Fontes Vivas (16) – Humberto Viveiros Martins

Foi comando na Guiné, matou para não morrer e onze amigos morreram ao seu lado num ambiente sempre muito tenso

Como foi a sua juventude?
Nasci em 1949, na Rua Moinho do Vento. Cresci na Calheta, na cidade principal dos Açores (risos). Mas, actualmente, já está destruída. Nem existe. Ainda há relativamente pouco tempo, eu e a minha irmã vendemos a casa de nossos pais, já falecidos. Fiz a escola também na zona de São Pedro e a minha igreja também era ali. Era bastante ligado à igreja, amigo dos padres, ligado às músicas. Não havia mais nada naquela altura. Tive uma infância feliz e normal. Não éramos nem ricos ou pobres. Éramos honestos e vivemos assim. Sempre muito ligados à nossa família que era muito unida.
Sempre gostei da actividade física, o que levou a que, depois, fosse tirar o curso de Educação Física. Fiz o Curso Geral de Comércio na Escola Industrial. Depois, fui tirar o curso de Educação Física no Instituto Nacional de Educação Física, bacharelato na altura. E só depois de regressar do Ultramar é que fiz o complemento de licenciatura através do Instituto Superior de Matemática e Gestão.
Tive o privilégio de ter o Jorge Amaral como meu professor de Educação Física que me incentivou a ir para esta área. Ele chamava-me “atleta”. Sempre gostei e aplicava-me. Devo-lhe isso a ele e a meu pai que sempre me incentivava para a actividade física.

Preferia alguma modalidade?
O meu mal é esse: gosto de tudo! (risos). Portanto, comecei em São Miguel com várias actividades como o windsurf – quando não havia cá -, escalada, entre outros. Incuti uma data de modalidades em São Miguel, desde a nível de dança, expressão artística, desportos de combate, caça submarina, parapente, asa delta. Por isso, para dizer do que é que eu gosto, realmente é difícil. 

Como iniciou a sua vida militar?
Apesar de ter tirado o curso de Educação Física, tinha que ir para a tropa. E na altura, já tinha pedido adiamento por causa do curso. Fui fazer a recruta para as Caldas da Rainha. Mas gostava de ter vários cursos, ou seja, a minha ideia era ter um curso de Educação Física, ser piloto e ser paraquedista. Esta ideia já vinha desde miúdo. Portanto, já tinha feito o curso de Educação Física e pensei que queria ir para os paraquedistas, mas tinha que esperar cerca de 3 ou 4 meses. Só que, naquela altura, quando nós acabávamos os estudos, tínhamos sempre a intenção de começar a trabalhar para ganhar dinheiro. E estar aquele tempo à espera do curso de paraquedistas era um martírio e o que fiz? Embora também gostasse muito de actividades relacionadas com o mar – pois sempre fui muito ligado ao mar – ainda pensei ir para os Fuzileiros, mas na altura consegui entrar para os Comandos. Foi uma entrada mais rápida e mais lógica. E, também, porque gostava da actividade dos Comandos. Fui como voluntário, isto em 1971. Fui para Lamego, realizei as provas que eram necessárias e lá fiz o curso todo. E depois, fomos para a Guiné.

Quando foi para o Ultramar?  
Em Agosto de 1972. Nós [Comandos] saíamos quase sempre. Por vezes, as intervenções eram de helicóptero que nos deixava perto da zona de intervenção. Outras vezes, estávamos preparados para sair e vinham instruções de fora q anular a operação. O inimigo – eu não gosto de falar assim, mas pronto – já não estaria no tal local e alterava-se a missão para outro dia qualquer. Andávamos sempre em grupo, por vezes, com troca de elementos, e fizemos muitas operações. Muitas vezes, saíamos e tínhamos contacto. Noutras, não acontecia nada porque quando o “inimigo” sabia que era uma unidade de Comandos, não retaliava nem dava sinal. Diziam que era uma “manga de chumbo” (no sentido de ser “muito peso”) e que éramos uma tropa muito bem preparada. 
As nossas intervenções eram rápidas. Já íamos com o objectivo destinado, tendo informação para determinado local. Umas vezes, fazíamos patrulhamento. Relativamente a operações, foram muitas. Mas de todas, existem 11 que considero as mais significativas. Em termos de baixas, também foram 11 durante esse período na Guiné, sem contar com os feridos. Havia cerca de 220 comandos efectivos e também tivemos cerca de 20 a 30 que vieram de Portugal e de Angola para nos ajudar. 

