Correio dos Açores - Nasceu onde?
Professor José Carreiro de Almeida - Nasci no Pico da Pedra, no dia 14 de Fevereiro de 1932.
Foi um parto normal?
Sim senhor, assim diz minha mãe. Nasci em casa. Naquela altura os nascimentos eram em casa.
Tornou-se criança…
…e fui para a escola primária do Pico da Pedra, onde completei a quarta classe. Depois fui para o Seminário, onde estive quatro anos. Desisti e não desiste. Eu adoeci, estive um ano em casa e meu pai disse: “Em casa sem fazer nada não pode ser. Vais para Ponta Delgada estudar e arranjar uma vida”.
Havia um colégio na Rua do Colégio, em Ponta Delgada, que era presidido pelo senhor Afonso Alberto Borges de Vila Franca do Campo. E como eu não tinha a equivalência dos meus estudos no Seminário, para ir para o Liceu, foi fazer os estudos necessários no colégio para fazer exame do quinto ano. E, completado o quinto ano, fui para a Escola do Magistério Primário para completar o curso de dois anos de professor.
Começou a leccionar com que idade?
Comecei a leccionar com 20 anos. Lembro-me da minha primeira escola, na freguesia de São José num espaço que tinha sido uma taberna do Estrela da Manhã que funcionou, quando eu trabalhei lá, como sala de aula para cerca de 40 alunos. Não tínhamos ali espaço para recreio. O recreio era o Campo de São Francisco. Esta sala de aula, no lado Sul do Campo de São Francisco, já foi demolida. Ficava mesmo a seguir às instalações da Ilha Verde.
Leccionava que ano?
Quando estive na escola em Ponta Delgada, leccionei apenas a quarta classe. Entre os meus alunos tive um grupinho que se distingui do resto da turma e deste grupo faziam parte o Mota Amaral, um Carreiro e Silva, e também foi também meu aluno Américo Natalino de Viveiros, sempre dinâmico. Eles estiveram cá para celebrar os 70 anos do tempo em que estiveram na primeira classe e eu leccionei-lhes a quarta classe.
E até há um pormenor. O professor deles foi António Augusto Botelho que era irmão do senhor padre Botelho, das Furnas. Mas, devido á avançada idade dele, na quarta classe, o corpo docente da escola de São José houve por bem decidir que seria mais aconselhável para que os alunos levassem uma boa preparação para o Liceu, que não fosse o professor Botelho a leccionar-lhes a quarta classe e fui eu que os recebeu.
Para mim os meus alunos foram todos iguais e um deles distinguiu-se, o Mota Amaral mas também há outros. Este atingiu o cume da montanha. Preparei-o para sair da escola com conhecimentos na quarta classe. E sinto-me honrado de também ter um bocadinho nele. E ele também, Graças a Deus, quando eu fazia serviços de turismo e ele estava presente, Mota Amaral dizia: “este senhor foi meu professor da quarta classe”. Também nunca se envergonhou do professor.
Depois foi para os Fenais da Luz, um meio completamente diferente…
Completamente diferente mas eu gostei muito de estar nos Fenais da Luz porque eu era um homem do campo. Fui lidar com homens do campo, gente simples. E é claro que o ambiente escolar não era o mesmo. Aqui, em Ponta Delgada, todos os pais se interessavam. Se havia alguém que não se interessava era uma excepção. Mas, de um modo geral, todos eles procuravam saber qual era o andamento dos seus filhos na escola. Já nos Fenais da Luz não era assim.
Eu diligenciava para que os alunos levassem a bata branca para a escola para que uns não se diferenciassem dos outros na roupa que vestiam. E a bata branca encobria muita miséria.
Estive nos Fenais da Luz seis anos. E gostei muito de lá estar. Eu era homem do campo, homem simples. Estava habituado a correr com meus irmãos. Ia com eles, por vezes, tirar o leite às vacas. E fui encontrar nos Fenais da Luz gente que tinha a mesma criação que eu tive.
Pessoas do campo são sinceras e têm bom coração.
Dos Fenais da Luz fui para a escola da Fajã de Baixo e não gostei muito de lá estar. Estava habituado a trabalhar com calma e fui para Fajã de Baixo trabalhar em desdobramento. após a aula, vinha para Ponta Delgada porque era Delegado Escolar e, porque a necessidade era muita, leccionei igualmente na cadeia de Ponta Delgada. A vida era difícil...
Costuma dizer-se que a quarta classe daquele tempo…
...É verdade. Equivale ao quinto ano de hoje. É verdade.
Qual a diferença entre o ensino que se dava no passado e o que se dá hoje. Aprendia-se mais no passado?
