16 de novembro de 2019

Cesto da Gávea

Anda aí uma febre dos Gs que deixa atordoados quantos não estão ao corrente da velocidade com que as mudanças na tecnologia influenciam o nosso viver, alterando o comportamento dos mais j

Anda aí uma febre dos Gs que deixa atordoados quantos não estão ao corrente da velocidade com que as mudanças na tecnologia influenciam o nosso viver, alterando o  comportamento dos mais jovens. Começou com o 2G, depois o 3, o 4 e agora o 5G, a 5ª geração que vai verdadeiramente revolucionar a comunicabilidade e a conectividade a nível global, visto associar a inteligência artificial (conhecida em “tecninglês” por AI) às TIC ou tecnologias da informação e comunicação. De G em G, a evolução das gerações tecnológicas vai tomando conta das pessoas, reduzindo-as a peças numeradas de algoritmos, sem que se apercebam da armadilha em que voluntariamente caíram. O crescimento da indústria chinesa de tecnologias móveis assustou os americanos, habituados a fazer a chuva e o bom tempo nestas matérias, fazendo Mr. Trump desenterrar o machado de guerra contra a Huawei, uma das concorrentes de peso que quebraram 15% das vendas da Apple nos primeiros 9 meses deste ano. Tem razões de sobra para ser protecionista, porque se juntarmos a Huawei com a ZTE, ambas chinesas, somam as duas entre 42 a 45% do mercado mundial de retransmissores, infraestruturas essenciais nas telecomunicações; e se lhes adicionarmos os 50% da parte de mercado das europeias Ericsson e Nokia, vemos que sobra pouco espaço para os concorrentes yankees nesta área essencial. Nos smartphones, um mercado global onde se preveem vendas de 1500 milhões de unidades em 2019, o panorama não é melhor para os EUA, porque o domínio asiático é esmagador, com a Samsung sul-coreana no topo, seguida da Huawei, ambas em crescimento, enquanto a Apple mostra sinais de decréscimo. Acrescente-se que, segundo os especialistas do mercado, mais de 55% das vendas da Apple são iPhones, uma área onde a concorrência tecnológica é feroz. 
As consequências desta verdadeira guerra pela supremacia tecnológica não são apenas de ordem comercial e financeira, mas vão bem mais longe, para entrarem no campo do domínio político mundial. Entre os riscos desse domínio, está a corrosão da democracia, da liberdade individual e das próprias soberanias nacionais, com a concentração do poder nas grandes corporações multinacionais. O resultado são as insurreições populares que, como pipocas a estalar, alastram pelo planeta, da América Latina ao Médio Oriente e à Ásia, pressagiando um futuro altamente conflituoso nos próximos anos. Neste combate sem tréguas, onde se jogam volumes de negócios com números seguidos de 9 a 12 zeros e que os brasileiros simplificam para bilhões (se milhares de milhões) ou trilhões (se milhões de milhões) mesmo a saúde pública é usada como arma. Há especialistas da biomedicina que enviaram pareceres à União Europeia alertando para os riscos cancerígenos das ondas de alta frequência, enquanto outros argumentam em sentido contrário. Para uns, as conservas vegetais e o pó de talco dos bébés, têm igual risco, enquanto para outros o álcool e as carnes processadas são piores que as ondas dos telemóveis, nomeadamente dos smartphones 5G. 
Contudo, os piores perigos não são estes, mas os que gente esclarecida como Yuval Harari, da Universidade Hebraica de Jerusalém, vêm denunciando em livros e artigos credíveis. Harari, na edição de maio deste ano do Courrier Internacional, citou 4 principais perigos da 5G: a possível irrelevância das democracias, a provável inutilidade da orientação humana, especialmente das classes trabalhadoras (incluindo as mais preparadas), o crescimento das ditaduras digitais (concentração da informação em poucos locais, ou mesmo num só) e finalmente, a mudança do poder decisor humano para as máquinas (evidente no atual uso dos algoritmos, aplicados na área financeira). O exemplo que o Prof. Harari dá, relativo à impossibilidade de qualquer ser humano, ainda que superdotado, vencer nos nossos dias um jogo de xadrez com o AlphaZero, um programa Google de inteligência artificial, é mais que esclarecedor -- é um sinal aterrador da ameaça que a desmesurada ambição do Homem criou para si próprio.
 Num artigo em que, por comparação com a Idade Média, usei a expressão “servos da gleba espacial”, imaginei que as ameaças dos algoritmos ligados à inteligência artificial iriam aumentar ao ponto de se tornarem destruidoras, caso não fossem politicamente controladas a nível global. Mal sabia que tão rapidamente as notícias sobre a “tirania do digital” iriam ser fonte de tanta preocupação de especialistas em fraudes cibernéticas, fabricantes de falsas notícias e manipulações de mercados financeiros, chegando ao mundo da política via redes sociais. Quando um algoritmo de um supercomputador que ainda nem é de tecnologia quântica, é capaz de fazer tremer titãs, o que acontecerá quando as suas capacidades aumentarem 20 ou 30 vezes, ao serviço de robôs artificialmente inteligentes? Podemos imaginar os perigos da futura servidão humana, pela atual apatia e adormecimento dos servos da 5Gleba. 

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Categorias: Opinião

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