Como era o ambiente?
Era um ambiente sempre muito tenso. Aquela época entre 1972 e 1974, segundo dizem também, foi a mais difícil. Nunca sabíamos o que é que poderia acontecer. Andávamos ali a matar para não morrer! 
A Companhia de Comandos actuava sempre no mato e em diversas zonas como Teixeira Pinto e Mansoa. Andávamos ali à volta daquelas zonas de um lado para o outro: 3 meses num lado, outros 3 meses no outro. Íamos sempre para “zonas quentes” – em cenário de guerra. Mesmo à noite, tínhamos que estar em alerta. Em Teixeira Pinto e Mansoa, havia sempre uns “barulhinhos” e nós actuávamos aí. Muitas vezes, tínhamos que ir para Bissau apanhar o helicóptero para nos deslocarmos e realizar operações em outras zonas. Apesar de termos o quartel em Bissau, só íamos para lá de passagem.
Mas, na altura, enquanto nos encontrávamos na guerra, o pensamento era “se eu não matar, vão-me matar”. Também tínhamos que actuar em grupo. Não poderia fugir e deixar um amigo atrás. Íamos com muita força e eles também nos faziam esperas. Quando nos viam, fugiam. O nosso armamento também era zero! Nós tínhamos que matar para termos as armas deles. Apanhávamos as armas deles e as munições.
A minha companhia tinha 38 comandos e actuávamos juntamente com a companhia de paraquedistas, com 121 elementos, composta também por muitos açorianos. Um grande amigo meu, do dia-a-dia, faleceu lá numa operação onde eu também estava. Fui eu que avisei a família… Era raro as nossas companhias actuarem juntas. Íamo-nos rendendo uns aos outros. A companhia dos paraquedistas era uma excelente companhia. Quando estava na Guiné, inscrevi-me num curso de pilotagem, mas mandaram-me para Lamego para dar instrução e ficou tudo por “águas de bacalhau”.

Há alguma história em particular que queira partilhar?
Depois dos primeiros contactos (missões), recebíamos um crachá numa fase dos Comandos e aí sim é que já éramos oficialmente Comandos: uma coisa é ter o curso, outra é ser. Tiramos o curso e depois vamos fazer a especialidade em teatro de guerra. E logo na primeira operação, tivemos duas baixas. Transportamos os corpos para o helicóptero. Ninguém dos Comandos ficava atrás. E íamos receber o tal crachá, mas não quis receber.

Por que razão não recebeu o crachá?
Aquele crachá dava-nos mais 400 escudos por mês e eu achava que não tinha direito de receber uma medalha por matar gente. Estava ali [no Ultramar] para defender os valores do meu país e tinha que defender a minha família. Íamos para a guerra com os olhos completamente tapados porque não havia informação nenhuma. Não havia outro remédio senão ir para a guerra. Tive amigos que saíram do país e que “desapareceram”. Fui para lá, tinha o curso, estava preparado para enfrentar o que tinha em frente, numa guerra colonial. Quando começamos a matar e a ver os nossos a cair, pensei logo que não precisava do crachá e do dinheiro. Receber aquele montante naquela época era muito dinheiro. Continuava lá, juntamente com os meus colegas. A única diferença é que não recebia o dinheiro. Mas viria a acabar por receber o crachá uns meses depois. 

Iam para a guerra com a ideia de defender a Pátria. Durante o tempo em que esteve no Ultramar, apercebeu-se do que era a verdadeira realidade?
Quando fomos para os Comandos, um curso intensivo, em que não se brinca, e nós, jovens, com aquela idade, tínhamos a postura de valentes e cheios de força! Diziam que estavam a matar os nossos amigos e os portugueses, e que aquilo [colónias ultramarinas] era nosso. Mas não era nosso. Era deles! Ainda por cima, da maneira como deixaram aquilo após a descolonização… é mais complicado. Aquelas pessoas deveriam ter sido respeitadas.

Então, na sua opinião, os políticos não souberam gerir a descolonização?
...Não concordava com a guerra, mas corríamos o risco de sermos mortos a qualquer momento. Hoje em dia, não acredito em política. 
O 25 de Abril foi muito bom, mas depois, na altura, foi “decrescendo”. 

Onde estava quando se deu a Revolução?
Como fui o 2.º classificado dos Comandos – o que tinha ficado em 1.º lugar faleceu na Guiné em combate – e os 3 primeiros classificados do curso tinham que sair mais cedo 2 meses e meio, 3 meses para dar instrução à Companhia que nos iria render, voltei para Lamego em Fevereiro de 1974. Dei o curso à Companhia 40 e 41. Mas teria que regressar novamente à Guiné para a composição de Comando porque, primeiro, nós recebíamos uma chapa de Comandos e, depois, um crachá que já é da última fase do curso, já em combate. Fiz parte do corpo de instrução e, entretanto, acontece o 25 de Abril! Ou seja, encontrava-me em Lamego a dar instrução. Às tantas da madrugada, “estava uma Revolução em Portugal”, entrou imensa gente com flores pelo quartel dentro, no Lamego. 
Com o 25 de Abril, a minha Companhia, que ainda se encontrava na Guiné, teve ordem para regressar em Julho de 1974. E acabei por não voltar mais à Guiné. Mandaram-me dar instrução à Companhia 42, mas acabou por ser interrompida. Regressei aos Açores em Agosto de 1974.