Antigamente, decorava-se e a compreensão vinha depois. E agora, a compreensão vem primeiro e auxilia depois a memorização. Houve uma inversão de métodos.
E esta inversão de métodos funcionou para melhor ou nem por isso?
Para uma pessoa bem-intencionada é claro que funcionou para melhor. Nos habituamos os alunos a pensar…
Na minha escola eu procurei sempre recorrer à memorização mas depois da compreensão. Eles tinham que compreender. Os textos eram analisados, interpretados…
Depois da Fajã de Baixo, foi para onde?
Fui para a Escola do Magistério Primário. Fui ensinar a Didáctica, formação de professores.
Leccionar professores é completamente diferente…
Sim, completamente diferente. Em Didáctica, vamos ensinar-lhes como é que eles devem ensinar, por exemplo, a Matemática, como é que devem ensinar a ler, como é que devem ensinar a História, Geografia. É a Didáctica do ensino.
No seu tempo o professor tinha mais autoridade sobre os alunos…
Tinha. Hoje o aluno diz ao professor: “Tu aqui não me tocas que vou dizer a meu pai”. Olhe, nunca tive aluno nenhum que me dissesse isso.
Há uma desautorização do professor…
Há, sem dúvida. No meu tempo eu também castiguei. Não fui santo nenhum.
Um dia destes eu estava sentado no largo da Matriz e passava um rapaz da Fajã de Baixo e aquele rapaz ficou-me na ideia porque me tinha excedido no Castigo que lhe dei quando fui seu professor. Pensava muito naquele castigo. Foi demais, eu não deveria ter feito aquilo.
E, naquele dia, quando ele passou por mim chamei-lhe: Hei rapaz senta-te aqui perto de mim. Perguntei-lhe se ele se lembrava dos seus tempos de escola. Ele respondeu que sim e eu, então disse-lhe: Eu já estou a deixar este mundo, tenho já poucos anos de via e eu queria pedir-lhe desculpa de uma coisa.
“De que é senhor professor?”, perguntou-me ele e eu falei: Lembras-te daquele castigo que te dei e que foi demais. É que isso hoje pesa-me na consciência. E o rapaz foi delicado: “Senhor professor, só se perderam as que caíram no chão”.
Estou a ser justo comigo mesmo dizendo a verdade. Dava-lhes os castigos e, depois, ficava com pena. Mas, depois e castigar um aluno, eu falava imediatamente com ele. Não havia aquela separação. Respeitei sempre a dignidade humana. Eram homens e crianças…
Hoje em dia há alunos que quase que mandam nos professores…
Por culpa dos pais. E os pais pagam a factura depois. Num dos almoços de confraternização com antigos alunos meus, abordou-se um pouco, em grupo fechado, esta questão e eles disseram-se que “isso hoje é muito, muito diferente. Hoje custa muito ensinar. Pelo que me dizem, o professor está desautorizado”. É verdade? Não sei. É mentira? Também não sei.
Mas, pelo que corre entre a classe, o professor está desautorizado.
Naquele tempo estava determinado que o professor podia dar castigos paternais. E, certo dia, numa reunião de professores, eu disse, olhem, quando era criança meu pai chegou a dar-me umas chicotadas com uma correia que ele tinha. Era meu pai, foi um castigo paternal.
Em certa medida, devo dizer com sinceridade que eu fui bafejado pela sorte quanto à minha profissão como professor. Eu estive em França com uma bolsa de estudo, pela Gulbenkian, a aprender técnicas modernas de aprendizagem. Tinha de observar tudo aquilo em pormenor e com a Gulbenkian não se brinca. Tinha de fazer relatórios de tudo. Tinha toda a liberdade e visitava as escolas que queria em França mas tinha de escrever relatórios pormenorizados de tudo para enviar para a Gulbenkian.
Pode dizer-se que escreveu relatórios para a Gulbenkian sobre a evolução do ensino em França?
Sim, é uma maneira de ver a questão. Está claro eu estava a dizer como evoluía o ensino em França. E estes relatórios eram em francês.
Estive para ir a uma escola em Inglaterra que diziam que era muito mais avançada mas depois pensei que não queria ir buscar sarna para me coçar. Já estou em França e não fui. Para deixar a França como bolseiro da Gulbenkian, tinha que fundamentar a minha deslocação…
Há professores do passado que hoje passem por si, batem-lhe as costas e dizem obrigado professor pelo que fez por mim?
Não, não. Talvez eu não mereça. Mas, eu estava a cumprir o meu dever. A minha missão era ensinar os outros. De modo que eles não têm nada que me agradecer.
