A nossa gente (224) – Helena Cymbron

Como foi o seu crescimento?
Nasci em Lisboa, porque a minha mãe era lisboeta e era muito agarrada à sua mãe e todos os seis filhos nasceram em Lisboa. Vim para São Miguel com sete anos e estive no colégio A Colmeia até aos 11 anos. Ainda fiz o chamado primeiro ano dos Liceus no Colégio de São Francisco Xavier. Do colégio A Colmeia, não só eu mas todos os alunos da nossa saudosa tia Margarida Cymbron, guardo a melhor das recordações. Foi um Colégio muito para além da instrução. Tínhamos a Dona Cremilde Macedo que nos dava piano e música, o professor Jorge Amaral que nos dava educação física, e a tia que nos dava Francês e Sagrada Escritura. Tudo o que aprendi do Antigo Testamento não foram, nem as madres dos Colégios onde mais tarde viria a ser aluna, nem na catequese. Foi com a minha tia que fazia o audiovisual possível da altura, com livros enormes que abria à nossa frente. 
O primeiro ano fi-lo no Colégio Se São Francisco Xavier e depois regresso ao continente. Lá estive até ao 6º ano onde frequentei o Colégio do Sagrado Coração de Maria e voltou a São Miguel para fazer o 6º e 7º anos. E a Universidade, que não havia aqui na época, fiz em Lisboa no Instituto de Ciências Sociais e Políticas do qual não posso deixar de referir o professor Adriano Moreira.

Porquê andar entre Lisboa e São Miguel?
As viagens eram feitas de vapor, levávamos 5 dias e 4 noites porque o barco parava um dia inteiro no Funchal para entrada e saída de passageiros e mercadorias. Vínhamos porque um dos ramos da actividade comercial do meu pai era exportar os derivados das baleias e cachalotes. A fábrica era na Madeira, no Caniçal, e a exportação era toda para Espanha, França, Itália e Suíça, mas passava tudo por Lisboa. 
Queria referir um facto curioso, que nem toda a gente sabe, é que na II Grande Guerra chegou a haver um anúncio que dizia “coma carne de baleia, ao almoço, ao jantar e à ceia”. Outra coisa curiosa é que o meu pai concorreu para iluminar a cidade de Lisboa com óleo de baleia e conseguiu. Porque o curso de economia da altura, tinha a cadeira de química, e ele esteve dias e noites a filtrar com o seu braço direito, um polícia reformado, o Senhor Garrido, até encontrar a maior pureza possível daquele óleo, e ganhou o concurso. 
Devido à vida profissional do meu pai e à maneira de ser da minha mãe, andávamos muito entre os Açores e Lisboa. É bom e mau. As mudanças quando se é criança e adolescente e se perdem as amizades, desestabilizam um pouco. Por outro lado essas mudanças fazem parte do enfrentar a vida.  
Contactar com outras realidades. Acho que foi muito importante até para a nossa Autonomia dada a quantidade de gente que veio para cá viver. O próprio 25 de Abril trouxe muitos açorianos que vieram, com receio da Guerra Civil. 
A Autonomia, o aparecimento das Secretarias, a nossa Universidade, e aqui queria fazer uma referência a José Enes, que foi uma pessoa que nos marcou, a mim e à minha família em geral. Eu acompanhei muito de perto a instalação da nossa Universidade porque na altura trabalhava no Centro Regional dos Açores de Tecnologia Educativa e, além de fazer vídeos de motivação para as aulas, acompanhava toda a mudança que se estava a operar na nossa sociedade com a futura Universidade. Uma das perguntas que uma vez me fizeram foi como era possível instalar uma universidade no prazo de um ano, quando o normal eram dois. O professor José Enes dizia-me que ou trabalhava loucamente e conseguia fazê-lo ou perdia os grandes professores de Moçambique e de Angola que teriam ido para o Brasil. Foi uma pessoa que nunca mais poderei esquecer porque ter uma Universidade aqui foi uma mais-valia extraordinária. 
Um dos grandes desejos do professor José Enes era que os cursos fossem evoluindo e quando o mercado estivesse saturado surgissem novos cursos. Gostaria de dizer que há um curso que gostaria que viesse para cá, que é de Agente Imobiliário, e eu tenho a estrutura desse curso que trouxe de Bruxelas. Por outro lado, e dando o exemplo do meu filho que tirou Direito na Católica e está a tirar um Mestrado na Nova em Direito e Gestão do Mar, e dada a Zona Económica Exclusiva que temos, justifica-se absolutamente este curso porque temos corpo docente na nossa Universidade e se não tivermos que venham outros de fora. 
Por vezes na empresa do meu pai, A.C.Cymbron, há um problema ou outro com barcos que tem de se ir a Lisboa porque cá não há pessoas especializadas neste ramo. Mas sobretudo, pelo que aí vem e dada a riqueza imensa que o mar dos Açores tem, é preciso aproveitar e não deixar os outros virem explorar o que é nosso. 

