17 de novembro de 2019

Manifestação de 17 de Novembro de 1975 - sangue vivo a selar a autonomia

O artigo que o “C0RREIO” deu à estampa na passada terça-feira, subscrito pelo Amigo e dedicado colaborador deste Jornal, Carlos Resende Cabral, veio trazer-me à memória acontecimentos que marcaram uma época história que, quem a viveu, dificilmente a poderá esquecer.
No caso em concreto, refiro-me à manifestação de 17 de Novembro de 1975, ocorrida em frente ao Palácio da Conceição, na cidade de Ponta Delgada – e também no seu interior – episódio por poucos conhecido mas que marcou, para todo o sempre, aqueles que o viveram e influiu, certamente, na opção pelos novos caminhos que os açorianos iriam passar a trilhar.
Como correspondente em S. Miguel, do Rádio Clube de Angra, procurei transmitir, aos Açores e aos Açorianos, até onde as ondas hertzianas permitiram propagar o sinal da estação, um permanente e vivo testemunho da actividade sócio-política emergente do 25 de Abril de 1974.
Começava o dia com as notícias, logo no noticiário das 8 da manhã, seguida da revista de imprensa reportando o que noticiavam os matutinos micaelenses.
 Para além disso, entrava na antena sempre que a actualidade e a importância das novidades o justificavam. 
Não tardei a alargar a colaboração à imprensa local, regional, nacional até da diáspora.

O jornalismo era assim...
Não havia comício, não havia sessão de esclarecimento político, não havia fórum de interesse noticioso onde eu não procurasse presente com o meu gravador e com o meu bloco de notas. Porque ia a todas, independentemente das cores ou natureza dos respectivos promotores, tive direito à atribuição de rótulos para todos os gostos: para os independentistas ou autonomistas eu era um centralista infiltrado; para a esquerda e extrema esquerda, era de direita ou extrema direita; e, para os da direita ou da extrema direita, a rotulação que me cabia era da esquerdista ou extrema esquerda.
Consoante as suas cores, para uns era fascista, reacionário e fascista, para outros um português a expatriar e, para outros, um excomungado comunista.
Foi com estes diferentes protagonistas e estados de alma que me habituei a conviver, procurando centrar-me sempre no papel de jornalista íntegro e fiel à verdade ou no de comentarista fiel aos princípios ditados por uma análise crítica responsável por que sempre procurei pautar a minha conduta.

A manifestação de 6 de Junho
Aquando do 6 de Junho, poderei afirmar ter sido o único jornalista que acompanhei a manifestação ao longo do seu percurso até ao Palácio da Conceição, tendo-se-me depois juntado o Leonardo, da SPAL/Asas do Atlântico e, já no Palácio, o João Coelho, do Emissor Regional dos Açores.
Já dentro do Palácio, da varanda voltada para o Largo do Liceu, vivi, presenciei e relatei para o Rádio Clube de Angra os episódios mais marcantes. Tendo-me sido dada via aberta, fiz, dali, cinco circunstanciadas intervenções para a “VOZ DA TERCEIRA”, a partir de uns pequenos arrumos existentes num zona esconsa, por baixo da escadaria principal do Palácio, porque, retirado do barulho, era ali que dispunha de uma tomada eléctrica para ligar os equipamentos e onde havia recato suficiente para fazer o meu trabalho.
Devo dizer que as três primeiras intervenções foram para o ar sem problemas, com voz em directo e entradas gravadas de depoimentos recolhidos, mas as duas últimas foram interditadas pela censura directa do Governado Civil de Angra, dr. Oldemiro Figueiredo, mediante ordens expressas à Direcção da estação, por considerar que estavam a ser subversivas para o regime e inflamatórias para a opinião pública.