Esteve 40 anos no ensino, 27 dos quis na formação de professores e reformou-se…
Com certeza. Mas estava tão habituado a transmitir os meus conhecimentos aos outros que não parei e escolhi o turismo. Fui Guia Turístico. Já a leccionar era chamado por uma ou outra agência para desempenhar as funções de guia. Eu gostei muito, mas muito, de ser guia turístico.
Um dia, parti de Ponta Delgada com um grupo de turistas e há uma senhora, daquelas muito atrevidas, que me pergunta: “O senhor é guia de turismo?” e eu respondi que sim e questionei porque me fazia a pergunta. “É porque não me parece ser”, respondeu-me ela. E então disse-lhe, minha senhora se não fosse guia de turismo não estava aqui. E a senhora insistiu: “Diga-me a verdade, não é guia de turismo.” E então retorqui: “Já que está insistir, eu também sou bastante curioso e gostaria de saber que profissão pensa que é a minha na realidade? E ela respondeu-me: “O senhor não esteja a brincar comigo, o senhor é professor.”
Este é um elogio para a classe do professorado. Nós, ao ensinarmos, crianças e uma maneira muito especial, temos muito cuidado em preparar a mensagem que lhes vamos transmitir para que eles compreendam. E levei este hábito para o turismo, explicava tudo muito bem e foi isto que levou a senhora a considerar que era professor.
Fez parte do grupo de professores do Magistério Primário que foi integrado na Universidade?
Sim, eu acabei a minha vida na Universidade dos Açores. Não foi pela minha habilitação académica porque não a tinha para ser professor na Universidade. Foi porque não houve outra solução. As escolas do Magistério foram integradas nas universidades. Eu ainda estava em actividade, enquanto professor de docentes e fiquei e fiquei integrado na Universidade.
Ensinava o quê na Universidade?
Didáctica, mas uma Didáctica prática aos alunos mestres, aos futuros professores. Eu não tinha habilitação académica para pôr-me a ensinar na Universidade Didáctica. Sejamos comedidos também. Mas também não fui para a Escola do Magistério Primário apenas por nomeação deste ou daquele. Indicaram-me e eu fui prestar provas escritas e orais a Lisboa. E até… Não, não digo.
Diga lá…
Não, é um auto-elogio e o elogio em causa própria é vitupério, é uma afronta.
Quais as diferenças que encontra entre a sociedade do tempo em que era professor primário e a sociedade de hoje?
Naquele tempo pedíamos aos nossos pais que nos desse um dinheirinho e eles dava-nos dois escudos e meio que não dava para nada. Não tínhamos tudo o que queríamos. E tínhamos de trabalhar para ter muita coisa como eu tive. E, agora, os pais dão-lhes tudo, tudo, tudo. Eles não sabem o valor das coisas. Eles têm demais.
E isto é mau?
É a realidade. Os pais dão tudo o que os filhos pedem.
O que faz agora?
Leio, faço alguma investigação no computador e procuro ser útil aos outros na medida do possível.
De que forma?
Até mesmo ajudando pecuniariamente. Bom, eu vou então dizer-lhe o que faço agora.
Se hoje no Pico da Pedra, a minha freguesia natal, há um lar para idosos, eu tinha um prédio que era a ‘menina dos meus olhos’. Era agricultor de fim-de-semana. Gostava muito daquele prédio de fruta.
Mas, num dado moimento, eu entendi que seria muito mais útil transformar aquele prédio num lar para idosos mas com uma condição: Que a esse lar fosse dado o nome de meu pai porque aquela terra era dele. E, então, chama-se Lar Manuel de Almeida Moniz.
Os meus irmãos embarcaram quase todos. Ficamos cá três: A Maria Luísa e uma outra irmã que já faleceu com 93 anos. Nós juntamo-nos, formamos um bloco. A minha irmã Maria Luísa tinha um belíssimo prédio em frente às escolas do Pico da Pedra e ofereceu à Câmara da Ribeira Grande e transformou num parque para crianças porque a nossa mãe, uma mulher muito inteligente, procurou sempre despertar o gosto pela leitura nos seus filhos e netos. Despertou-lhes o gosto pelo saber. Tanta vez que ela dizia: “O saber não ocupa lugar”.
Como se chama sua mãe?
Maria das Mercês Carreiro e, a partir de hoje fica convidado para ir visitar o parque Maria das Mercês Carreiro, em frente às escolas do Pico da Pedra. Quem vai visitar aquele parque, culturalmente, já sai mais rico. Eu não estou a exagerar. É a pureza da verdade.
O lar tem o nome do nosso pai, Lar Manuel de Almeida Moniz e o parque tem o nome da nossa mãe Maria das Mercês Carreiro.
A nossa outra irmã, que faleceu com 93 anos, a Maria Luísa e eu imortalizamos o nome de nossos pais. E não estamos arrependidos.