Hoje é Dia do Cuidador

Regime Jurídico que vai definir o Estatuto dos Cuidadores Informais na Região deve ser apresentado no início de 2020

São alguns milhares aqueles que na Região se dedicam a cuidar dos outros. O número de dependentes nos Açores é elevado, sem haver números concretos, o que pressupõe que o número de cuidadores seja na mesma proporção. Há os cuidadores formais, que trabalham em instituições que se dedicam a dar apoio àqueles que não podem cuidar de si, mas há também os informais, muitas vezes familiares, que se dedicam a esta missão a tempo parcial ou mesmo a tempo inteiro. O Dia do Cuidador surge para alertar para a importância do trabalho de quem cuida, mas também para lembrar que quem cuida também “precisa ser cuidado”. 
Na Região foi aprovado em Setembro, por unanimidade, na Assembleia Legislativa Regional o Estatuto de Apoio ao Cuidador Informal mas só no inicio do próximo ano o regime jurídico que o define deverá ser apresentado, uma vez que ainda não foi publicado o diploma. “Uma ferramenta que pretende ser “o” instrumento de apoio para as famílias com pessoas cuidadas e que vai olhar para a pessoa cuidada, para o cuidador e para a família, como um todo”, acredita o Director Regional da Solidariedade Social, Marco Martins, que acrescenta que o projecto está a seguir “a bom ritmo”. 
O principal objectivo deste Estatuto do Cuidador Informal, reclamado há algum tempo por quem se dedica a cuidar dos seus e geralmente sem qualquer tipo de remuneração ou de apoio, é assegurar os direitos do cuidador. O Regime Jurídico de Apoio ao Cuidador Informal está ainda ser delineado, com algumas questões que ainda não estão completamente fechadas, mas tem vindo a ser construído no sentido de ir ao encontro das expectativas dos cuidadores, “e que seja mais do que uma resposta meramente técnica e idealizada sem ver os próprios cuidadores”. 
Marco Martins exemplifica que tem sido um trabalho bastante profícuo para que seja salvaguardado “o direito à formação e informação dos cuidadores, direito a assistência psicossocial e psicológico, à integração em grupos de auto-ajuda, um plano de cuidados e ainda tentarmos aumentar da melhor maneira a questão do apoio financeiro, que é matéria que ainda não está fechada”. 

Dar uma folga aos cuidadores

Quem cuida, seja de idosos seja de dependentes com deficiência, queixa-se de não conseguir separar o laço familiar que muitas vezes o liga a quem é cuidado, das suas tarefas de cuidador. Neste sentido o Estatuto do Cuidador Informal tenta estabelecer um sistema de “folgas” que podem ser de curta duração, por exemplo de algumas horas para uma ida a uma consulta do próprio cuidador, ou de maior duração, que pode ir até 90 dias num ano. 
Para Marco Martins estas folgas são um ponto “bastante crucial” já que é necessário intervir antes da situação limite de “burnout”, que de acordo com vários estudos a exigência, o nível de pressão e de stress a que os cuidadores estão sujeitos torna mais elevada a probabilidade de chegarem a uma situação limite.
Este sistema de folgas pretende substituir os cuidadores por pequenos períodos diurnos, até ao limite de 8 horas por mês, usando os recursos da rede de suporte, nomeadamente ao nível dos Serviços de Apoio ao Domicílio de várias Instituições Particulares de Solidariedade Social. Para isso será criada uma Bolsa de Cuidadores, que será articulada entre as áreas governamentais da Solidariedade Social e da Saúde, e que além de técnicos poderá também estar aberta a voluntários. “Frisava a questão do voluntariado que também queremos associar a esta bolsa. Não será exclusiva ao voluntariado, mas terá um cunho importante nesta bolsa”, ressalva Marco Martins.
O Director Regional da Solidariedade Social recorda que até há algum tempo a esta parte “olhava-se muito na lógica da pessoa cuidada, do doente, e creio que o cuidador, sendo uma figura importante e de referência, foi esquecido. Esquecido de forma involuntária, obviamente, mas o que se pretende agora é que o trabalho e o cuidado para quem tem uma pessoa dependente continue a ser efectivado, mas só o poderá ser se o cuidador estiver bem. Bem consigo”.
Mudando a vida dos cuidadores, muda-se também a vida da estrutura familiar e “é importante que os cuidadores sejam pessoa com um bom nível de auto-estima, confiantes e com tempo para si próprios. Só assim vão dar melhor resposta. Estamos a fazer tudo por tudo para que não seja um discurso vazio e estamos a trabalhar nesse sentido”, dá conta Marco Martins que acredita que através das políticas de proximidade através dos Serviços de Apoio ao Domicílio vai ser possível efectivar este Estatuto do Cuidador Informal e modelá-lo às necessidades dos cuidadores.