A demissão do Governador Civil
Por vias disso, os ouvintes do Rádio Clube de Angra não puderam ouvir a famosa e lapidar intervenção, de cinco palavras, do Governador Borges Coutinho, proferida para a multidão a partir da varanda do Palácio, anunciando o fim do seu mandato: “Acabo de apresentar (pedir) a minha demissão”!
Meses depois, no dia 17 de Novembro, em frente ao Palácio, vi engrossar a multidão que se concentrava, animada do propósito de hastear no mastro principal do Palácio a bandeira da Frente de Libertação dos Açores. 
Gorada a primeira tentativa e vedado o acesso ao Palácio pela entrada principal, a multidão forçou o acesso pela porta lateral do rés do chão, localizada frente aos armazéns da STAL e virada para o Jardim da Zenite, no local onde funcionaram os serviços de imprensa da Junta Regional dos Açores e, depois, do próprio Governo Regional,  os deste primeiro tutelados por pelo Subsecretário Regional João Vasco Paiva e, mais tarde, sucessivamente, pelos Directores Regionais da Comunicação Social António Lourenço de Melo e José Machado, local onde, mais tarde, os jornalistas viriam a acompanhar a evolução do escrutínio das primeiras eleições livres nos Açores e a proclamação dos respectivos resultados.

Agitação no 17 de Novembro
O espaço era pequeno para tanta gente, de pouco valendo as forças da ordem. Com o “aquecimento” da situação, aparece então a Força de Intervenção do Exército que tentou, às boas, a evacuação do edifício, o que se revelou ser missão impossível.
 Registaram-se aguerridas cenas de confrontos físicos. Testemunhei o evoluir da situação a partir de um plano mais elevado, o patamar onde se localizava a porta interior, de duas folhas envidraçadas, de acesso ao andar principal do Palácio.
Tendo sido infrutífera a tentativa de Carlos Resendes Cabral de ver hasteada a bandeira no mastro principal da varanda, o confronto entre manifestantes e militares deu para o torto, tendo o Alferes que comandava a força tomado lugar junto à porta onde eu me encontrava, ameaçando lançar sobre a multidão uma granada, que mostrava de punho erguido. 

Missão cumprida
Num salto felino, um espadaúdo manifestante, lançou-se para a frente do oficial e, dando-lhe uma forte punhada na mão, fez-lhe largar a granada que, voando, embate na porta e rola pelo pavimento entre os manifestantes que, por segundos, paralisaram de pânico.
Por sorte, o oficial não havia retirado a cavilha da granada e, assim, ela permaneceu inerte no chão, o que originou um suspiro de alívio da parte de todos os que ali se encontravam.
Este episódio desviou as atenções dos manifestantes, dando-se a evacuação, já que a bandeira da FLA acabaria por ser içada por um voluntarioso jovem, um qualquer Simão Sirineu da causa libertária: Missão cumprida!
Para mal dos meus pecados, ao embater na porta onde me resguardava, a granada partiu os vidros, que voaram em todas as direcções tendo-me alguns deles atingido com força nas faces, deixando-me a sangrar em gotas e escorrimentos, qual Cristo após a flagelação!

Pérolas pela Autonomia
Mas valeu a pena: foram pérolas de sangue vivo que, assim vertidas, selarão para sempre este passo para a Autonomia conquistada, a muito custo conseguida. Como pérolas foram sobretudo os esforços empenhados de  tantos cabouqueiros do regime político-administrativo de que hoje disfrutamos – quantas vezes pagando  preços inaceitáveis!
E foi graças a memoráveis episódios como este, o do dia 17 de Novembro de 1975 – infelizmente desconhecidos da generalidade dos putos de então e de muitos que ainda não eram nascidos - que os jovens daqueles tempos mas sem a memória do que eles foram para quem os viveu, hoje, sem o conhecimento nem as vivências das dores do parto daquelas conquistas, dão cartas na política e na administração da rés-publica dos Açores.
 Temos, de facto, um regime autonómico em que muitos dos principais protagonistas terão alguma dificuldade em sentir as motivações e as sensibilidades suficientes para saber o terreno que verdadeiramente pisam, de onde vieram, onde estão e para onde nos pretendem conduzir.
Felizmente houve a FLA. Felizmente o espírito da FLA continua vivo e palpitante nos corações e na vontade de muitos açorianos, vigilantes, em alerta permanente. Mesmo que, por vezes, pareça adormecido… mas, na verdade, sempre pronto e disponível para elevar os Açores e os Açorianos acima de tudo e de todos – menos acima de Deus!
 

José Nunes

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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