17 de novembro de 2019

O fundador do Correio dos Açores e as ligações aéreas para as ilhas (1919-1937)


Proclamada a República em Portugal em 1910, seguiram-se governos provisórios e, em 1911, foi aprovada a primeira Constituição republicana. Verificaram-se várias tentativas para formar governos estáveis, o que só era possível em coligações, atenta a dispersão partidária. Entre as primeiras reformas republicanas, destacam-se a introdução das leis da família e do divórcio, da separação da Igreja e do Estado, a criação das universidades de Lisboa e do Porto e a publicação da Lei de Imprensa de 28 de outubro de 1910, que seria caucionada pelo texto da Constituição de 1911.
O esforço para haver entendimento entre as diversas forças republicanas conduziu a uns três primeiros anos de elevada instabilidade política, situação que se encontrava normalizada no começo da Primeira Guerra Mundial.
Aos anos da Grande Guerra corresponde uma segunda fase da República. Correspondendo ao pedido de Inglaterra, que invocava a Aliança Luso-Britânica, o Governo Português mandou requisitar os naviosalemães surtos nos portos nacionais, o que provocou a declaração de guerra a Portugal por parte da Alemanha a 9 de março de 1916. A requisição da frota alemã, além de municiar a Grã-Bretanha, permitiu reorganizar os transportes marítimos do Estado Português, assegurando o nosso reabastecimento.
A entrada de Portugal na guerra ao lado dos aliados concretizou-se, assim, em 9 de março de 2016. Além do objetivo de proteger o seu império colonial, o país pretendia consolidar, no plano internacional, o regime republicano, defendendo-se particularmente da circunstância de fazer fronteira com uma monarquia – a da vizinha Espanha. Ou seja, conforme expresso por Nuno Severiano Teixeira, além de procurar reconquistar o lugar perdido no concerto das nações europeias, Portugal visava, no âmbito da Península Ibérica, afastar o “perigo espanhol”.
Com a implantação da República, continuaram a centrar-se no Estado as formas e os meios de organizar e estabelecer influência política. Com o fim da Grande Guerra, a situação financeira tinha-se agravado, a moeda desvalorizou-se, a inflação disparou e a instabilidade política dificultava a eficácia das soluções. A instabilidade governativa caracteriza-se então pela influência das clivagens socioeconómicas. Enquanto aguardava as indemnizações de guerra a que tinha direito por fazer parte dos vencedores, o país teve enormes dificuldades de tesouraria, o que provocou o empobrecimento das remunerações. Com efeito, o histórico de elementos de diagnóstico e de ponderação de estimativas, permite-nos hoje afirmar que a maior divergência entre os rendimentos em Portugal e os nos outros países europeus nos dois últimos séculos foi a verificada nas primeiras décadas do século XX.
Nos Açores a implantação da República não foi muito diferente. Conforme constatou José Guilherme Reis Leite, não se verificaram esforços para incluir na Constituição da República votada em 1911, qualquer visão nova para as ilhas, favorável ou não.
Contudo, sobre os Açores e o regime republicano, é de salientar, como sublinhado por José Medeiros Ferreirano que diz respeitoao contexto da implantação da República, que os primeiros dois Chefes de Estado do novo regime foram dois naturais dos Açores, Manuel de Arriaga e Teófilo Braga. O primeiro, aliás, chegou a proclamar na sessão da Assembleia Constituinte de 18 de julho de 1911, que, se quiséssemos, poderíamos deixar de lado as potências hostis da Europa se proporcionássemos um porto carvoeiro aos americanos, que nos defenderiam nos mares dos Açores.
Em Ponta Delgada, Francisco Luís Tavares , então Governador Civil do Distrito, comemora, entusiástico, o dia em que a Assembleia Constituinte reúne pela primeira vez, em 19 de junho de 1911: - o seu discurso apaixonado é reproduzido no seu jornal, A República, na 1.ª página da edição de dois dias depois, 21 de junho, com o título “A cidade de Ponta Delgada comemora brilhantemente a abertura da Assembleia Constituinte”. Com a aprovação da Constituição da República em 20 de agosto desse ano, o jornal de Francisco Luís Tavares volta a regozijar-se, salientando a importância do acontecimento em título de primeira página na edição do dia 24 seguinte: “Está proclamada a Constituição”. 
Apesar de a queda da monarquia ter provocado algum isolamento internacional, perante a lentidão do reconhecimento do novo regime pelas grandes monarquias europeias, desde logo a britânica e a da vizinha Espanha, o país manteve a orientação diplomática com as opções pela aliança inglesa e a prossecução do projeto colonial. O reconhecimento da República Portuguesa pelos Estados Unidos ocorreu antes de igual gesto pela Grã-Bretanha. Quando a nossa Assembleia Constituinte, reunindo pela primeira vez em 19 de Junho de 1911, aboliu formalmente a monarquia, declarando a República como a forma de Governo em Portugal, foi nesse mesmo dia que, pela mão do seu encarregado de negócios em Lisboa, o governo americano fez chegar ao ministro dos negócios estrangeiros português o seu reconhecimento formal da República Portuguesa.
A França só adotaria idêntica postura em agosto e a Alemanha, a Espanha e a Grã-Bretanha, em setembro desse ano.
Tal gesto por parte dos Estados Unidos é muito significativo, até por se traduzir num desvio à prática habitual baseada na doutrina Monroe, e torna evidente uma aproximação bilateral que iria prosseguir durante a Grande Guerra, designadamente com a abertura da Base Naval de Ponta Delgada em 1918.
Contudo, embora seja significativa essa antecipação, sobre o regime republicano em Portugal, da diplomacia americana relativamente à inglesa e à francesa, é de salientar uma das fragilidades da política externa da nossa República que não teve uma verdadeira estratégia para construir uma relação especial com os Estados Unidos, mesmo nas oportunidades proporcionadas por esse processo de reconhecimento do nosso novo regime em 1911 e pelo acesso dado à armada americana para se instalar em Ponta Delgada como uma base naval.
Os Açores continuaram a ser alvo do interesse de Londres, que renovou o pedido para que fosse assegurado a Inglaterra o exclusivo de facilidades no Arquipélago. Este interesse pelas Ilhas dos Açores é especialmente evidenciado com o conflito da Grande Guerra, durante a qual se constrói o entendimento dos ingleses com os americanos para que Lisboa aceitasse a instalação de uma base naval em Ponta Delgada. A concretização dessa passagem de testemunho de Londres para Washington dá-se, como explica Medeiros Ferreira, com a chegada aos Açores dos destroyers americanos, na sequência do ataque de um submarino alemão ao porto de Ponta Delgada em julho de 1917, evidenciando que a armada americana passaria a patrulhar o Atlântico Norte e que o conceito de relações diplomáticas entre a Inglaterra e os Estados Unidos em tempo de guerra se tinha alterado profundamente.
 

José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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