Face a face!... com Rogério Frias

A ponte entre a Lomba da Fazenda e a Vila do Nordeste não se construiu por uma “birra” entre os políticos

 Correio dos Açores - Descreva os dados que o identificam perante os leitores! Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Rogério Frias - Nasci na Praia da Vitória onde iniciei os meus estudos. Ainda jovem fixei residência no Nordeste. Exercia funções de Técnico Profissional de Construção Civil. Mais tarde e a convite do Presidente de Câmara de então, fiz parte das listas do PSD e iniciei funções como vereador e Vice-presidente da Câmara Municipal de Nordeste, o que aconteceu durante 12 anos. Entretanto, fui Presidente da Filarmónica Estrela do Oriente, Presidente da Associação de Pais da EBI/S de Nordeste, Presidente da Comissão de Crianças e Jovens em risco. Actualmente sou Presidente da Assembleia Municipal.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A sociedade está em evolução constante. A mente das pessoas é bombardeada com informação e conhecimento permanentes e, sob ponto de vista tecnológico, a mente das pessoas quase não consegue acompanhar e assimilar o processo evolutivo. Basta referir que um número muito significativo de pessoas ainda em idade quase jovem tem imensa dificuldade em trabalhar com novas tecnologias, nomeadamente meios informáticos ou semelhantes. As mentalidades mudaram radicalmente. As sociedades estão mais abertas, dinâmicas e evolutivas. Os procedimentos têm melhorado substancialmente.

Que importância tem os amigos na sua vida?
Uma vida equilibrada assenta também num bom relacionamento com amigos. Contudo não é imperativo ter demasiados amigos. Bastam os suficientes e quase sempre é um número muito restrito. Temos que ter em atenção que à luz de cada pessoa, nem todas as outras são confiáveis. Logo, convém manter o maior leque de amizades possível e sobretudo privilegiar a família. De resto, ter alguns amigos é saudável e faz mesmo parte da vida de cada um de nós.

Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Neste momento, tenho um regime de vida muito equilibrado. Estou aposentado e isso permite-me ter flexibilidade para gerir o meu tempo conforme quero e me apetece. Não me interessam mais cargos. Já contribuí muito para esta terra. Agora tenho outros interesses. Pratico exercício físico regular, sou apreciador de livros com qualidade, gosto bastante de escrever e falar com as pessoas e, quando me apetece, gasto tempo na minha quinta e jardins. É todo um conjunto de pequenas tarefas que me enriquecem culturalmente e outras contribuem para o meu bem-estar físico, mental e social.

Que sonhos alimentou em criança? 
Quando criança sonhava ser professor de Português e Francês. Tinha qualidades para o efeito. Não obstante a vida rumou noutro sentido e eu viria a integrar na década de 80 um curso de fiscais técnicos, o qual mudou de forma radical a minha vida, pois acabei então por me empregar nessa área, ou seja no âmbito da construção civil e obras públicas. Foi o único sonho que me lembre, o qual não teve efeitos práticos. No entanto, a vida é feita destas circunstâncias e o percurso que fiz acabou por me satisfazer bastante, pois tive oportunidade de trabalhar de perto com a população, granjeando inúmeras amizades e obtido muitos conhecimentos.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
A leitura faz parte do meu dia-a-dia. Não consigo passar sem ler sempre que tenho oportunidade. O jornal é de leitura obrigatória. Ademais, leio vários livros em simultâneo. A história fascina-me. Foi pena não ter descoberto interesse por esta temática quando era jovem. Compro livros de história com assiduidade, sobretudo história de Portugal, mas também tenho lido muito sobre a história da Rússia e outros e foi precisamente um livro desses que me fascinou, designado por “Gente do Passado”, a história de uma família aristocrata no tempo da Revolução russa. Mas a nossa história tem muito para lermos. É um manancial de informação que nunca mais acaba.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Sim, conseguiria. Apesar de serem ferramentas importantes, a ideia que tenho é de que a internet é hoje fundamental no seio da nossa sociedade, ao passo que no que respeita ao telemóvel já isso é discutível. Falo por mim. O telemóvel não é para mim indispensável, contudo a internet é hoje muito importante no desempenho da actividade profissional das sociedades e também como meio de investigação, informação e de lazer. Não gostaria de ficar sem internet, mas se me subtraíssem o telemóvel não me causaria grande problema.

