Cem anos de esperança

No cemitério inglês do Funchal jaz em campa rasa o cientista que no início da sua auspiciosa carreira identificou os Ilhéus de Langerhans, uns pequenos aglomerados de células dispersos pelo pâncreas a fazer lembrar umas ilhotas no meio do oceano e batizadas justamente com o seu nome. Paul Langerhans (25 de Julho 1947 - 20 Julho 1888) é considerado um dos mais argutos representantes do espírito científico da segunda metade do Século XIX. A sua relação com a Madeira adveio de ter contraído tuberculose e de se radicar naquela ilha tendo em conta as virtudes terapêuticas do clima. E por lá morreu aos 40 anos, vítima da doença que o afastou dos grandes centros europeus de investigação médica, deixando órfão uma área da biologia que só algumas décadas mais tarde viria a ser revisitada. A importância dos Ilhéus de Langerhans é que neles se alojam as células que produzem insulina. Em boa verdade, a relação da insulina com a diabetes é já quase centenária. De facto, estamos a poucos anos de celebrar um século desde que o primeiro doente diabético foi tratado com insulina e… sobreviveu! Aconteceu em 1922. O que era até então uma sentença de morte passou a ser uma esperança de vida. Antes da insulina, as crianças diabéticas agonizavam numa espoliação inexorável até á caquexia. Era uma morte anunciada pelo hálito a maçãs; pelos estalidos dos lábios ressequidos; pelo gemido surdo do peito agitado em movimentos de fole. As formigas começavam a proliferar nas redondezas do moribundo, atraídas pela urina doce. Chegavam como abutres, cheirando um cadáver fresco. E os dias iam e vinham sem esperança, até ao último suspiro. O mundo rejubilou com a descoberta da insulina. A consagração foi rápida e em pouco mais de um ano (1923) os sinos da Academia Sueca tocaram a rebate anunciando a “Nobelização” do triunvirato Banting, Best & Macleoad que ofereceu à humanidade uma esperança de vida para a diabetes. Não a cura, porque dessa ainda estamos á espera, como se fosse obra de um D. Sebastião que há-de saltar do nevoeiro para a ribalta do mundo num abrir e fechar de olhos. Já vamos na quarta, ou melhor na quinta geração de investigadores, de clínicos e de doentes que sonham com uma cura para a diabetes depois do já quase centenário primeiro milagre da insulina. A cura da diabetes será uma espécie de exorcismo da ciência sobre os demónios; será o triunfo da razão sobre obscuridade. Tal como o incomensuravelmente distante se escapa aos olhos, o desmesuradamente pequeno também se esvai por entre os dedos. É entre estes dois extremos que navegamos, muitas vezes à deriva. Felizmente temos a insulina para nos alimentar a esperança; É ela que restitui a dignidade às crianças e jovens diabéticos, mas também a muitos adultos. As crianças voltam a sorrir e a brincar, as jovens procriam e mantêm incólumes as suas ambições; finalmente os adultos não perdem o pé na sua vida sócio profissional e familiar. Com poucas exceções é certo! A história da insulina é uma história de arte e engenho humanos, através da ciência, da tecnologia, da indústria e do comércio e com uma expressão particularmente feliz na Medicina. É uma história de sucesso. Cada novo passo é um marco de glória nesta caminhada para melhorar a qualidade de vida dos doentes diabéticos. Se pensarmos que há cem anos ou até mesmo há cinquenta anos, um doente diabético sobrevivia com múltiplas picadas de uma seringa de vidro esterilizada na hora; Que as agulhas tinham tanto de cutelos como de objetos delicados; Que a insulina era extraída de um caldeirão de pâncreas de bovinos ou de suínos abatidos para o efeito. Então estamos de facto a caminhar e a fazer o caminho certo. Portugal também teve os seus pioneiros. Entre os maiores está, seguramente, Ernesto Roma, um médico que no início dos anos 20 do século passado testemunhou os primeiros casos de doentes tratados com insulina na célebre Joslin Clinic em Boston. Impressionado com a eficácia do tratamento trouxe a novidade para Portugal e desencadeou as ações necessárias para que a insulina pudesse chegar ao maior número possível de doentes diabéticos. Com este objetivo fundou em 1926 em Lisboa a Associação Protetora dos Diabéticos Pobres, mais tarde rebatizada Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal. Congregou vontades, contrariou as adversidades, ultrapassou as limitações e manteve até hoje o seu nome na história da Diabetes não só em Portugal mas um pouco por todo o mundo, como fundador daquela que é a mais antiga Associação de doentes diabéticos do mundo, justamente a APDP. 
As duas últimas décadas que correspondem aos primeiros anos deste novo século, foram marcadas pelo rápido desenvolvimento tecnológico associado à proliferação dos meios informáticos. Desde o mais ínfimo pormenor da vida de relação, até à mais distante das estrelas, tudo passou a ser perscrutado por via digital. Com isto adquirimos rigor e rapidez; Pode dizer-se que tudo ficou mais efémero, mas não necessariamente melhor ou pior. As glicemias capilares passarem a estar disponíveis de uma forma quase instantânea; a administração de insulina passou a beneficiar de canetas descartáveis com grande precisão e com maior diversidade de insulinas: lentas, rápidas, ultra-rápidas etc… Por fim desenvolveram-se os sistemas de perfusão subcutânea de insulina, as chamadas “bombas de insulina”. Nos últimos anos, o número de doentes diabéticos tipo 1 que aderiu às bombas de insulina cresceu exponencialmente um pouco por todo lado. A legislação facilitou o acesso reconhecendo os benefícios desta terapêutica. Este sucesso deve-se ao facto dos sistemas de perfusão terem ganho uma flexibilidade que mimetiza em certa medida o pâncreas humano. Mas falta ainda alguma astúcia, diria, alguma perícia aos sistemas mecânicos para serem tão eficazes quanto a própria natureza. Fechar o circuito tem sido de facto um quebra-cabeças para a tecnologia moderna. Mas os pequenos ganhos que estes sistemas proporcionam no quotidiano dos diabéticos, têm sido uma bênção para muitos doentes, que desta forma tem conseguido um melhor controlo da sua diabetes com menos riscos de hipoglicémia e menos complicações a longo prazo. Os 60 doentes que nos Açores utilizam atualmente sistemas de perfusão de insulina no tratamento da sua diabetes, não quererão certamente voltar atrás, isto é, às canetas, porque mesmo sem o sentimento de cura, reconhecem ganhos significativos na sua rotina diária, quase sempre traumática e agressiva. Ninguém em boa verdade pode afirmar que este é o melhor dos mundos ou que temos uma solução ideal para a diabetes. Mas creio que estamos do lado do progresso, do lado que garante um melhor controlo da diabetes e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida dos nossos doentes. Mas o sucesso da terapêutica nas doenças crónicas passa pelo envolvimento não só dos profissionais de saúde e familiares do doente, mas também por instituições como a Escola e pela consciência cívica dos cidadãos em geral. Quando um jovem diabético se depara com comentários como “não te entregues á doença” ou “deixa-te disso” perante as tarefas que obrigatoriamente tem que cumprir, é atirado para um dilema de consciência com consequências imprevisíveis. Todos temos o dever de ser, se não generosos, pelo menos construtivos e colaborantes perante as rotinas do doente diabético para fazer face à sua doença. 
Paul Langehrans não resistiu à tuberculose e morreu aos 40 anos. Está sepultado numa campa rasa, aliás como era seu desejo e não por falta de reconhecimento de quem quer que seja.  
                       

João Anselmo

 (Médico-Endocrinologista)
 

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Autor: CA

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