Federação Agrícola pede trabalho em conjunto para aumentar as verbas do POSEI para a Região

  Na abertura do XIII Congresso da Agricultura dos Açores foram os desafios com que a Região e o sector se debatem, que marcaram o início dos trabalhos. 
Do lado da agricultura, o Presidente da Federação Agrícola dos Açores e da Associação Agrícola de São Miguel, Jorge Rita, alertou para a possibilidade de perda de verbas para a Região no novo Quadro Comunitário de Apoio (QCA) e pediu que se “trabalhe em conjunto” para que se consiga aumentar o valor das verbas do POSEI. 
Jorge Rita explicou que 10 a 20 milhões de euros “não fazem grande diferença” no valor total de verbas a nível europeu mas têm grande impacto na Região, pois poderiam servir para rectificar os rateios com que os produtores da Região se têm confrontado. “A expectativa é que não haja rateios mas somos constantemente confrontados com eles”, referiu Jorge Rita na sessão de abertura do Congresso que decorrer até Sexta-feira no Auditório do Ramo Grande, na Ilha Terceira.
Quando houve uma garantia do anterior Comissário da Agricultura, Phil Hogan, que não haveria cortes no POSEI para os Açores a intenção é aumentar as verbas e Jorge Rita diz que “não é vergonha, nem nenhum pedido de esmola pedir mais verbas e discriminação positiva” para a Região da parte do Governo Regional e do Estado Membro, Portugal.
Ao nível do desenvolvimento rural está prevista uma redução de 15% de verbas, nas ao nível das ajudas directas, no 1º pilar, está previsto um aumento de 4% para os produtores nacionais que também se pede que seja aplicado à Região. 
“Este é o grande desafio. Este aumento dos 4% para os colegas do continente nas ajudas directas também devia ser para os Açores. É uma expectativa que temos”, declarou o Presidente da Federação Agrícola dos Açores.
A este nível a comparticipação do Governo Regional, que actualmente é de 15%, terá de passar para os 30% o que poderá criar dificuldades ao executivo regional. “Estamos do mesmo lado para que se mantenha a comparticipação de 15%”, referiu ao acrescentar que “a situação pode ser dramática, devido ao esforço que o Governo vai fazer. Projectos vão atrasar e ter mais dificuldades em ser aprovado. Que se mantenha a situação actual que é manter a comparticipação actual”, sendo um desafio para o Governo Regional, mas também para o Estado-Membro.
Jorge Rita referiu que ao nível da carne “ainda podemos melhorar” nomeadamente ao nível da certificação dos matadouros da Região, mas incidiu mais sobre a questão do leite que “é um leite de qualidade mas que é dos mais mal pagos” da Europa. E alertou que é altura dos Açores potenciarem os produtos de excelência que têm e aqui os produtores já têm feito o seu trabalho para produzir com grande qualidade, sendo que “a expectativa é que os outros também façam o mesmo”, referindo-se à internacionalização dos produtos. “Temos de ser mais arrojados e mais pró-activos”, pediu ao lembrar o tal “casamento perfeito” entre a agricultura e outros sectores de actividade como o turismo. 

