Horácio Bento de Gouveia foi um dos prosadores madeirenses mais brilhantes do século XX. Os seus livros “A Canga”, “Lágrimas Correndo Mundo” e “Águas Mansas”, entre outros, são obras notáveis pela linguagem e pelos conteúdos. Narrações de vivências madeirenses que, ao lermos, encanta e comove-nos, porque sentimo-las e, consequentemente, vivemo-las na força e razão da sua realidade.
Evidentemente que uma maioria dos madeirenses desconhece a sua obra e, até, o seu nome, o que me entristece profundamente. Contudo, não me causa admiração porque quando se vive num país que secundariza a cultura e tanto se exalta o futebol, os escritores, os poetas permanecem no silêncio das gavetas. São os governos os culpados destas ausências, destes apagões de memórias. É certo que o escritor tem o nome na fachada de uma escola do Funchal, mas isso não basta para homenageá-lo. O importante é que os madeirenses leiam os seus livros, que se revejam neles, porquanto a sua obra é um importante testemunho da literatura madeirense.
Os escritores, os poetas, os artistas são a alma de uma terra e, como tal, compete-nos exaltá-los como valores incentivantes para as novas gerações. Não o fazer é ignorá-los. É como se se perdesse um pedaço da alma do povo. É tornar mais pobre a terra onde vivemos.
Isto vem a propósito de se organizar a Casa Museu Horácio Bento de Gouveia, no norte da ilha, em Ponta Delgada, onde ele nasceu e viveu; onde madeirenses e visitantes de fora pudessem encontrar as suas raízes e os seus escritos; onde tivessem a oportunidade de compreenderem as suas razões de homem, de professor e escritor; onde o seu nome se perpetuasse através dos tempos. Seria uma grande mais-valia para a cultura madeirense.
É da mais elementar justiça que isto aconteça, tanto mais que a sua filha mais velha, Fátima Gouveia Soares, já entregou à guarda do Arquivo Regional o espólio que tinha na sua posse, estando o filho mais novo, Horácio Bento Gouveia, também disposto a fazê-lo.
A filha tudo tem feito para recordar o nome do pai e respetiva obra.
Saibamos agradecer a salvaguarda do património que ficará em nossas mãos e saibamos honrar a memória do escritor que mais nos compreendeu, lendo e divulgando a sua obra romanesca e ensaísta, repito, onde os madeirenses se podem rever.