Face a face!.... com a advogada Judite Teodoro

“Existe nos Açores uma resposta adequada e atempada aos processos judiciais”

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Judite Teodoro (Advogada) - É difícil colocar-me na perspectiva dos outros. Para quem não me conhece, diria que sou uma pessoa muito focada no trabalho, para quem me conhece, os meus traços são a família e o trabalho.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Formei-me na Faculdade de Direito de Lisboa em 1992, trabalhei no Banco de Fomento e Exterior, BCA, BANIF e, desde 1999, exerço advocacia a tempo e inteiro.

Como se define a nível profissional?
Resiliente e inconformada.

Quais as suas responsabilidades?
São tantas as responsabilidades que não sei o que é não as ter. Faz parte da minha vida ser responsável perante a família, clientes, amigos e colaboradores.Tento todos os dias o meu melhor.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família continua a ser a pedra angular da sociedade. Continuo a sentir que a vida gravita à sua volta.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
A perda de apoio intergeracional. Desapareceu a figura de um membro de família que assumia a responsabilidade de apoiar os membros mais jovens e idosos. 
Com a entrada das mães no mercado de trabalho em funções tradicionalmente reservadas ao sexo masculino (anteriormente a esmagadora maioria das mulheres que trabalhavam tinham profissões compatíveis com a vida familiar), houve necessidade de reinventar o espaço da mulher na vida profissional e familiar.


Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A sociedade está a evoluir de uma forma sustentável e os movimentos que se fazem sentir na rua são demonstrativos de uma sociedade que cresce de uma forma crítica e participativa.

Que importância têm os amigos na sua vida?
São a família que escolhemos e, por isso, são as pessoas que não consigo viver sem eles.

Para além da profissão, que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Fazer rádio, televisão e jornal que são divulgados em órgãos de comunicação na diáspora. É uma forma de sair daquele modelo diário de linguagem jurídica. 

Que sonhos alimentou em criança? 
Foram tantos que tenho tido oportunidade de os concretizar ao longo da vida.
Quando os sonhos são certos eles caminham por si. É assim que tem acontecido comigo.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
O que me incomoda mais nos outros é a ingratidão e o que mais admiro é a empatia e bondade.

Que características mais admira no sexo oposto? 
A inteligência, o pragmatismo e sentido de humor.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
A Bíblia. É uma fonte inesgotável de sabedoria.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais? 
Sou selectiva por natureza e isso estende-se também às redes sociais, filtro a informação.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Passou a ser um privilégio os momentos quando consigo desligar-me de qualquer forma de contacto.
Contudo, devido à minha profissão e posicionamento do escritório na diáspora, seria impossível sobrevier sem telemóvel e internet.

Costuma ler jornais?
Todos os dias. Continuo a sentir prazer e entusiasmo de ler o jornal em formato de papel. Faz parte da minha geração esse hábito.

O que pensa da politica? Gostava de ser um participante activo?
A política é uma actividade que, na sua génese, tem valores que definem cada momento histórico. A história contemporânea tem demonstrado que muitas vezes os dirigentes políticos não estão atentos aos sinais de mudança, às novas tendências e aos movimentos das minorias.
Interpretar os sinais da vida faz parte do crescimento colectivo.
Somos pouco inclusivos.
A actividade política pressupõe um total desprendimento de tudo aquilo que a pessoa possa ter sido em termos profissionais e bem assim abdicar da vida pessoal. A missão é única, exigente, total e sem reservas.
Considero não ter este espírito altruísta nesta fase da minha vida. 

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim, mas em família. Todas as viagens fazem parte do nosso álbum familiar, Londres, Nova Iorque, Cuba, Mónaco, Roma são cidades a que gostaria de voltar.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Devido a problemas de saúde tenho alterado os gostos gastronómicos, o que tem sido difícil devido à riqueza da nossa gastronomia. O peixe cozido e grelhado é um dos meus pratos favoritos.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
O salário mínimo em Portugal aumentou para 1000 € e a TSU baixou para 10%.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva algumas das medidas que tomaria?
Chamaria a sociedade civil aos grandes desafios do país.
Iria até junto da “micro sociedade” para alcançar um projecto global homogéneo.
Reconheço que dá trabalho. 
Só um técnico de saúde pode dar um contributo na sua área e por aí adiante …

Como vê o fenómeno da pobreza nos Açores? Em sua opinião, que soluções se poderiam adoptar?
A pobreza nos Açores tem tido por parte das organizações que operam na Região um cuidado muito especial. Mas existe um contributo que apenas cada pessoa pode dar e isso, infelizmente, não acontece.
A solução passa por todo um sistema educacional que poderá levar uma geração até que se consiga ver resultados.

Qual a máxima que o/a inspira?
O amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva. (Santo Agostinho)

Em que Época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Identifico-me com a época dos ideais da transição do Estado Novo para o Estado Democrático, dos finais da década de 60 e década de 70 do século XX. 

Enquanto advogada, que processos mais a estimulam? Quer pormenorizar alguns destes processos?
Os processos mais estimulantes são aqueles que, aparentemente, não terão solução, pelo menos no imediato. Devido ao sigilo profissional não poderei ir muito além. Pensar em voz alta e haver algum contraditório ao pensamento jurídico ajuda bastante. 

Que desempenho teve no processo dos lesados do Banif? Quantos clientes defendeu nos EUA? E no seu todo?
Mais uma vez o sigilo impede-me de ir ao pormenor do patrocínio entregue. São um número muito significativo de lesados que represento oriundos de todo o território nacional e diáspora. 
Tem sido um processo muito trabalhoso cuja defesa tem sido feita em conjunto com a sociedade de Advogados Vieira e Associados.

 Como caracteriza a justiça nos Açores?
Existe uma resposta adequada e atempada aos processos judiciais.
Evolui-se muito desde que comecei a exercer.
Todos ficamos a ganhar.

Tem havido prevenção adequada para integrar na sociedade jovens delinquentes para que não voltem a reincidir?
A reincidência depende muito do apoio familiar que os jovens possam ter. Muitas vezes são oriundos de famílias desestruturadas que dificultam a prevenção. Há de tudo um pouco.

Tem uma veia empresarial. Que projectos tem em curso e que projecta para o futuro?
Alguns virados para a consolidação do existente e outros mais ambiciosos. Prefiro ser cautelosa nesta fase, mas será muito empolgante a sua concretização. 

Tem algo que considere interessante e/ou importante acrescentar no âmbito desta entrevista?
Numa recente viagem de trabalho ao estrangeiro um cliente despediu-se a desejar paz no coração.
Considero ser um desejo tao nobre que partilho com todos vós: paz no coração. 

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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