3 de novembro de 2019

Entre o passado e o futuro

Contornando a Realidade


Terminou no fim de semana passado, na Amazónia, mais um Sínodo da Igreja Católica. 
Os Sínodos não têm local fixo de reunião e tanto podem ser “universais”, como regionais, embora considerando a universalidade da Igreja se torne difícil estabelecer uma distinção rigorosa entre ambos os casos. O Sínodo instituído pelo concílio Vaticano II no princípio da década de 60 do século passado é, perdoe-se-me o prosaísmo, uma espécie de “assembleia de natureza consultiva” do Papa em que também participam leigos. Pode ter âmbito universal ou regional, geral ou temático.
O realizado neste mês de outubro, em tese, foi convocado essencialmente para tratar de temas relacionados com a Amazónia. Nele participaram bispos, indígenas, missionários e especialistas.
Sabia-se, de antemão, que os temas mais relevantes para a Igreja, apelativos em termos públicos ou mediáticos, embora dissessem respeito à Floresta Amazónica, onde ele se realizava, relacionavam-se com:  carências da evangelização - insuficiência de sacerdotes – que podem ser minimizadas como o acesso ao sacerdócio por mulheres e por homens casados.  Neste domínio, as soluções particulares concebidas para a Amazónia poderiam ser entendidas, ainda que com muitas reservas, como “balão de ensaio” para uma solução generalizada.
Presente nos trabalhos do Sínodo esteve também uma questão associada às referidas no parágrafo precedente que assume relevância mundial crescente: o fim do celibato dos sacerdotes que o documento final considera, como que a por um ponto final na temática, um “dom de Deus”. 
Entre todas as matérias e, desejavelmente a dominante, foi debatida a depauperação da Floresta Amazónica. Temática reconhecidamente mundial a que passa a corresponder um novo campo doutrinal, a “ecologia integral”, na expressão do Papa Francisco. A Igreja empenha-se convictamente na defesa do Planeta para sustentabilidade da vida. Neste domínio não existem linhas vermelhas nem cautelas ditadas por sensibilidades elitistas.  
Tendo como pano de fundo a destruição da Amazónia – o pulmão do Mundo – o Sínodopreconiza, creio que por sugestão do próprio Papa, a adoção do “Pecado Ecológico”, um preceito novo: “propomos definir o pecado ecológico como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente. É um pecado contra as gerações futuras que se manifesta em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, transgressões contra os princípios da interdependência e a rotura das redes de solidariedade entre criaturas e contra a virtude da justiça”, pode ler-se no documento final.
Relativamente às outras matérias, as mais melindrosas, cuja definição duma orientação diferente da atávica posição dogmática poderá perturbar a pax católica, o documento final adota uma linguagem muito cautelosa, nalgumas passagens mesmo diplomática, que é aquela que permite admitir que tudo fica na mesma ou que mude apenas um quantum para que tudo na mesma fique.
Com 128 votos favoráveis e 41 votos contra, o relatório sugere a ordenação de homens casados, propondo que devam ser estabelecidos critérios e disposições para que os homens idóneos e reconhecidos pela comunidade recebam uma formação adequada mediante a celebração dos Sacramentos nas zonas mais remotas da região amazônica, podendo ter uma família legitimamente constituída e estável”. Apelo válido apenas para a Amazónia. Esperemos pelo que o Papa dirá sobre este ponto e veremos se o estatuto do diaconato será revisto ou não.
O “diaconato feminino” foi matéria não decidida. Será reenviada para uma comissão de estudo, curiosamente a que tinha sido extinta recentemente. As mulheres poderão ser acolitas, leitoras e devem participar nas estruturas eclesiais para que sejam consultadas. O órgão privilegiado é o conselho pastoral paroquial. As mulheres devem ser escutadas, sublinhou o Papa.
O Papa Francisco cuja aprovação é necessária para a validade universal do documento ou de parte dele declarou que ia pensar e que sobre ele deseja pronunciar-se antes do final do ano, assim disponha do tempo suficiente para pensar.
Com base no diagnóstico feito no Sínodo -bastante realçado pelo Papa - já se vê o caminho novo que permitirá sair da atual encruzilhada, mas na Igreja também existem “elites católicas que não tendo coragem para estar com o Mundo pensam estar com Deus”, disse o Papa no fim.

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Categorias: Opinião

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