Quando termina o curso, volta aos Açores?
Estive algum tempo em Lisboa e, ainda estava a terminar o curso e tinha tido um grande acidente, achei que devia começar a trabalhar. Era secretária do filho de Marcelo Caetano, que era arquitecto João Caetano. Gostava de lembrar uma coisa, porque já se passaram 45 do 25 de Abril e recordo-me que sob a secretária do arquitecto João Caetano estava o projecto para o novo aeroporto. Mas os terrenos pertenciam à família Mello e após o 25 de Abril, Mello era sinónimo de capitalismo. A verdade é que hoje em dia não temos ainda um novo aeroporto. 

Falou num grande acidente…
Foi antes, quando tinha 20 anos, e íamos para o Casino das Furnas. As estradas eram extremamente estreitas, num só sentido, e estávamos em Agosto. Com o calor e humidade nos Açores, havia muitas ervas, a juntar a alguma velocidade própria de gente nova, um dos primos que ia a conduzir entra numa curva a derrapar e aparece outra curva pela frente mas fomos de encontro a uma árvore. Fui projectada e levei 180 pontos na cara. Fiquei com tanto medo que só aos 40 tirei a carta mas não consigo conduzir. É uma sensação pavorosa, aqueles segundos antes em que não sabemos como vai acabar. 
Mas nesse aspecto os Açores tiveram uma melhoria imensa. As estradas tinham um sentido, eram muito bonitas, as copas das árvores chegavam a unir e a fazer túneis. Era um autêntico paraíso que espero que não venham a estragar porque o nosso turismo tem de se saber comportar. Dão cabo da paisagem por muito bela que ela seja. 
Vou com frequência a Bruxelas porque tenho lá uma filha e os netos. Na Grand Place até tenho visto turistas a comer no chão, já nem é nos degraus. 
Os Açores são únicos. Há mais bonito no mundo, mas não num lugar tão pequeno como a ilha de São Miguel. A intensidade e variedade de beleza que temos, tal como as outras ilhas, como as Flores que fazem lembrar São Miguel quando eu era jovem. Só nas Furnas a variedade de cheiros e cores que ali existe. É algo que não pode ser estragado.

Corremos esse risco?
Acho que sim. No Domingo passado fomos à Vista do Rei mas fugimos para a Baía do Silêncio porque de repente chegou uma camioneta com imensa gente. Felizmente a Baía do Silêncio é um encanto, é fora de série.
Foi muito bom a abertura do espaço aéreo, foi muito bom as companhias low cost, que também usufruo delas. E já há voos directos de Ponta Delgada para Bruxelas, sem passar para Lisboa e torna-se muito cómodo. Mas é preciso que as pessoas saibam comportar-se, senão acabam por estragar a paisagem.

