Juiz Conselheiro Álvaro Laborinho Lúcio

“É preciso encontrar com os jovens uma vocação mais moderna para a Açorianidade que faça com que esta seja praticamente uma marca que projecta os Açores no mundo”

Na conferência “Açores, Centralidade e Periferia” coloca a tónica na centralidade dos Açores em vários sectores…
Venho aos Açores para lançar em Ponta Delgada também o meu terceiro romance, que vai acontecer amanhã [hoje], e a Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada decidiu convidar-me para fazer aqui a conferência “Açores, Centralidade e periferia”.
No fundo, venho fazer uma intervenção de alguém que, não sendo açoriano, viveu nos Açores tempo bastante para ficar com uma imensa ligação a esta Região e a estas pessoas e com vontade de pensar os problemas da Região e poder, numa atitude de mero diálogo com a comunidade local, introduzir alguns temas sobretudo perante um futuro que se avizinha muito imprevisível, todos nós vivemos muito condicionados por questões essenciais que são colocadas pela sociedade do risco, pela complexidade social. Há mesmo quem entenda que a característica principal do futuro é a sua imprevisibilidade. E a questão que se coloca é o que fazer. O que havemos de fazer enquanto comunidade e, falando pelos Açores, o que fazer enquanto açorianos nesta região.
Fiz uma intervenção que se dirigiu muito à dimensão cívica do nosso dia-a-dia. Até que ponto temos de passar de uma fase de indiferença para uma fase de pró-actividade, criamos novos tópicos de preocupação e de interesse que nos permitam intervir, que permitam alargar o espaço de diálogo, para encontrarmos caminhos que nos deixem enfrentar o futuro com optimismo.
Os Açores são um verdadeiro santuário de ecossistemas. Por outro lado, os Açores, estão no meio do Atlântico e são um arquipélago Atlântico, oceânico, e é muito importante que justamente pegando em tudo isso e sabendo que estes santuários de ecossistemas vão ter uma importância decisiva nos tempos que se avizinham, encontrar caminhos que permitam desenvolver muito o trabalho de investigação, de inovação e criando até caminhos de internacionalização, trazendo aos Açores todos aqueles que reflectem sobre estas matérias e que as têm investigado cientificamente e que, ao mesmo tempo, podem vir aqui fazer a sua aprendizagem. Estou a pensar no papel da Universidade dos Açores nisso.
Por outro lado, tenho alguma preocupação, daquilo que vou intuindo mais do que sabendo visto que não estou cá, que é um certo alheamento da juventude relativamente a problemas fundamentais como sendo da Autonomia, da Açorianidade, do próprio papel da juventude na construção do seu futuro, visto que é para a juventude que o futuro aí vem. Julgo que valeria a pena criarmos alguma possibilidade de reavaliação dos conceitos. Não para pôr em causa quer a Autonomia, quer a Açorianidade que são matrizes essenciais do povo Açoriano, e nunca são para pôr em causa. O que não devemos é deixar que a certa altura o discurso continue a ser muito repetitivo, o que faz perder dimensão aos próprios conceitos. Fiz isso relativamente à Autonomia, e muito particularmente em relação à Açorianidade, tentando encontrar na relação com os jovens uma outra vocação para a açorianidade. Uma vocação mais moderna, mais sofisticada, que faz com que a açorianidade seja praticamente uma marca que projecta os Açores no mundo e não alguma coisa que acaba por insularizar a própria região, voltada muito para aquilo que são as suas origens e as suas características internas. É outra discussão que julgo importante.

