17 de novembro de 2019

Entre o passado e o futuro

E depois do Muro da Vergonha

Foi com aquele nome que pela primeira vez ouvi falar dele. A vergonha recaía sobre a União Soviética que tinha ordenado a sua construção. E, de algum modo, também sobre a Alemanha que desencadeara uma guerra mundial para constituir um império e definir uma raça privilegiada. Guerra que perdeu depois de ter provocado a destruição de muitas vidas humanas, muito património da humanidade e muita esperança.
O muro erigido dividia mais do que a grandiosa muralha da China alguma vez alcançara. Embora construído na cidade de Berlim, retalhava a Europa em duas, a ocidental e a oriental; o sistema económico mundial em dois, o capitalismo e o comunismo; o sistema político em dois, o liberalismo e o marxismo. Era um muro de dimensão universal pois constituía uma barreira entre pessoas, cidades, estados, entre ideologias político-sociais, entre liberdade e subjugação. Com ele nascera um outro tipo de guerra, a “guerra fria” da qual a União Soviética sairia derrotada. Foi já sem a vontade ou participação dos “homens da II guerra mundial”, mas ainda pela mão humana, literalmente armada de escopo e martelo, que foi deitado abaixo.
Aconteceu precisamente há 30 anos em Berlim, nome de cidade pelo qual também era apelidado o mesmo muro. Caiu aos bocados a partir do dia 9 de novembro de 1989. Curiosamente, a sua queda precipitou-se com o que hoje se denominaria uma “notícia falsa”: foi anunciado naquele dia que uma das suas portas, de todas a mais conhecida, seria aberta para permitir o livre trânsito de pessoas entre o oriente e o ocidente europeu. A notícia não era verdadeira, mas foi por ela e pelo famoso “checkpoint” – Charlie - que começou a imparável aglomeração das pessoas e a destruição ordenada daquele que foi um dos maiores bloqueios terrestre de sempre.
Num recente artigo, alusivo à data, publicado pela revista Time, Mikhail Gorbachev, ao tempo presidente da União Soviética e que em outubro daquele mesmo ano tinha visitado a República Democrática Alemã (RDA), escreveu, que quando interrogado sobre quem, em sua opinião, seria o herói daquele “tempo de drama e turbulência”, respondera: o povo.
As causas dos acontecimentos nunca são únicas. 
Então, a República Democrática Alemã atravessava uma enorme crise económica, o descontentamento e os protestos populares de rua generalizavam-se. A União Soviética, isolada e desprestigiada internacionalmente, a braços com tremendas dificuldades económicas, abandonara-a à sua sorte a “presa” RDA. A Hungria e a Checoslováquia preparavam já o futuro abrindo as suas fronteiras por onde deixavam passar para o ocidente um fluxo significativo de alemães da RDA. A União Soviética prosseguia a sua reestruturação - Perestroika – e a sua abertura política – Glasnost - que conduziriam à sua refundação mitigada: a substituição da União Soviética pela atual Federação Russa.
Foi neste ambiente geral que a queda do muro de Berlim aconteceu rápida e integralmente. Mais complexa e internacionalmente acompanhada foi a integração da RDA na Alemanha da qual tinha sido separada. Alguns Estados europeus receavam uma Alemanha grande outra vez. Recordo uma expressão célebre de Mitterrand: gosto tanto da Alemanha que prefiro duas. 
As circunstâncias e a vontade humana tinham convergido: destruído o monstro ideológico petrificado desapareceriam muitas das suas sequelas políticas e económicas. O Mundo poderia respirar e agir livremente e sem receios catastróficos outra vez. Tudo quanto se escondia, para além da “cortina de ferro”: um império a agonizar; uma doutrina político-social sem aderência à realidade, uma economia em decomposição, uma união de Estados sem qualquer consistência, um poder militar vazio caíam como as pedras do muro. O temor, existente para aquém do muro, de uma terceira guerra mundial desvaneceu-se. Acabara a guerra fria e a quente não era desejada. O Mundo voltava a ser o Mundo inteiro. Tratados de não proliferação de armamento nuclear foram validamente desejados e firmados; desarmamento aduaneiro posto em prática; generalizada a preferência pelo primado da concorrência económica; o liberalismo democrático ganhou espaço, prestígio e resultados; a cooperação no seio das instituições internacionais tornou-se mais transparente e eficaz; nascia a globalização e com ela o crescimento do PIB mundial. Até que, alguns Estados europeus e os Estados Unidos invadiram o Iraque à procura dum estaleiro atómico que não existia; a Rússia ocupou a Crimeia e instabilizou Ucrânia; Trump foi eleito e o nacional-populismo medra.
 

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Categorias: Opinião

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