Irmã Célia Faria, do Convento da Esperança

“Temos que oferecer e repensar na que oferecemos, bem como a sua qualidade, com novas dinâmicas e outras formas de presença”

 Fale-nos um pouco de si e como foi o seu percurso até ir para a vida religiosa.
Chamo-me Célia Faria, sou natural de Guimarães e tenho 41 anos. Sou religiosa há 22 anos. Conheci esta Congregação através dos pais de uma religiosa, que era filha única. Eles convidaram-nos a conhecer esta comunidade que na altura era em Braga, que foi a primeira casa da Congregação que conheci. A partir daí, fui participando em actividades em que me foram convidando como campos de férias, festivais da canção, experiências de voluntariado e retiros. E foi aí, nessas experiências, que comecei a identificar-me com o carisma [da Congregação], com este estilo de vida e este modo de estar e sobretudo depois de uma experiência mais intensa de oração de 8 dias a que chamamos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, senti-me bastante tocada e interpelada a entrar para esta Congregação, fazer a experiência.

Os seus pais aceitaram bem esta decisão?
Sim. Os dois aceitaram, embora a minha mãe tenha dito na altura que não era o sonho que tinha para mim. Mas depois de algum tempo, aceitaram bem e acompanharam-me sempre.

Onde fez a sua formação?
O primeiro tempo de formação, os dois primeiros anos, ou seja, o pré-noviciado, fi-lo na Casa de Braga. Por acaso, no primeiro, fiz juntamente com uma açoriana, mas ela acabou por sair. Após esses 2 anos, fui para a Espanha e aí fiz o noviciado – durante dois anos – em Buitrago del Lozoya, que ficava a 80 quilómetros de Madrid. Depois desse período, fiz os meus votos nessa mesma casa.

E após os seus votos, por onde passou?
A partir daí, estive 3 anos em Lisboa, 9 anos aqui em São Miguel e nos últimos 7 anos em Fátima e em Braga.

Em 2012, saiu de São Miguel, tendo regressado agora no passado mês de Setembro com uma nova missão. Como foi este regresso?
Fui muito bem acolhida pelas pessoas que já me conheciam. Estive cá 9 anos, ou seja, foi algum tempo, e isso também deu-me aqui força de integração numa nova realidade em que já não estão várias irmãs com quem eu vivi nos anos anteriores. 
Regressei agora com uma nova missão dentro da comunidade. Quando estive cá, entre 2003 e 2012, era a directora da residência para jovens que tínhamos aqui no Convento e agora assumo outras funções como superiora da comunidade. Com esta nova missão, sinto que é mesmo um grande desafio que me desloca um bocado, mas que eu assumo como esperança e de procurar ser este canal atento ao que Deus quererá de nós, neste momento em que a situação social mudou bastante. Qual será o nosso papel hoje aqui na ilha de São Miguel, o serviço à juventude que é parte essencial do nosso carisma. 
Ao regressar cá, no primeiro impacto, dentro do nosso espaço, senti falta da residência de jovens, das irmãs com quem vivi, mas por outro lado, sinto este desafio dos novos tempos, desta integração com outros grupos. Sinto que aqui podemos ter uma outra forma de presença. Estamos aqui a tentar fazer caminho. Cá, a Congregação é constituída apenas 3 irmãs, neste momento: a irmã Zilda é a zeladora da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres e coordena as várias pessoas que trabalham no Convento, nomeadamente a nível de manutenção do edifício. São cerca de 10 pessoas. Tudo o que se refere à liturgia e às eucaristias é também da sua responsabilidade. A outra irmã assumiu outras tarefas, sendo a nossa ecónoma e secretária da comunidade também. Assumo a função de acompanhamento a estas duas irmãs e também aqui da missão nossa actualmente, procurando aqui revitalizar um pouco também a nossa presença aqui, mas em novos moldes.
Encerramos a nossa residência há cerca de 2 anos e vemos que neste momento, o nosso serviço às jovens e aos jovens terá que ser concretizado de maneira diferente porque vemos que a necessidade de acolhimento deixou de existir. Então, vemos aqui que podemos oferecer presença mais ao nível de formação e acompanhamento integradas nas dinâmicas que já existem na Pastoral da Diocese, sobretudo colaborando com a Paróquia de São José na catequese e também no Centro Social e Paroquial, de onde foi pedida a minha colaboração para acompanhar um grupo de adolescentes 2 vezes por mês, oferecendo um tempo de interioridade, da expansão de uma forma mais serena, tentando transmitir valores com dinâmicas, sobretudo com esta atenção a eles. Estando eu a dar apoio à Paróquia de São José, criou-se um grupo de jovens no passado mês de Outubro já a pensar nas Jornadas da Juventude em 2022, havendo esta grande motivação. Também dou catequese, nomeadamente ao 8.º ano.