Antigamente fazer turismo era ir às Furnas…
Os meus filhos falam de sítios que eu penso que estão a falar de outro sítio que não São Miguel. Conhecem imensos trilhos, e na altura ninguém falava disso e nós, uma vez por ano, subíamos a um pico à volta da Lagoa das Furnas. Mas ninguém falava nisso, nem havia esta diversidade de turismo que há actualmente. 
Naquela altura íamos à Vista do Rei, almoçávamos o cozido ou íamos ao Parque Terra Nostra. Não havia metade do que há hoje, nem sequer o barco inter-ilhas que devia ser mais frequente. 
Mas gostava de lembrar o que se está a passar, não só aqui, mas também em Portugal continental que é algo que são noções básicas de economia. Uma coisa é crescimento e outra coisa é desenvolvimento. Apresentar resultados fantásticos em Bruxelas, cumprir critérios de convergência, apresentar o desenvolvimento do PIB e porque não se aplica isso depois de forma a que os indicadores sociais melhorem. Mas ultimamente temos visto é enfermeiros a manifestarem-se, auxiliares de educação. 
Por exemplo, não sei se onde vem o modelo que não pode haver retenções. Eu comecei na Escola Domingos Rebelo na velha Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada e em 1975 foi introduzido o modelo do ensino unificado que era uma cópia do modelo soviético. E na altura fiquei perplexa, porque havia a ideia que o menino rico ia para o Liceu e os outros iam para a Escola Industrial. No entanto, o aluno que saísse da Escola Industrial arranjava sempre emprego. O que era importante porque contribuir para ajudar a família, que geralmente era extensa. Aqueles que tinham alguma capacidade intelectual não ficavam com as “pernas cortadas” porque havia o Instituto Industrial e Comercial em Lisboa e muitos deles seguiam depois para o Instituto Superior de Economia ou Instituto Superior Técnico. Houve uma altura antes de arrancarem as escolas profissionais que se pensava que quando quem saiu da Escola Industrial se começasse a reformar, não saberíamos onde ir buscar um electricista, canalizador ou empregado de escritório. 

A sua vida profissional foi sempre como professora?
Sim, depois de ter sido muito pouco tempo secretária que não gosto nada de papéis. Adorei dar aulas e tive três ou quatro turmas ao longo de 33 anos que nunca mais esquecerei. Tive experiências muito giras e tive pena de não terem copiado a minha ideia.
Enquanto directora de turma, recebia os pais dos meus meninos à porta da sala para entregar as notas, encaminhava-os para a sala que anteriormente já tinha disposto em U, e ficava em frente deles todos e conheciam-se entre si. Porque eu enquanto mãe, gostaria muito de ter sabido quem eram os pais dos colegas dos meus filhos. Os primeiros minutos era para se apresentarem, iniciava a reunião, e no final ficava para falar com quem quisesse saber mais. Era uma forma mais simpática. 
Outra coisa que fiz foi por os bons alunos a apoiar os mais fracos. Tinha uma turma de Ponta Garça que no 1º período só teve 5 positivas. Como não havia dinheiro para explicações, propus que cada um dos 5 alunos melhores fizesse de explicador de 4 colegas. Sempre que esperassem pela camioneta davam essas explicações nas salas disponibilizadas. No fim do ano só um reprovou. 
Criou-se uma solidariedade, um gosto e uma grande motivação porque aqueles miúdos queriam passar além da enxada e do anzol. Alguns foram pescadores ou agricultores mas alguns tiraram gestão. Podem-se fazer omeletas sem ovos mas tem de se ser criativo e conseguir entusiasmar.
Dei muito tempo aulas no ciclo porque só mais tarde apareceram as cadeiras do meu curso, a economia, direito, sociologia e a introdução à política. Aproveito aqui para dizer que não entendo como a cadeira de introdução à política desapareceu tão pouco tempo depois do 25 de Abril. Não entendo como temos o dever de ir votar e muitas pessoas não sabem quem vão eleger. Pedia encarecidamente que voltasse essa cadeira, apesar de me terem dito que não havia corpo docente. Mas qualquer pessoa licenciada em História ou Filosofia pode dar essa matéria que acho que é essencial. Se queremos participar e contribuir para uma comunidade melhor, deve ser assim. 
Pertenci à Junta de Freguesia da Fajã de Baixo, como independente, por dois mandatos consecutivos e foi uma experiência que adorei. Incentivava sempre os meus alunos a participar activamente. Esse entusiasmo que tinha já não tenho e não quero perder a esperança, mas acho que não vai ser fácil incentivar estas novas gerações.

