Fontes Vivas (15) – Manuel António da Costa Rodrigues Mota

“O País soube mandar os rapazes para a guerra, mas quando eles morreram, muitos nunca vieram para cá e ficaram lá enterrados”

 Fale-nos um pouco da sua infância e da sua juventude.
Nasci na freguesia de Santa Clara. Aos 5 anos de idade, a minha família mudou-se para a zona da Calheta, em São Pedro. Fiz a escola primária na Mãe de Deus. A maioria dos miúdos iam descalços para a escola. Naquele tempo, havia muita pobreza aqui. Aliás, no país inteiro… Convivi com muita pobreza. 
Com 7 anos, já praticamente trabalhava quando não estava na escola. Portanto, da parte da tarde no Verão, quando tínhamos férias escolares, ia trabalhar. O meu pai tinha uma pequena fábrica de licores: cortava maracujás, tirava a polpa para a aproveitar para os licores, lavava e endireitava as garrafas. Começávamos por volta das 2h da tarde e acabávamos pelas 6h da tarde. De manhã, ia para a piscina. Lembro-me que uma vez cheguei mais tarde - 5 minutos depois do meio-dia e meia – e meu pai era muito rígido, fomos criados com muita rigidez, era tipo sargento da tropa (risos). Fiquei logo de castigo e não pude ir para a piscina durante uma semana! Fui criado com muita disciplina, a verdade é essa.
Entrei no liceu e perdi 2 anos. Quando perdi pela segunda vez, o meu pai disse-me logo: “vais é trabalhar”. E passei a estudar à noite na escola industrial. Para dizer a verdade, lá, também não fui muito mais além do 4.º ano porque também trabalhava muito durante o dia. Nas férias escolares, trabalhava das 8h30 até à meia-noite. 

E em ano começou a sua vida militar? E como começou? 
Em 1973. Ofereci-me para ir para os Comandos pois ninguém ia para lá sem ser como voluntário. Não tinha férias devido àquela educação rígida da parte do meu pai. Andava sempre revoltado e então eu queria ir para a tropa o mais depressa possível para “escapar-me”. Meu pai criava pressão, principalmente sobre mim porque era o mais revoltado dos 3 filhos. Sempre fui o mais rebelde.
Formei-me em Lamego. Depois, foi formada uma companhia que ficou dividida em dois grupos: um foi para Angola e o outro para Moçambique. Eram grupos com cerca de 25 indivíduos. Fui para Moçambique. O meu grupo integrou uma companhia de Comandos já formados lá – integrados por brancos e pretos que tinham nascido em Moçambique. Portanto, era uma companhia de comandos africana designada por 5.ª Companhia de Comandos, a qual eu pertenci. Estive lá até acabar o serviço militar, ou seja, até Dezembro de 1974. 

Quando chegou a Moçambique, como era o ambiente por lá? E qual era a missão dos Comandos?
Era guerra pura! Íamos para lá preparados psicologicamente para travar a invasão comunista em África. Já estavam a acontecer várias independências naquele continente e nós, portugueses, não tínhamos muita instrução política, não tínhamos quase nenhuma. A missão dos Comandos era destruir bases. Andávamos sempre com indivíduos que nos forneciam informações – indivíduos estes que eram capturados pela PIDE e depois passavam a trabalhar para mesma. Eles é que nos diziam as localizações das bases. Fazíamos as emboscadas ao amanhecer. 

Quais as principais dificuldades por que passou? Esteve sempre na mesma zona?
Estivemos sempre em Cabo Delgado. A nossa base principal era em Montepuez. Fazíamos uma média de 20/30 quilómetros por dia com 20 e tal quilos às costas, além da sede que nós tínhamos. Às vezes, faltava-nos a água… 
O Natal de 1973 foi ingrato: foi passado no mato. Estávamos sempre em alerta e fomos numa missão de descobrir mais bases. Na noite de 24 para 25 de Dezembro, dormimos junto de uma árvore grande em que ficavam os Sargentos e os Alferes à volta desta e os Cabos e os Soldados estavam em círculo maior, para estarem em observação, não só devido ao perigo de possíveis indivíduos, mas também por causa dos animais. Essa noite foi a pior para mim. Estávamos ali deitados, sem comida – tínhamos a ração de combate, o pão já estava com um certo bolor, a água era pouca – e lembrei-me de uma casa de um grande amigo meu, em que eu ia lá e havia aquelas iguarias todas. Naquela noite, pensava que a vida não era só paz e alegria e que estava ali metido num buraco. No dia 25, nós passámos por uma zona de água – eu fazia parte da última equipa – e ia colher com o meu cantil. Mas a água estava toda cinzenta. Tinha que filtrar com o lenço todo sujo…aquela foi a prenda de Natal que nós tivemos. Felizmente, não matamos ninguém.
Geralmente, as missões eram sempre momentos de muito stress. Mas nunca senti medo. Mas tenho uma máxima que tudo tem sempre um final feliz. Sempre fui muito aventureiro e de me arriscar. 