Governo alerta indústria
Na abertura do XIII Congresso da Agricultura dos Açores, o Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, falou no “percurso absolutamente notável que a agricultura dos Açores fez nas últimas décadas” mas ainda há desafios que têm de ser vencidos. Alguns estruturais e outros que resultam de factores conjunturais externos. 
Vasco Cordeiro apresentou três desafios principais para o sector na Região, nomeadamente ao nível da sustentabilidade referindo que nos Açores tem sido feito um bom trabalho ao nível da pegada ecológica e bem-estar animal, mas deve ser aprofundado esse trabalho “fundamentar técnica e cientificamente e, sobretudo, rentabilizá-lo num mundo que cada vez mais está desperto e valorizador desses aspectos”.
A questão da sustentabilidade não pode “começar e acabar na pastagem e na produção” e refere que será fora das pastagens onde há actualmente “uma margem de progressão mais ampla para fazermos mais e melhor”.
A este nível referiu que “a performance energética das nossas indústrias de lacticínios e a sua componente ambiental são algumas das áreas que merecem um novo olhar e olhar atento”, indo “ao encontro das necessidades e sensibilidades do mercado e, parte essencial, na transformação desses argumentos em activos valorizadores de produtos, preços e rendimentos de toda a cadeia. 
Sobre o segundo desafio, Vasco Cordeiro fala na “aliança virtuosa” entre a investigação, a qualificação de processos e produtos que tem de ser ampliada. 
Uma questão que não se coloca só ao nível da produção “mas também e de forma particularmente activa nas fases subsequentes desse sector”.
O último desafio advém da notoriedade e conhecimento que é necessário transmitir dos produtos açorianos. Uma “batalha de todos os dias” e que deve ser assumido por todos. E da parte do Governo Regional, vai ser lançada no início de 2020 uma campanha publicitária de âmbito nacional, “para tornar os produtos lácteos açorianos mais conhecidos pela sua qualidade”.
O Presidente do Governo Regional deu ainda alguns valores que evidenciam a evolução das produções regionais e a qualidade que referiu, nomeadamente é a Região que produz cerca de 50 por cento do queijo e quase 35 por cento do leite do país e, em 2018, a faturação da produção de leite atingiu perto de 180 milhões de euros, mais 7,2% do que em 2017. Já o o volume de negócios da indústria de lacticínios totalizou, em 2018, cerca de 310 milhões de euros, sendo um dos grandes contribuintes para o crescimento das exportações regionais. 

Reconhecer a agricultura açoriana como Património 
da Humanidade para aumento de rendimentos

A ideia foi defendida por Francisco Sarmento, do Escritório da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – em Portugal e na CPLP, que considera que o sistema agrícola dos Açores é “um laboratório” que pode vir a reconhecer a sua agricultura como Património da Humanidade à semelhança do que já vem sendo feito na Europa. 
O processo implica fazer “um estudo, um levantamento, envolvendo todos os actores relevantes açorianos, desde privados, universidades, agricultores, indústria e distribuição, e trabalhar no sentido de fazer um pacto para elaborar esta candidatura internacional”.
Um pacto, explica Francisco Sarmento à margem do XIII Congresso da Agricultura dos Açores, que implica um plano por um período mínimo de cinco anos, que integram um conjunto de acções que cada interveniente se vai comprometer a tomar “para fazer a transição para um sistema classificado como património global”. 
A importância de se avançar com esta classificação é justificada já que “vários sistemas agrícolas mais periféricos estão ameaçados e os agricultores também. Esta classificação pretende dar visibilidade e maior protecção a estes sistemas que, sendo historicamente conformados pela acção de agricultores em ecossistemas frágeis, também por isso produzem produtos com qualidade diferenciada. Permitir com esta estratégia um aumento de rendimento e possibilidade de fixação deste sistema”.
No fundo, tal como a FAO tem vindo a trabalhar, possibilitar que esses sistemas depois de classificados “possam ter uma discriminação positiva no contexto das políticas agrícolas”. Na Europa já existem alguns sistemas classificados, nomeadamente em Espanha, em Itália e também em Portugal onde já existe o sistema agro-silvo-pastoril do Barroso há cerca de dois anos.
Na reforma da PAC – Política Agrícola Comum, esses sistemas agrícolas que já estejam classificados “sejam mais discriminados do que seriam em condições normais. Concretizar o valor adicional que os produtos têm”, alertando que os países também têm esta capacidade de discriminar positivamente.
Rematando: “A ligação que faço com a qualidade dos produtos açorianos não é dizer que o ananás dos Açores é ou não doce, faz ou não aftas, mas entender que se o ananás dos Açores é mais saboroso é também é melhor para a saúde porque foi produzido em função de determinados parâmetros em harmonia com o ecossistema o que permite que a sua qualidade nutricional seja distinta do ananás industrial. Penso que esta pode ser a estratégia que poderá redundar em valor acrescentado”, concluiu Francisco Sarmento. 