Vagas extra para as folgas

Além disso, há também a possibilidade da pessoa cuidada ser internada em unidades de cuidados continuados por períodos mais alargados. “As estruturas residenciais de acolhimento terão de dar resposta e existirão vagas para essas situações”, refere Marco Martins que lembra que foram criados nos últimos tempos 18 lugares para descanso de cuidador em várias estruturas residenciais dos Açores. Isto ainda numa fase anterior da aprovação do Regime Jurídico de Apoio ao Cuidador Informal. 
“Já existem vagas devidamente protocoladas em exclusividade para essas questões do descanso do cuidador e à medida que forem surgindo as necessidades, estamos cá para as acautelar”, afirma apesar de reforçar que apesar das listas de espera para lares e unidades de cuidados continuados em quase todas as ilhas “há vagas acauteladas para descanso do cuidador”. 
Importa é que quem cuida saiba dessas ferramentas que tem ao dispor. “As várias estruturas da área social como da saúde têm tentado difundir essa resposta. Acredito que se há uma resposta que não seja do conhecimento genérico, caminha a passos largos para esse conhecimento. O nosso objectivo é que não haja nenhuma família com uma pessoa a precisar dos devidos cuidados e que não tenha conhecimento desta resposta”, refere ao salientar que se pretende que seja o cuidador, dentro do leque das respostas oferecidas, a escolher e poder optar pelo que é melhor para si e para a família. “Em muitos dos casos as respostas existentes, os serviços de apoio ao domicílio, apoio à higiene pessoal, alimentação, o reforço desses apoios será suficiente. Noutros casos será o descanso do cuidador por períodos mais longos. Dentro deste leque ser o cuidador, a família, a poder escolher. As respostas não serão ilimitadas mas que seja um volume de respostas que vá ao encontro das expectativas e permita ao cuidador poder optar”, explica o Director Regional.

Outros cuidadores

Porque cuidadores não se ocupam apenas de idosos, há também quem se veja a braços com pessoas com deficiência. Pais que se obrigam a ficar em casa para cuidar de filhos ou familiares com deficiências.
A esta nível, o Director Regional da Solidariedade Social admite que os Centros de Actividades Ocupacionais têm sido “uma resposta efectiva para este tipo de população”, uma vez que oferecem um regime de actividades ocupacionais durante o dia, permitindo às famílias terem os seus empregos e irem depois buscá-los ao fim do dia. Quem não pode frequentar esses Centros de Actividades Ocupacionais fica aos cuidados dos pais, que são compensados financeiramente para cuidarem dos filhos.
Apesar da atribuição dos apoios financeiros ser da responsabilidade do Instituto da Segurança Social dos Açores, Marco Martins reconhece que “o apoio económico directo que é dado às pessoas portadoras de deficiência seria justo ser mais elevado? Sim. E não há que haver pudor nenhum em se assumir isso. Mas a verdade é que é demasiado redutor se olharmos o apoio que é prestado às famílias, apenas na lógica financeira”. 
Além dos apoios económicos “há os apoios ao domicílio, os Centros de Actividades Ocupacionais, que podem durante todo o dia dar resposta efectiva com um quadro técnico cada vez mais sofisticado, com um quadro de actividades cada vez mais específico”, explica.
A parte financeira “é importante” quando as famílias são “autênticos heróis”. 
“Além da parte económica há outros apoios indirectos que respondem de uma maneira nem sempre justa mas de maneira eficaz que vai ao encontro das famílias, sem prejuízo de todos concordarmos que não é uma situação familiar fácil, lidar com essas situações. São autênticos heróis as famílias que se confrontam com essas situações”, admite.
Os Centros de Actividades Ocupacionais conseguem até agora “dar resposta a todos os casos que aparecem” e já se projecta a médio prazo a criação de novos Centros já que “a área da deficiência é uma área em que o Governo Regional tem tido o máximo de cuidados. As vagas têm crescido de forma substancial e temos conseguido dar resposta”. O mesmo ao nível dos cuidados continuados que a médio prazo também haverá aumento do número de vagas em algumas ilhas onde foi detectada maior necessidade, nomeadamente em São Miguel. 
Tudo para que o cuidador, a “figura importante e de referência” muitas vezes ocupada pela mulher e mãe da família e que foi involuntariamente esquecido pela sociedade, deixe de o ser. Quando todos os estudos apontam para níveis de cansaço extremo, muitos lidam com a situação limite do “burnout”, os cuidadores sentem-se desprotegidos e querem por parar para se conseguirem também cuidar. Este novo Estatuto de Apoio ao Cuidador Informal pretende ser “a ponte” entre as necessidades efectivas de quem cuida e as necessidades da pessoa quer precisa de cuidados. Para que todo o ambiente familiar possa ser beneficiado.

                      Carla Dias

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima