Assinalou-se ontem o Dia Europeu do Antibiótico

“O médico deve estar disponível para fazer com que o doente veja que há situações em que um antibiótico fará mais mal do que bem”, diz Cláudia Rodrigues

(Correio dos Açores) Tendo em conta a sua especialização na área da medicina interna, como vê o consumo e a prescrição de antibióticos na Região?
(Cláudia Rodrigues) - Acho que há um consumo abusivo de antibióticos muitas das vezes, começando na Medicina Geral e Familiar a que os doentes recorrem. 
Por vezes, mesmo em situações de suspeita de infecção, não há facilidade para que os doentes façam exames no próprio dia e o médico ao sentir essa dificuldade acaba por passar antibióticos mesmo em situações que acabariam por melhorar sem a toma de um antibiótico, ou seja, em situações virais.
No entanto esta é uma situação que é sentida também no Serviço de Urgência porque muitas vezes o doente já vai com a ideia de que é o antibiótico que o vai tratar e o médico, às vezes, para não perder tempo a educar o doente – que é o que deveria acontecer – prescreve o antibiótico.

O que deveria acontecer para melhorar esta situação?
Nestes casos, o médico deveria educar e explicar ao doente que o antibiótico não trata causas virais e que a maior parte dos síndromes gripais que surgem nesta altura do ano como a tosse, o nariz a pingar ou uma febre melhoram na mesma quer o doente faça ou não antibiótico. É preciso é dar tempo ao tempo.
(…) O médico não deve ceder à pressão, deve explicar que o médico é ele e que está a avaliar a situação de forma consciente e educando o doente, só que muitas vezes essa educação consome mais energia e tempo do que simplesmente passar uma receita de antibiótico.
Educar o doente não é algo que se faz em cinco minutos, até porque na maior parte das vezes há outros doentes à espera, mas o médico deve estar disponível e sensibilizado para fazer com que o doente veja que há situações em que o antibiótico não é necessário (…), que há situações em que um antibiótico fará mais mal do que bem e que numa situação em que seja mesmo necessário o doente já está resistente aos antibióticos e este é um dos grandes problemas que se verifica hoje em dia.

Que cuidados deve ter o médico para não prescrever antibióticos sem que haja essa necessidade?
O médico deve confiar nas orientações que existem e não ceder à pressão dos doentes, embora seja difícil. O doente chega ao consultório e diz “já tive isto o ano passado e só melhorou com antibiótico” e, às vezes, o doente pode até ameaça com “e se eu não melhorar e tiver que cá voltar porque você não me deu o antibiótico?”.
 Nestas situações o doente generaliza e o médico acaba por ceder à pressão, prescreve o antibiótico e o doente vai embora.

Quando deve ser receitado um antibiótico e que consequências podem existir a partir daí?
Pensemos no caso de uma gastroenterite com dores de barriga, vómitos e diarreia. 90% das gastroenterites são virais e isso significa que passam por si mas que necessitam de três ou cinco dias, ou seja, o doente melhoraria na mesma com ou sem antibiótico e é preciso explicar isso, (…) mas as pessoas pensam que ao tomarem um antibiótico isso tornará a sua recuperação mais rápida. 
Neste caso ocorre aquilo a que chamamos medicina defensiva. Nós recebemos o doente, muitas vezes não fazemos exames, ficamo-nos pelas queixas e pelo que se observa e optamos por uma determinada terapêutica. Nesses casos pensamos “e se este doente pertence aos 10% que tem uma infecção bacteriana? Se eu não der o antibiótico isto pode ter um mau desfecho”.
(…) As farmácias às vezes cedem antibióticos sem prescrição porque conhecem as pessoas, também temos esse problema e sabemos que existe. 
Mas contra a minha classe falo porque nós é que prescrevemos os antibióticos, daí resultam as resistências e as infecções bacterianas cada vez mais resistentes e temos imensas. Antigamente havia bactérias que existiam apenas nos hospitais e agora, cada vez mais, já há doentes que chegam da rua com elas. 
São bactérias muito resistentes e já há situações em que não há nenhuma alternativa antibiótica para as tratar, infelizmente. Este é um grande problema e acontece também no nosso hospital. 
Temos muitos idosos, imaginemos, com infecções urinárias de repetição, fazemos um antibiótico e ele resulta mas numa segunda infecção a bactéria já não morre totalmente e no terceiro tratamento as bactérias sobrevivem todas e a bactéria resiste. Depois as pessoas podem vir a morrer daquilo que chamamos de choque séptico, que são as infecções resistentes a antibióticos.

No caso do Serviço de Medicina Interna, como se aplica a utilização de um antibiótico?
Na minha especialidade, onde são internados imensos doentes, a maior parte dos doentes são internados por situações infecciosas e bacterianas. Mas nós aí pedimos exames que confirmam essa origem, pedimos hemoculturas, ou seja, exames ao sangue que mostram a bactéria a crescer dias depois, exames à urina ou exames bacteriológicos à expectoração que mostra que há bactérias a crescer, e essas sim são situações com indicação formal para antibióticos.
Nos doentes internados na medicina interna, que muitas vezes podem chegar aos 100 na época gripal, muito mais de 50% estão a fazer antibióticos. Nesses casos ao não administrar antibiótico poderá acontecer uma situação de negligência e o doente poderá morrer por causa disso.

Qual o lugar das receitas caseiras em substituição da medicina tradicional?
Usa-se muito o mel para acalmar a tosse, por exemplo. Se uma pessoa diabética tomar uma colher de mel durante três ou quatro dias isso não lhe irá fazer mal e se o doente sente que melhora eu também não digo para não tomar, mas melhoraria na mesma caso não tomasse o mel.
Acho que é preciso acreditar, é o efeito placebo, e por isso quem acredita sente uma melhoria. Se a pessoa sentir a garganta a arranhar, se tomar mel ou se chupar um rebuçado pode até sentir algum alívio na altura mas não é isso que vai tratar a doença.
Por outro lado, ao ir ao médico, o doente não deve ir com a ideia de que é o antibiótico que o vai tratar. Deve contar as suas queixas, falar com o médico e perguntar mas sem fazer essa pressão.

Joana Medeiros
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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