O que pensa da política? Gostava de ser um participante ativo?
Exerci a política de forma activa, tal como acima mencionei. Inclusive fui, por muito tempo, Presidente das estruturas concelhias dum partido político, mas isso para mim faz parte do passado. Durou o tempo que durou, mas ser autarca é muito desgastante se quisermos fazer um bom trabalho e com gosto. Sou como disse o Presidente de Assembleia Municipal e, se nunca se pode dizer nunca mais, neste momento não tenho qualquer interesse em integrar outros cargos de cariz político ou associativo. Estou muito bem com o que tenho e temos de ter presente que se deve dar lugar aos mais jovens para integrarem esses quadros.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
É importante tirarmos proveito dos prazeres que a vida nos confere. Quem não gosta de comer bem? Adoro a nossa comida caseira, comida tipicamente açoriana é um regalo. Não tenho um prato preferido. Tenho, sim, imensas comidas que gosto de saborear, designadamente sopa de legumes à base de cenoura e couve lombarda com chouriço. Uma boa alcatra de peixe cai sempre bem, assim como uma feijoada com orelha de porco ou um cozido à portuguesa. Mas como tudo quanto é excesso cai mal, acabo por ter alguma moderação com os meus hábitos alimentares e dou-me muito bem com saladas como acompanhamento de todos pratos. Regra geral, prefiro o peixe, visto me parecer ser muito saudável.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Gostei particularmente dessa pergunta e tenho resposta imediata para ela, embora compreenda que não será fácil. Gostaria de ver uma notícia intitulada “Vacina contra o cancro pronta a aplicar”. É a epidemia deste século. Por via dessa doença, tenho visto partir tantos familiares e amigos em idade ainda muito precoce e isso incomoda-me. Os problemas do foro físico e psicológico causados por esta doença às pessoas são inquietantes, quase tortuosos. As pessoas têm de ter muita frieza, alento e positivismo para encarar e lidar com tal flagelo. Oxalá a medicina dê passos concretos nesse sentido quanto antes.

Como vê o fenómeno da pobreza nos Açores e, no caso particular do Nordeste? Em sua opinião, que soluções se poderiam adoptar?
O fenómeno da pobreza tem de ser analisado pontualmente e a ideia que tenho é que tem havido progressos nessa vertente, muito embora ela ainda seja notória, infelizmente. No caso concreto do Nordeste, a pobreza é muito relativa. Aliás, penso mesmo que não se devia avaliar a pobreza em números estatísticos de determinada região, dado que cada uma tem “modus de vida” diferentes. Os números do INE, relativamente ao poder de compra no concelho de Nordeste, não me convencem, pois tenho mais dados e conhecimento ‘in loco’, pelo que interpreto o fenómeno de outra forma. Neste concelho não existe a chamada pobreza ou gente a viver em situação de miséria. É verdade que a maioria das pessoas tem um vencimento baixo, por via da sua aptidão e enquadramento profissional. Não obstante, o nordestense é laborioso e trabalhador e aqui todos têm complemento de salário, isto é, quando chegam do emprego têm os seus quintais com abundância de produtos e animais domésticos que em muito contribuem para o seu sustento. As pessoas na sua maioria não compram tudo. E isto reflecte-se de forma muito positiva nos orçamentos familiares. Logo pobreza aqui… nem por isso. O nordestense é poupado e regra geral vejo as pessoas a adquirirem o que necessitam. Agora, para inverter a existência da pobreza, é preciso que haja uma economia sólida e próspera, geradora de riqueza e postos de trabalho.

Lançou ontem o livro ‘Concelho de Nordeste – contributos para a sua história”. Pode fazer uma síntese do livro?
Como disse, vim muito jovem para o Nordeste. Desde logo, comecei a minha integração, a qual foi fácil. Gostava de saber muito sobre o Nordeste. Contudo, para tal, tinha dois meios: fontes orais e bibliografia. No que respeita a fontes tive sorte. O meu emprego facilitou em muito a comunicação com os nordestenses em geral e eu conseguia saber um pouco de tudo falando com todos. O pior era a bibliografia. Muito pouco se escreveu até hoje sobre o Nordeste. Tudo quanto eu procurava me remetia para o livro Saudades da Terra do Dr. Gaspar Frutuoso, embora haja outras notas muito dispersas. No tempo do Estado Novo, nunca se escreveu nada. Apenas no último quartel do século XX apareceram alguns documentos, nomeadamente um pequeno livro muito bom de 1989 cujo autor foi José Carlos Carreiro e respigos e aqui e acolá de Eduardo Jorge Melo e José de Almeida Melo. Por via disso, decidi escrever sobre o Nordeste. O livro faz uma caracterização física do concelho, aborda o seu património cultural e edificado, fazendo alusão a algumas temáticas sobre as quais nunca se havia escrito. Será uma ferramenta importante para as futuras gerações. É uma obra dos nordestenses para os nordestenses, pois nalguns capítulos as suas personagens são nordestenses genuínos, respeitosos e pessoas de grande carácter. Fi-lo com enorme carinho e considero que foi um bocadinho de mim que dei ao concelho
Concorda que, tal como sucede com as ilhas de coesão, o Governo dos Açores deveria majorar os apoios, nomeadamente, para a instalação de pequenas e médias empresas no Nordeste?
Acho que o Nordeste deveria beneficiar das mesmas prerrogativas das ilhas de coesão, face ao seu estatuto de concelho ultra-periférico. Note-se que o concelho sempre foi sucessivamente ignorado nos seus anseios junto da tutela e isso nunca foi bem aceite pelos nordestenses, os quais sempre se debateram por um concelho com mais qualidade de vida. Aliás, o grande problema do Nordeste é exactamente a sua economia débil em função da inexistência de indústria, como existe por exemplo noutros concelhos. Penso que, se o Governo assim o entendesse, poderia e deveria criar incentivos à ampliação do parque industrial e consequente implementação de indústrias que criassem riqueza no concelho, como é o caso da criptoméria. O concelho continua a mandar para o exterior o melhor que tem. Primeiro, os recursos humanos, depois mandam embora a matéria-prima sem a aproveitar devidamente. O retrocesso faz-se com políticas apropriadas. É preciso querer.