Passados estes anos todos, apesar de tudo, acha que a guerra fez sentido?  
Eu acho que não. Nunca concordei e creio que a maior parte das pessoas também. Foi um desperdício. Podíamos estar lá, a acompanhá-los naturalmente na independência porque era algo previsível. Mas não havia necessidade de tudo o que aconteceu na guerra. 

Esta foi uma etapa encerrada da sua vida, que, certamente, o marcou.
Não quero lembrar-me. O dia-a-dia tem sempre coisas para serem resolvidas. E, geralmente, o que vem detrás, não ligo muito. Tenho o meu passado, mas estou sempre a ver o que tenho para fazer amanhã. Já passou e, infelizmente, muitos amigos ficaram lá… marcou-me, claro. Para mim, um simples barulho de uma cadeira ou de uma porta do frigorífico “assusta”, por vezes. Não fiquei com aquele stress… Mas há coisas que marcaram. Como Comandos, íamos preparados para qualquer alerta. Se ouvíssemos um disparo e não soubéssemos de onde vinha, tínhamos que ir ao chão e pensar “o que é que se passava”. A instrução tinha que ser cumprida.

Arrependeu-se alguma vez de ter ido para os Comandos?
Nunca. Actualmente, até aconselho irem para o paraquedista-comando! Fazíamos missões de helicóptero, mas não éramos paraquedistas. Tinha a tal ideia de tirar o curso e gostava de ter continuado a dar instrução na tropa. O dar instrução faz parte da minha área de Educação Física. Cheguei a dar instrução psicológica, inclusive.

E porque não continuou na tropa?
Porque… não gosto muito da política das hierarquias militares. Tenho amigos militares, atenção. Mas fazer serviços, não poder vestir como eu quero (risos), cumprir determinadas rotinas...
Queria ser professor de Educação Física!

Quando saiu dos Açores, ainda se vivia sob a ditadura. E regressou pouquíssimo tempo após a Revolução. Como compara estas duas vivências?
É uma pergunta interessante. Vim de um teatro de guerra, de uma instrução de tropa especial, chego aos Açores e deparo-me com situações como carros atirados para a água e casas queimadas. E pensei: “Fui para fora para defender o país e agora tenho uma guerra em casa”. Portanto, aquilo, de facto, foi uma mudança brusca. Foi um choque. Venho da guerra e vejo isto tudo cá de “pernas para o ar”! Como referi, o 25 de Abril foi bom. No entanto, bom para umas coisas, mau para outras.
Mas não haja dúvida que melhorou em tudo. Hoje em dia, temos acesso ao ensino, por exemplo. E antes da Revolução, isso era impensável. Fui estudar para fora, mas com uma bolsa de estudo e meu pai disse-me que se perdesse, voltava para a ilha. Tínhamos que fazer as coisas com cabeça, ou seja, tinha que haver uma certa aplicação e vontade. E eu tinha ambas as coisas.

Quando regressou a São Miguel, começou logo a exercer funções como professor?
Sim, comecei a trabalhar em Outubro de 1974. Fui professor de Educação Física durante 42 anos. Éramos poucos profissionais na área de Educação Física e fui logo colocado em 3 estabelecimentos: Escola Secundária Antero de Quental – onde estive durante 39 anos; Externato do Infante, onde funcionava o Hotel São Pedro; e no Externato da Colmeia – estive 42 anos, mas através de um pedido. Também estive no Ensino Especial na Casa de Saúde durante 23 anos. Aos fins-de-semana, tinha actividades de escalada, canoagem, judo, entre outras modalidades. 

Gostou sempre do que fez?
Sempre! Nem pedi a reforma. Mas um dia, o Presidente do Conselho Executivo da Antero de Quental, Boanerges Melo, um grande amigo, disse-me: “Amanhã já não trabalhas. Já estás na reforma!”. Estávamos no final do 2.º período em 2013, creio.

Apesar de já estar na reforma, o exercício físico continua presente na sua vida.
Nem tenho tempo para mim! Pratico ciclismo, canoagem, trabalho em coisas de mecânica, ouço música. E não gosto de dormir de dia, detesto! Deito-me pela meia-noite, 1h da manhã e pelas 6h e tal já estou acordado.

Relativamente ao livro que fala sobre a história da sua unidade militar...
Sim, fala somente sobre a minha Companhia, a 38.ª Companhia de Comandos, “Os Leopardos”. Mas admito que ainda não o li. O curioso é que cada um dos Comandos recebeu um livro tendo a sua fotografia estampada na contracapa.
É bom haver estes testemunhos, estes relatos, mas há pessoas que se prendem demasiado a estas coisas da guerra. Vamos a um jantar e só falam “guerra, guerra e guerra”. Não digo que não se fale um pouco, mas também desligo-me um pouco do que já passou, por isso…

                                                                    

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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