente do Conselho Económico e Social, um órgão de concertação social cuja eficácia prática é posta em causa por vários quadrantes da sociedade açoriana. Mas, também, não estou a ver o Dr. Gualter Furtado a presidir a um órgão inútil perante um Governo de maioria absoluta que, normalmente, adopta o ‘quero, posso e mando’. Qual a estratégia para fazer vingar as posições do Conselho?
O Conselho Económico e Social dos Açores faz parte do Estatuto Político e Administrativo da Região Autónoma dos Açores, o seu figurino actual foi proposto pelos Parceiros Sociais em concertação com o Governo dos Açores e foi discutido e aprovado pelos nossos legítimos representantes na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, sendo que o seu Presidente foi eleito por uma maioria superiora a dois terços. Logo, é um Órgão que faz parte da arquitectura democrática e da Autonomia dos Açores. Está a funcionar em pleno, tem os seus órgãos constituídos, até ao final do ano e com início em Julho passado irá realizar 3 Plenários. Mais de 90% dos membros do Conselho Económico e Social dos Açores já emitiram pareceres, tem uma agenda aprovada até ao final do seu mandato, incorporando temas vitais para o futuro dos Açores. Os membros do CESA deram o seu parecer sobre as Ante Propostas do Plano e Orçamento dos Açores e que merecem a leitura atenta pelo contributo que representam para os diversos sectores de actividade e mesmo dos Açores como um todo. É um Órgão que tem um custo de funcionamento muito reduzido, e um Presidente que custa zero para o erário público. Valorizo muito pouco críticas anónimas de mal dizer e incompetentes, e valorizo muito as críticas que fazem avançar o mundo e as organizações.
Como sempre afirmei, o Conselho será aquilo que os seus membros quiserem, e certamente que a Concertação Económica e Social é um bem que não podemos desperdiçar nuns Açores que se querem equilibrados socialmente, cultos e desenvolvidos. O Conselho Económico e Social dos Açores é um Órgão independente e de consulta, que responde perante a Assembleia Legislativa dos Açores.

 Há indícios de crescimento económico nos Açores, mas não há indicadores de progresso social. Que análise faz a esta evolução em que uns ficam mais ricos e outros mais pobres?
Os Açores têm muitos desafios pela frente, como sejam, a necessidade de convergir com a Europa; o despovoamento e envelhecimento de algumas ilhas; um défice de educação, em parte resultado de uma herança de mais de 40 anos de ditadura e obscurantismo; a necessidade de sermos mais competitivos e exigentes, não pactuando com a falta de qualidade e o pensar que o Governo é o nosso Pai e tem de resolver tudo, incluindo, substituir-nos nas nossas responsabilidades e áreas de competência; e a necessidade de uma cooperação estratégica entre os diferentes níveis de poder, tendo a inteligência de ultrapassar preconceitos político partidários. Há tempo para tudo, incluindo para a luta partidária legítima e democrática. Seremos autónomos na medida em que nos soubermos desenvolver e irmos progressivamente eliminando dependências a todos os níveis. É verdade que existe pobreza nos Açores e como já disse anteriormente ela não se resolve apenas com assistência, tem de ser encarada de frente e combatida como um desígnio dos Açores.

A dívida da Administração Pública e do sector empresarial regional é um pesado fardo que vai aumentando de ano para ano. O Dr. Gualter Furtado é avesso a dívidas que não se consigam pagar. Já quando foi Secretário das Finanças de um dos Governos de Mota Amaral, entre contrair dívida e deixar o Governo, preferiu regressar ao sector privado. Que análise faz à evolução do endividamento da Região? Ainda há margem para mais dívida?
A dívida pública não produtiva deve ser evitada, ainda que a admita para que sejam cumpridas as funções sociais como a educação e a saúde. Temos um problema sério com o Grupo SATA, mas ele só é resolvido reconhecendo o problema e em concertação e não com uma política de terra queimada e destrutiva da empresa. A Lei das Finanças Regionais foi um pilar fundamental para a sustentabilidade da Autonomia e mesmo da democracia. A minha participação activa na preparação desta Lei, foi uma das realizações que mais alegria me deu, pois sabia que estava a dar um importante contributo para o futuro dos Açores. Mesmo necessitando de ser periodicamente actualizada, entendo que ela ainda não foi utilizada em toda a sua extensão, refiro-me ao poder autónomo fiscal e nos projectos de interesse comum. A dívida pública regional em relação ao PIB regional ainda está em valores aceitáveis, mas os Açores só têm a ganhar com políticas de muita prudência no endividamento.