Universidade deve ajudar na inovação

O Presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Eduardo Oliveira e Sousa, mostrou-se ontem preocupado com “o comportamento da sociedade, que olha para a agricultura com olhos diferentes”, referindo que os agricultores “não estão ameaçados mas temos de perceber os caminhos da mudança”. A este nível considerou de extrema importância para o sector agrícola “saber comunicar, ou passamos a ser um alvo”, referindo a necessidade de se introduzir “mais conhecimento na forma como evoluímos”. Aí, Eduardo Oliveira e Sousa considerou que têm de ser as Universidades, a investigação, a ir “à procura da inovação para acrescentar valor” já que considera que Portugal e os Açores não têm forma de competir com grandes indústrias no mercado. E tem de ser com uma comunicação das mais-valias dos produtos que têm de conquistar consumidores. “É essa busca de conhecimento que a Universidade tem de ajudar”, explicou.
Eduardo Oliveira e Sousa mostrou-se preocupado também com o facto de ainda não haver Governo constituído na União Europeia e e “sem orçamento na União Europeia não podemos conduzir as verbas”. Além disso, considerou que as afirmações do Comissário Europeu da Agricultura, Phil Hogan, que não haveria cortes nas verbas do POSEI para os Açores “pode não ser verdadeira” apesar de acreditar que “é provável” que se mantenham essas verbas.
Mas foi quando falou que a PAC é que permite que a população europeia tenha poder de compra para se alimentar bem, ou não, que Eduardo Oliveira e Sousa arrancou uma ovação da sala. Fazendo alusão ao facto de serem os apoios da União Europeia que permitem aos agricultores estarem no activo e alimentarem a população europeia que, de outra forma, teria de pagar muito mais pelos produtos agrícolas que consome. 

Fortuna quer aposta em micro nichos de produtos

 Mário Fortuna, da Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, esteve no XIII Congresso da Agricultura dos Açores para falar sobre “estratégias de mercado” e onde deixou a necessidade de cada produto açoriano conhecer a sua identidade para que mais facilmente consiga chegar ao mercado com que melhor se identifica. 
Neste sentido, o também Presidente da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada, explicou que cada produto tem de “olhar de forma específica e identificar um produto para que se identifiquem os mercados” para onde se pode direccionar.  
Ao nível dos produtos Mário Fortuna evidenciou que o leite é um produto diferente da restante produção açoriana já que atinge um volume de vendas significativo e já não se pode direccionar para um nicho de mercado. Mas ao nível das carnes ou dos vinhos “temos de pensar num sub-nicho”. 
É que “dada a nossa dimensão e investimento que tem sido feito, só podemos diferenciar-nos pelos elementos que nos identificam, particularmente a natureza e a nossa forma de produzir. Temos de apostar em micro nichos. Para a generalidade dos nossos produtos não há dimensão para mais”, defende.
Apesar do leite ser já uma produção em massa na Região, o ideal seria sair da produção em massa para nichos diferenciados, avançando que os programas que têm surgido na Região, como o “vacas felizes” ou os vários leites de pastagem, serão a solução. 
Mas, questionou, “como vender?”. O processo de escolher “o que vender” tem de ser feito de forma partilhada, entre empresas, associações e Marca Açores que devem chamar a atenção para o produto que se quer vender. Passando depois para a segmentação do mercado a atingir com cada produto e onde toda a cadeia de valor saiba o quê e onde vai vender. “É graças ao turismo que a nossa carne e o nosso vinho nunca tiveram um valor tão elevado. Turismo de hoje é de exploração, quer saber o que existe”, explicou ao afirmar que depois de dar a conhecer o produto são as empresas que “têm de se chegar à frente”. Mas para isso há que fazer um “trabalho colaborativo” para se fazer o posicionamento dos produtos açorianos no mercado. Sempre apostando nas especificidades de cada um dos produto. 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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