Ao fim de vários anos, a SCUT é mais benéfica do que maléfica para o Nordeste? Quer explicar?
O eixo norte da via rápida em regime de SCUT com destino ao Nordeste, conjuntamente com os outros eixos, foi a melhor obra do século do Governo Regional Socialista de Carlos César e José Contente. No caso concreto do Nordeste, permitiu encurtar distâncias, aproximou pessoas, e colocou o concelho de Nordeste mais próximo dos grandes centros de decisão. Veio, assim, colmatar grandes problemas, inclusive económicos, pois que, face à distância de outrora, chegar ao Nordeste era complicado, pelo que todas as matérias-primas e produtos lá chegavam encarecidos. Graças a essa obra, o Nordeste passou definitivamente a integrar o roteiro turístico da ilha de São Miguel e os nordestenses mostram-se claramente satisfeitos. Em termos de acessibilidades o concelho está muito bem servido. Os seus problemas são de outro cariz. Logo essa via foi um grande contributo para a visibilidade do concelho.

É apologista de que se deveria ter construído uma ponte entre a Lomba da Fazenda e a Vila de Nordeste, em vez da actual solução com curvas e contra-curvas? Porquê?
Ora bem, analisemos o assunto. Um dado adquirido é que, de facto, essa ponte não se construiu por uma “birra” entre os políticos de então, nomeadamente Carlos César, do Governo, e José Carlos Carreiro, da Câmara Municipal, os quais são de cores partidárias diferentes. A actual situação de 3 kms de linha contínua com curvas e contra curvas é horrível, mas creio que deveria imperar o bom senso, ou seja o meio-termo. E o caso tem solução muito fácil tecnicamente. Em meu entender, a solução passa claramente pelo alargamento desse troço, dotando-o com 3 faixas de rodagem e ficava tudo resolvido e esclarecido. Como está, é um defeito, paciência, mas o que se fez foi muito bom. É tudo uma questão de boa vontade do poder político.

Entra Governo, sai Governo, todos prometem uma solução em grande para a Boca da Ribeira, mas a verdade é que a instância balnear turística continua a deteriorar-se. Hoje é um imperativo o reforço do quebra-mar e a construção de uma instância turística na Boca da Ribeira face ao número de turistas que a procuram anualmente? Quer explicar? 
No que respeita a zonas balneares e acesso ao mar, a zona balnear da foz da ribeira é local de excelência dos nordestenses e o ex-libris concelhio. A tão prometida obra tem sido sucessivamente adiada e é um facto que já ninguém acredita na sua execução. Naturalmente que a obra nunca se concretizou por razões que se desconhece, mas crê-se que tem havido pouca vontade para a implementar. Senão, note-se que o Nordeste é o único concelho que não tem acesso directo ao mar, nem tão pouco lugar para banhos, o que é de lamentar. Os políticos têm de começar a equacionar os casos em função das suas necessidades e prioridades e não em função de factores inexplicáveis, os quais me abstenho de mencionar. Creio que se trata apenas duma questão de vontade do poder político, mas o Nordeste merece. É por esta e por outras razões idênticas que muitas vezes o povo do Nordeste se sente ostracizado e com razão. Trata-se apenas duma obra marítima. Esta situação é igualmente aplicável à Praia do Lombo Gordo. Enquanto há ilhas que não tem uma única praia, dá a ideia que em São Miguel existem tantas que não se pode chegar a todas e estamos a perder uma baía com praia que é uma riqueza ambiental espectacular. Tudo isto se compreenderá se tivermos em linha de conta que apenas há muito pouco tempo o Nordeste começou a ser visto como um local com qualidade de vida, o qual merece ser visitado e precisa sobretudo de tratamento igual a todos os concelhos açorianos.

                                                    

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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