10 de novembro de 2019

Um ciclo de incertezas

 1- Duas grandes questões ocupam hoje o espaço dedicado à reflexão que procuramos partilhar regularmente com os leitores que nos acompanham, porque no fundo tratam de assuntos que temos teimosamente abordado e que moldam a vida da sociedade e das pessoas.
2- Estivemos atentos ao desenrolar de mais uma edição da Web Summit, que este ano contou com cerca de setenta mil participantes. Nesse evento falaram vários oradores, e a nota dominante vai para a dependência criada pela tecnologia nos cidadãos e na sociedade, que mais dia, menos dia, atingirá a saturação e, talvez, o fim de um ciclo glorioso na história da humanidade, mas perigoso e de consequências imprevisíveis.
3- Edward Snowden, americano refugiado na Rússia e antigo quadro da CIA, falou sobre a privacidade dos dados e de uma geração, que para ele “já não é dona de coisa alguma”, explicando que “não são os dados que estão a ser explorados” pela tecnologia, “são as pessoas”. Para a plateia no Altice Arena, Edward Snowden lembrou aos milhares de participantes que estavam, no momento, a ser vigiados: “Há forma de saber que vocês estão aqui. Seja porque se ligaram ao Wi-Fi, ou porque os vossos telemóveis estão ligados à torre de telecomunicações.”
4- Esta é a questão que também temos evidenciado várias vezes, e hoje retomamos para colocar as preocupações que foram deixadas no Fórum por prestigiados especialistas, e que respeitam à dependência dos ecrãs, do e-mail, das redes sociais e dos alertas de qualquer espécie que nos invadem dia e noite. 
5- A isto chamam o vício da dependência tecnológica, que já comparam com o vício das dependências químicas, ambas geradoras de depressão e ansiedade.
6- Pelo Fórum da Web Summit passou o Presidente da República e o Primeiro-ministro. António Costa foi defender a taxação dos grandes gigantes do digital, tal como a Google e Facebook, que geram enormes receitas na União Europeia sem pagarem nenhum imposto. 
7- Finalmente Portugal toma uma posição sobre a matéria, porque a imprensa está asfixiada pelos impostos que tem de pagar e pela perda de receitas que foram parar aos gigantes do digital que, ainda por cima, se alimentam dos conteúdos gerados pela imprensa, mas sem qualquer retorno para esta. 
8- Até agora, os Estados estiveram de cócoras perante as empresas digitais, e é tempo de saber  que política tem o Estado Português, e no caso, a Região também, para a sobrevivência da imprensa, que passa por dias difíceis face aos populismos das redes sociais,  e ao alheamento do sector económico.
9- A Comissária Europeia para a Concorrência, Margrethe Vestager, defendeu, por usa vez, um “acordo global” para a taxação das empresas tecnológicas, e avisou que “a Libra [a moeda digital que o Facebook quer lançar] não escapa ao cuidado escrutinio da Comissão Europeia, lembrando que há “poder para investigar coisas que ainda estão a ser desenvolvidas”.
10- Outra grande questão que se coloca à Europa da qual somos parte interessada, prende-se com a Segurança e o papel que cabe à NATO depois de há trinta anos atrás, ontem comemorados, ter sido derrubado o muro de Berlim que dividia as duas Alemanhas. 
11- Depois da Segunda Guerra Mundial, o derrube do muro de Berlim foi o acontecimento mais relevante da história recente, porque originou o fim da era do domínio comunista na Europa de Leste.
12- A NATO foi criada para proteger e garantir a segurança da Europa e, apesar do trabalho por ela desenvolvido ao longo dos anos, a Organização acaba de ser atingida por uma bomba atómica lançada pelo Presidente francês, ao decretar “morte cerebral” da Aliança Atlântica.
13- Os Açores são uma Região estratégica, e não podemos ficar indiferentes ao que se passa no mundo digital e na Defesa, embora esta seja matéria que pertence à República. Os americanos mudaram-se para a Ásia e há que repensar a defesa do Atlântico e o papel que cabe à Região neste novo ciclo de incertezas e com a China a avançar para Ocidente.
                      

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Categorias: Editorial

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