Cito um exemplo minúsculo (que pode ser extrapolado para outras dimensões) de um antigo médico, agora na reforma, que ficou indignado quando entrou num gabinete de consultas do Hospital de Ponta Delgada, e viu que uma jovem médica atendia os seus clientes, em pleno mês de Outubro, com o ar condicionado ligado. “No meu tempo, era a janela do gabinete aberto”, disse o médico, para depois acrescentar que “assim não há saúde que resista…”. Será que a dívida da saúde é considerada insustentável?
Não desmereço este médico, até porque eu também não simpatizo com o ar condicionado, mas não concordo que este pormenor seja o responsável pelos défices orçamentais crónicos da saúde. O João por favor que diga a este senhor Doutor que a maioria dos médicos jovens trabalha muito e são mal remunerados, na sua maioria são competentes e correm elevados riscos, e precisam é de mais apoio dos já instalados. O problema do sistema de saúde em Portugal está diagnosticado e não cabe nesta entrevista. É verdade que existem alguns desperdícios e que devem ser combatidos, tal como alguns feudos, mas o problema do sector da saúde em Portugal é um problema de sistema, organização, algum subfinanciamento, e de prioridades.

O dinamismo empresarial privado regional estava a ficar muito assente no sector turístico e a saída da Delta Air Lines da rota de Ponta Delgada, embora não se conheçam todas as repercussões, constitui um revés para o turismo. Qual a sua opinião, este foi apenas um acidente de percurso e o turismo açoriano vai manter a vitalidade com outras soluções de transporte aéreo e com novos operadores?
A saída da Delta é grave, pelo número de clientes perdidos e nível de gastos que este mercado representava, designadamente para os Hotéis, restauração, animação, rent-a-car, mas só nos resta arregaçar as mangas e procurar alternativas, corrigindo erros do passado e sem dar tiros nos pés. Não conheço a história da Delta nos Açores em toda a sua profundidade para estar a emitir juízos de valor que podem pecar por falta de informação.


Em sua opinião, o grupo SATA tem margem para crescer? Quer explicar.
A SATA está num ramo de negócio muito difícil, onde já desapareceram companhias que se assemelhavam a Impérios, logo cada passo que o Grupo der deve ser muito estudado em termos de custos de oportunidade e custo beneficio. Crescer só com sustentabilidade ou então quando isto não for possível, alguém tem de pagar. Tenho assistido a interpelações à companhia razoáveis e justas, mas também já assisti a muito pouco bom senso no que se exige da SATA. Com esta minha visão não pretendo desresponsabilizar erros cometidos.


A Banca sofreu alterações profundas no seu funcionamento após a crise de 2008. Decorrido este período, como vê a banca hoje e o que se pode esperar dela no futuro? 
A Banca é hoje um sector fortemente regulado, sujeito a um Supervisão exigente e ainda bem. Está bem melhor, mas infelizmente, em todas as latitudes, sectores e épocas, sempre houve gente séria e gente não séria. Compete às linhas de defesa como são o risco, o compliance e a auditoria estarem sempre atentas e cumprirem com o seu dever. Se isto for assim, então as possibilidades de desvios serão combatidas e mitigadas.  


Quer acrescentar algo mais que considere importante e/ou interessante no âmbito desta entrevista?
Por hoje basta, e haja saúde.

                                                       

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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