Como se pode dar a volta a isso?
Acho que devia ser obrigatório a cadeira de Introdução à Política no ensino secundário. Depois, é um apelo a todos os políticos que façam mais e melhor porque a política está desacreditada. Felizmente que tivemos a notícia que José Manuel Bolieiro vai-se candidatar a Presidente do PSD/Açores, que apoio a 100%. Precisamos de gente nova e de gente a colaborar porque esta Região é descontínua. Não é fácil governar e por isso mesmo precisamos de gente que tenha formação e que goste. Eu só fui votar ultimamente por uma questão cívica e ainda não votei em branco, mas qualquer dia votarei em branco. 
Para catalisar um grupo e jovens é preciso acreditar. E eu antes acreditava. Achava o projecto da União Europeia uma coisa bela porque é o alargar fronteiras sem o derramamento de sangue. É um projecto magnífico que foi para a frente e que se aprofundou mas não se sabe por quanto tempo se manterá. Todo o drama dos refugiados está a minar e a desunir os próprios Estados-Membros. E é complicado. 
Gostaria de deixar a nota que o Prémio Nobel da Economia deste ano sobre a erradicação da pobreza que foi um tema que sempre me tocou muito. Recordo-me de ser adolescente e escrever num livro que quando fosse grande queria ser pianista e com o dinheiro dos concertos ajudar os pobres, e tirar teologia para mostrar que Deus realmente existe.
Sempre tive como ideal contribuir para que houvesse menos pobres e penso que a moral está a fazer muita falta e acho que o crescimento que houve em São Miguel não se traduz num total desenvolvimento porque as raízes que tínhamos, cristãs e de valores da família, estão a desaparecer. Há muito egoísmo. 

Está reformada há 10 anos, como passa os seus dias actualmente?
Reformei-me cedo, aos 62 anos, para ir ajudar a minha filha que tinha acabado de ter dois gémeos. Os 3 primeiros anos de vida deles fui uma avó quase a tempo inteiro. Eles foram depois para a Bélgica, onde se encontram, e eu vou lá 3 vezes por ano. 
Por essa altura divorciei-me e passei a zelar pelo património construído e herdado. Este talvez ainda com mais empenho porque considero que sou apenas uma fiel depositária. Tenho obrigação moral de o transmitir aos meus três filhos.     
Continuo a cultivar-me, a viajar e gostaria de tentar deixar um lar para deficientes pois durante o referendo sobre o aborto (eu defendia o “não”) a grande preocupação era e é sempre quem cuidará do filho deficiente após a morte dos pais. Se o conseguir defenderei cada vez com mais força o “não” ao aborto. 
Estou sempre ocupada, em palestras, em viagens, para aproveitar enquanto as pernas ainda andam. 
Se não andasse tanto cá e lá, gostaria de voltar a dar catequese como dei durante 10 anos. 
Neste momento, o que puder fazer pelo PSD vou fazer. Até agora nunca estive inscrita no partido, porque era mais monárquica do que republicana e hoje em dia temos de ser mais pragmáticos. Via com muito bons olhos a Monarquia porque os países dos mais avançados da Europa, têm monarquias à frente. Mas em Portugal temos de ser pragmáticos. Só por isso nunca me tinha inscrito num partido mas hoje em dia vou-me inscrever no PSD e vou estar à disposição.

Quantos filhos tem?
Tive 3 filhos, casei aos 29 anos e lembro-me de dizer que gostaria de ter 4 porque vinha de uma família muito grande. A mais velha, tem 42 anos, é economista em Bruxelas. O do meio tirou o curso de skipper na Grã Bretanha e tem uma empresa com 4 iates que faz viagens nos Açores durante seis meses, os restantes seis meses, como o nosso mar é muito bravo, vai trabalhar por conta de outrem. Agora está num catamarã a caminho da Antárctida para uma expedição científica. 
O mais novo tirou Direito e é jurista no PSD e neste momento está a fazer o Mestrado em Direito e Gestão do Mar. Tinha já 40 anos quando ele nasceu e na altura a médica ralhou imenso que já não era idade para ter filhos e a médica disse-me para fazer a amniocentese. Estava já no Instituto Ricardo Jorge para fazer a análise e lembro-me que li um artigo que havia risco de aborto. Como sou católica praticante não fiz o exame, tive fé e nasceu um filho lindíssimo. 
Na véspera do nascimento, a última ecografia dava um bebé com uma cabeça enorme, e foi assinada por um professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa. Acho que a ciência ainda se engana. Durante a campanha do referendo do aborto, muitas mães me diziam que se tivessem uma criança deficiente, quando morressem o que seriam dessas crianças. Uma pessoa fica quase sem palavras.
Mas há um projecto que tenho que é ver se conseguimos deixar o tal lar para pessoas com deficiência cujos pais já partiram. Penso que do ponto de vista material, terreno e casa, será fácil, mas aflige-me depois pensar no capital humano. Mas é um desejo meu.
                       

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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