Como se pode chamar de novo os jovens a identificarem-se com as questões da Autonomia e Açorianidade?
Em primeiro lugar o que me parece fundamental é termos a consciência exacta de que o problema existe e termos a consciência exacta da gravidade do problema. Se nós deixamos que desapareçam as gerações que dão sentido à Açorianidade e que se debateram pela Autonomia, corremos o risco de estes valores progressivamente deixarem de ter importância significativa. Isso não pode acontecer. Nós todos tendemos a ir embora, e é necessário que os jovens assumam isto nas suas mãos. Quando falo nos jovens, não falo apenas dos jovens na política, porque aí, em princípio, através das juventudes partidárias e outros circuitos políticos que alguns dos jovens vão percorrendo, ainda se vai conseguindo. Mas não é verdadeiramente isso que importa. O que importa é uma cultura. Os jovens que assimilem uma cultura, que interiorizem essa cultura e que no dia-a-dia tenham capacidade de intervenção, constituam massa crítica, e sejam eles a projectar esses conceitos no futuro.
Isso pode-se fazer por vários caminhos. Há os caminhos mais tradicionais, nomeadamente, pegar na escola e desenvolver projectos na escola para que isso aconteça. Uma vez mais a Universidade dos Açores terá de ter aqui um papel importante, mas eu diria que sou mais exigente e gostaria que isso acontecesse de “baixo para cima”, ao nível das freguesias. Criar pequenos núcleos em cada freguesia onde os debates aconteçam, onde se criem condições para os jovens intervirem. Mas sobretudo, em vez de se passar aos jovens uma informação para que continuem depois no futuro o que lhes é dado, trazer os jovens para serem eles próprios a serem autores do debate. Trazerem questões novas, quererem eles próprio analisar criticamente esses conceitos, fazer-lhes sentir que eles têm poder, têm autonomia, têm capacidade para intervir e que nas suas mãos está, no fundo, aquilo que é verdadeiramente a nossa capacidade de ganhar o futuro, tão imprevisível e tão estimulante.

Esses debates ao nível das freguesias, não ficarão muito condicionados ou até associados a partidos políticos?
Espero bem que não. Embora não vejo que haja mal pelo facto de serem partidários. Sabe que eu por vezes tenho visões um pouco utópicas das coisas, mas gostava muito que nas freguesias, em períodos que não haja eleições, que estes debates fossem promovidos conjuntamente pelas juventudes partidárias dos vários partidos políticos existentes na Região. Juntarem-se e organizarem estes debates.

Isso é possível?
Não vejo porque não há-de ser. Se temos uma visão da política em que a política não é outra coisa se não andarmos todos em conflitos com os outros sistematicamente para ver quem ganha e quem perde, podemos ter vitórias que são vitórias que não têm qualquer tipo de significado. São vitórias pontuais, conjunturais. Estamos hoje confrontados com problemas que o mundo nos coloca em que temos de colocar a questão de ganhar ou perder que significa vencer ou perder a própria subsistência. Nessa perspectiva, temos de perceber quais os grandes desafios que temos pela frente e compreender que hoje as palavras de ordem são “acção” e “cooperação”. E em nome destas palavras fortes, temos de encontrar modelos. Falei do modelo das freguesias, poderá haver, haverá certamente, outros modelos que permitam que tenhamos mesmo vontade de agir e não só cooperação, mas vontade de cooperar. E a cultura de uma acção cooperante é fundamental para que uns com os outros consigamos ter sucesso neste objectivo.

Falou nos santuários de ecossistemas. A Universidade dos Açores deverá fazer a ponte criando a centralidade dos Açores?
No fundo é o que quero dizer. Porque temos os Açores numa periferia geográfica, mas em vários aspectos são uma centralidade em matéria de valor. Essa questão dos ecossistemas, das próprias características de uma cultura muito enraizada e historicamente construída em termos de afirmação popular de valores e de criação de identidade, tudo isso pode ser projectado por um lado, a partir da Universidade que tem sempre na mão a capacidade de investigação, mas também, e isto é muito importante, a partir desta ideia de que nestas matérias os Açores são uma centralidade. Uma centralidade, quando estamos a falar de uma relação entre os Açores e a República, mas também de uma centralidade entre os Açores e a Europa. Nessa medida os Açores têm um papel decisivo.
Se quisermos noutro plano, já mais ligado à oceanografia, evidentemente que quer pela sua localização no Atlântico, quer pelo seu encaixe na Macaronésia, quer pelas relações privilegiadas com os Estados Unidos, os Açores continuam a ter um papel decisivo e até um papel de liderança nesse conjunto da Macaronésia, que envolve Cabo Verde, as Canárias, Madeira e Açores. Temos muito campo para poder intervir, temos é de ter vontade de o fazer.

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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