17 de novembro de 2019

Dos Ginetes

Dia Mundial dos Pobres

Foi instituído pelo Papa Francisco, e actualmente com tanta injustiça que mina a sociedade em que vivemos seria bom fazermos todos um pequeno exame de consciência neste Domingo em que o próprio Papa dará uma atenção especial aos mais desfavorecidos, humanamente marginalizados ou simplesmente esquecidos. 
A sociedade em que vivemos nunca protegeu a todos por igual e com a benevolência dos próprios governos que muitas vezes até usam os sem-abrigo para lavar uma face demasiado desfigurada pelas mais variadas injustiças. Se é verdade que existe muita gente esperta que consegue “dar a volta” para assim beneficiar de um sistema em minha opinião demasiado generoso, outros existem igualmente que não foram favorecidos pela sorte. 
E por uns “chico-espertos” não podemos nunca penalizar quem realmente precisa do apoio das várias Instituições. Estas últimas sim, têm por missão “abrir os olhos” e tratar a todos com justiça.
Em pleno século XXI a pobreza tal como a vemos diariamente é uma autêntica vergonha. 
Ser pobre não significa ser miserável, passar fome ou dormir na rua como por vezes nos querem fazer crer. Existe certamente gente viciada que não quer trabalhar mas também muita que deixa a sua terra natal em busca de um futuro melhor, conseguindo-o em vários casos com muito esforço, enquanto outros infelizmente muitas vezes apenas partem cheios de ilusões e nada mais.
Quantos dramas de miséria são vividos por gente que decidiu um dia abandonar a sua terra acabando mesmo por ser explorada. Passa-se no nosso país mas também noutros supostamente mais ricos que o nosso.  
A todo este sistema criado pelos homens, “abençoado” pelos senhores do poder chama-se “escravatura dos tempos modernos”. Não o vê quem não quer. 
Hoje toda a preocupação dos Governos, não importa o país, está centrada no apoio às grandes empresas e à Banca.  
Se é verdade que a classe média é o grande pilar do sustento da economia de um país, não é menos verdade que igualmente hoje essa classe está a ficar cada vez mais empobrecida. 
A tal “pobreza envergonhada” de que tanto falamos muitas vezes pode estar presente mesmo ao nosso lado.
Ainda na passada semana comentava alguém num programa televisivo da nossa RTP/Açores, o drama que é viver de miseras reformas de duzentos ou trezentos Euros mensais enquanto outros beneficiam de reformas milionárias, já para não falar das famosas “vitalícias” que abençoam no final do mês a vida de quem pouco ou nada fez. Estes últimos deveriam ter vergonha.
Conheço o suficiente a minha terra e a forma de viver de muitos dos nossos idosos.
Também já sou um deles. Felizmente tenho equilibrado, também com alguma dificuldade, o que é essencial para a minha qualidade de vida e de minha mulher. Outros não…pois nem sempre conseguem obter o necessário, como por exemplo medicamentos, porque apesar de algum apoio governamental, o “dinheiro não chega”. Alguns têm de fazer escolhas entre o mais e o menos importante.
A idade aumenta, os cuidados de saúde a que qualquer cidadão tem direito chegado sobretudo a determinado momento da vida parecem um favor, por vezes até escassos para não chamar vergonhosos. 
O futuro não se apresenta promissor como já várias vezes neste espaço defendi. 
O desemprego jovem é assustador e de tal serão avaliadas as consequências certamente dentro de vinte e mais anos. É verdade que já não estarei por cá para ver mas envergonha-me a herança que esta geração vai deixar a essa gente.
Enquanto os ricos são cada vez mais ricos e os pobres mais pobres parece que ninguém admite qualquer sentido de culpa, mas ela existe na realidade porque há cúmplices deste escândalo.
Muitos pobres gastos por uma vida inteira de trabalho são considerados muitas vezes autênticos parasitas quando ousam levantar a voz. Pessoalmente tal não me incomoda enquanto o bom Deus me deixar viver a minha vida.
E o problema não é apenas no nosso país mas igualmente presente nos chamados países ricos onde existe tal como aqui muita hipocrisia.
Para terminar apenas um pequeno testemunho.
Um dia também daqui parti e vi um pouco de tudo. Gente boa, gente feliz, mas também muita pobreza “envergonhada”. Nunca mais esqueci uma noite da quadra de natal, na década de setenta do século passado, nesse país que apesar de ter conseguido com a minha família ter uma vida equilibrada, pelas três horas da madrugada após um alegre convívio na casa de um dos meus irmãos ao dirigir-me em viatura para minha moradia encontrei alguém, bem vestido frente a um restaurante de refeições ligeiras que naquela noite se encontrava encerrado, tentando encontrar no lixo algo para matar a fome. Vi o gesto de alegria mas igualmente de desespero quando vislumbrou um “osso com alguma carne ainda agarrada”. De imediato levou à boca. 
Tal não é fruto da minha imaginação pois igualmente foi testemunha de tal situação os familiares que nessa noite me acompanhavam. Ficámos chocados. Países ricos ou pobres, grandes ou pequenos, apenas muda a dimensão das ruas, a iluminação e edifícios porque na realidade quanto aos homens e mulheres que têm ao seu cuidado trabalhar para um mundo melhor são na realidade como diz o nosso povo saturado de tanta injustiça: “Eles são todos iguais”.
 

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Categorias: Opinião

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