E aconteceu alguma situação peculiar?
Uma vez, estávamos a tentar descobrir onde estava localizada uma determinada base, mas não a encontrámos. Ficámos a emboscar num trilho que supostamente iria lá dar, mas deitados. Às tantas, ouvimos muitos cães a ladrar, pensando que viriam indivíduos para o local onde nos encontrávamos. Lembro-me de pôr a cabeça encostada ao chão e pensei “é tanto cão, devem vir centenas de indivíduos”. Ouço um batimento sempre certo tipo “pum, pum, pum” e fiquei com stress a pensar que “vamos ficar todos aqui”…O som do ladrar aproximou-se e afinal o som vinha por cima de nós. Não eram cães! Era uma raça de macacos chamada Macaco-Cão! Os macacos saltavam todos por cima da gente. (risos) E no final, aquele batimento era o som do bater do meu coração no solo enquanto escutava atentamente ao suposto ladrar. 

Do seu ponto de vista então, o que ficou mal resolvido?
A política tratou das independências das colónias, que a meu ver, tinha que ser mais cedo ou mais tarde. Mas aquilo foi tudo feito à pressa e abandonaram todos os indivíduos que lutaram por aquilo que era chamada a nossa Pátria, aquilo era nosso. Mas afinal, não era.
Quando fui para a tropa, nos Comandos, incutiram-nos a ideia de que íamos lutar contra o Comunismo em África. O que depois, vim aperceber-me mais tarde que não era bem assim. Estávamos afinal a lutar contra a independência do povo de Moçambique. Nós éramos preparados desde miúdos, desde a escola primária, acerca dos valores nacionais, da luta pela Pátria, mas “atiraram-nos” para uma guerra que afinal os terroristas, no meu ponto de vista, éramos nós, os portugueses. Senti-me enganado! Ainda hoje, sinto-me frustrado com isso. Houve mortes, determinadas atitudes e como referi, ainda hoje em dia tenho frustrações e tenho traumas. Para além dos mortos que lá ficaram, há muitos jovens falecidos que lá ficaram e que nunca vieram para Portugal. Ficaram lá enterrados, sabe Deus onde! O País soube mandar os rapazes para a guerra, mas quando estes morreram, muitos deles nãovieram para cá. E depois do 25 de Abril, houve centenas de indivíduos dos Comandos que foram fuzilados na Guiné-Bissau e nunca mais ninguém falou nisso porque isto não convém para a política. Mas eu não sou político e isso mexe muito comigo. Vivo muito revoltado com isso. Se somos a favor da pátria, é para o bem e para o mal. Se aquilo correu mal, tínhamos que ser apoiados por esse motivo e chegamos cá [a Portugal] completamente “soltos”. Ao ponto de atravessarmos a rua, as pessoas saberem que éramos dos Comandos e dizerem-nos: “Assassinos”. 
  
Apesar de ter estar no Ultramar durante pouco mais de 1 ano, isso marcou-o. 
Marcou-me profundamente. Tive um amigo que morreu mesmo ao meu lado, o Alferes Nabais. Muito bom amigo e até aprendi a tocar violão com ele. Morreu a 7 de Fevereiro de 1974. Foi numa operação de 5 dias em que fomos para o mato. Numa entrada das bases, abatemos dois indivíduos. Como missão que era nossa, entrámos na base para destruir a mesma e queimar as palhotas. Mas nessa vez, fizeram-nos uma emboscada. Esse meu amigo foi atingido por estilhaços de um rocket e acabou por falecer. Era a última missão dele. Ele não tinha nada que ir para ali. Ele ofereceu-se. O destino estava marcado para aquele rapaz. O helicóptero só chegou 2 horas depois. Mas fiquei com ele. Éramos os nossos próprios enfermeiros. Havia um colega nosso que tinha mais jeito na área da enfermagem e ficámos a tratar dele. No total, foram 6 feridos graves e um morto naquela missão.
O stress das missões era tanto que ainda me marca. Hoje em dia, com 67 anos, se ouço um arrebentamento, estremeço-me. É um trauma de mais de 40 anos. 

Como soube do 25 de Abril?
Estava numa missão em Cabo Delgado pois era lá que acontecia tudo. Todos os dias tínhamos que reportar a nossa posição. Certas vezes, conseguíamos, outras vezes não. Nesse dia, comunicamos com o quartel e só ouvíamos parabéns. Não sabíamos se era alguém que fazia anos. Só tive conhecimento da Revolução dois dias após esta ter acontecido quando os camiões com os soldados chegaram a dizer que a guerra tinha acabado. E fomos depois para o quartel. Peguei nos jornais e vejo nas manchetes “Golpe de Estado” e “Marcelo Caetano foi preso”. Ninguém calcula o que se sentiu naquele momento. Eu era capaz de morrer pela pátria. Tal como referi, desde miúdos eramos incutidos com as ideias da nação, do hino nacional, da bandeira. De um momento para o outro, acaba-se tudo. Passados meses, é que começo a perceber e “caí em mim”: os terroristas afinal não eram eles. Aquele povo poderia ser comunista, mas o que queriam era a sua independência. A minha frustração maior é saber que matamos indivíduos – e que não foram poucos. Morreram outros tantos da nossa parte tudo por algo que não era nosso [de Portugal]. Posso ter lutado pela Pátria, mas estive a lutar por uma causa injusta. Foi um engano que fui levado a ter desde miúdo e depois fui para os Comandos, com aquela coisa toda de bravura.

Arrepende-se de se ter voluntariado para os Comandos?
Evidentemente… hoje, eu sou contra qualquer tipo de movimento que envolva guerra. 

Como foi estar em Moçambique, sabendo que tinha um irmão seu a combater na Guiné-Bissau? Mantinha contacto com a família?
Mantínhamos contacto através de telegramas. Minha mãe mandava-me fotografias e bolachas, coisas que poderiam faltar. Nisso aí, fui acarinhado. Meu pai continuava com a fábrica de licores, mas naquele tempo, para a inspecção económica, disseram-lhe que tinha de remodelar a fábrica toda com o argumento de falta de condições. Meu pai respondeu-lhes: “Faço as obras, mas vocês têm um filho meu em Moçambique, o outro está na Guiné. Se me mandam os filhos encaixotados para cá, de que vale a pena remodelar isto? Tenho esperança que eles regressem e nessa altura todos juntos, fechamos para fazer obras”. Ele estava muito revoltado pelo facto da Pátria “lhe ter roubado” os filhos para uma guerra que não era nossa…

Crê que ainda existe muita história do Ultramar que está camuflada?
Sim. Ainda há muito por contar. O próprio 25 de Abril também. Está tudo mal contado. As gerações de hoje não fazem a mínima ideia… 

Fez parte da manifestação do 6 de Junho de 1975. 
Participei, mas não era propriamente um dos maiores activistas. As pessoas estavam revoltadas porque o Governo impunha impostos a mais. Sou a favor da independência da minha terra pois essa gente [política portuguesa] atraiçoou-nos. É um acto de revolta da minha parte. O povo português não soube honrar as suas colónias, não teve hombridade de defender as suas gentes que lutaram. Muitos pais não puderam trazer os filhos para cá. Não houve um político pós-25 de Abril que tivesse feito por isso. 
A maior zona marítima pertence aos Açores e neste momento, a Região não tem decisão nenhuma sobre o mar, mas sim o Governo Central. Se não fosse a autonomia, se calhar, a região estava mais atrasada. São 9 ilhas para gerir. E o bom, foi Portugal ter entrado na União Europeia. Creio que o turismo é uma coisa boa para a economia do arquipélago.

Acha então que os açorianos são considerados “portugueses de segunda”?
Em muitos casos, ainda são. Quando interessam, já não são! Tanto que a autonomia parou no tempo. 

A experiência do Ultramar contribuiu para a pessoa que é hoje?
Antes de ir para a tropa, era um pouco rebelde. Sempre quis mostrar que a esperteza, mas não foi nos estudos. Depois, nos Comandos, levei a “tal pancada” na cabeça. Posso dizer que o meu espírito aventureiro advém do que passei em Moçambique. Não tenho medo de arriscar. 

O que nos pode dizer após o seu regresso da guerra?
Na altura em que a inspecção económica mandou meu pai remodelar a fábrica de licores, ele encerrou-a, tendo continuado no negócio das fazendas, a Loja das Chitas. Quando eu e meu irmão regressamos do Ultramar, compramos o edifício ao lado da loja e a empresa foi crescendo. Actualmente, a empresa Euromotas é das maiores dos Açores. 
Posso dizer que só tive férias por volta dos 34, 35 anos de idade! Passei a vida constantemente a trabalhar com uma média de 14 horas por dia. Há bem pouco tempo é que comecei a tirar realmente férias. 
Houve uma altura em que estive 20 meses a dar a volta ao mundo no meu barco. Isto foi uma coisa que estipulei com a minha mulher quando nos casamos: “vamo-nos casar, mas há uma condição para este casamento. Eu vou ter um barco. Sempre que tenha fins de semana livres, vou para o mar. Se fores comigo no Sábado, voltamos no Domingo. Se não fores no Sábado, fico contigo em casa no Domingo. E as minhas férias vão ser sempre passadas de barco.” Quer tivesse dinheiro na altura ou não, o meu projecto de vida seria dar a volta ao mundo de barco. E assim o fiz. Perguntei à minha mulher então quando nos casámos: “queres acompanhar-me na minha vida assim, muito bem. Se é para depois dizeres-me que não posso ir para o mar, não vai dar certo.” Tenho uma família unida: minha esposa, meus filhos, meus irmãos e tenho 2 netos!

 

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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