Tendo em conta que os tempos que correm, os jovens estão mais afastados da Igreja, sobretudo após o crisma. 
Temos que oferecer e repensar no que oferecemos, bem como a sua qualidade, com novas dinâmicas e outras formas de presença.
Com o grupo de adolescentes que vai para o Centro Social após as aulas, é-lhes oferecido um tempo de qualidade, de proximidade. Por um lado, esta figura da religiosa, esta visibilidade de quem é a religiosa que eu acho estar desconhecida e distanciada. E por outro lado, oferecer ferramentas para que eles possam crescer com autoconfiança, que possam também crescer na fé de outra maneira. Que vejam que não se cresce na fé somente através da catequese, mas de outra forma: em grupo, experimentando outras acções e muito nesta linha de proximidade. Necessitam muito de escuta. Percebo muita violência e stress nestes adolescentes tao novos e acho que pode ser por aí. Ainda estamos a iniciar.

Que mais actividades têm sido feitas para chamar os jovens?
Antigamente procurava-se estar perto das jovens. Agora, de outra forma, nós é que temos de sair, fazer o trabalho com a comunidade. Neste momento, integrarmos o serviço de apoio pastoral, que é uma equipa. Eu e a irmã Zilda fazemos parte da equipa. Ajudamos e colaboramos no que é preciso. No passado fim de semana, tivemos um retiro espiritual com cerca de 40 jovens entre os 18 e 30 anos. Senti que estive próxima dos jovens de uma forma que não é muito habitual estar. No início, há aquele receio por parte dos jovens, mas depois este convívio, dialogar e escutar, mas sobretudo há partilha e este espirito de serviço mútuo em que nos complementamos com um objectivo comum. Tive que também que aprender, como por exemplo, a linguagem das redes sociais. Os jovens precisam de confiança e de segurança, de se sentirem acompanhados a nível humano para depois dar o salto da fé.

Tem alguma expectativa?
Acabo de chegar, mas poderemos estar aqui a atravessar uma fase de voltar a ganhar mais confiança. Teremos que trabalha-la mais ou restaurar algo que se possa ter perdido.

A nível de problemas sociais, procuram ajuda ao Convento?
Enquanto comunidade, ofereço comida e escuto. Sei que é pouco, mas procuro acolher e escutar. Estar ali e dedicar um pouco de atenção, saber se tem procurado ajuda, o que tem feito. 

É a madre mais nova da sua Congregação em Portugal. E a irmã mais nova?
Sim, sou a madre mais nova. A irmã mais nova, que fez os seus primeiros votos no passado dia 8, tem 27 anos e é natural dos Açores.

Nos dias de hoje, ver alguém tão novo a seguir este percurso religioso, parece ainda “chocar” algumas mentalidades. Como é que acha que as pessoas vêm a entrada de uma pessoa, nomeadamente para uma ordem e congregação religiosa feminina? 
Parece-me, pela reacção das pessoas, tanto mais velhas como os mais novos, que noto admiração, algum espanto que pode ser positivo, mas também duvidoso. Talvez por não ser tão comum, pela situação que estamos a viver actualmente pela experiência que se tem tido em situações relacionadas com a Igreja e a nossa forma de estar. Mas também tem muito a ver com as famílias, com o que se vive no seio destas.
No meu caso, na minha família, rezava-se. Falava-se nestas várias vocações. Entendo que seja cada vez menos frequente. Sou catequista e vejo a envolvência das famílias na vivência cristã, na vivência da fé e isso depois é mais difícil que se coloque a hipótese de seguir esse caminho [religioso]. Temos, como Igreja, de repensar a nossa forma de transmitir a fé e de estar, o essencial é a fé, mas terá que ser transmitida com novas linguagens e expressões e muito em comunhão entre nós.

A entrada de um elemento novo é sempre uma alegria.
Sim e para mim é uma confirmação da vitalidade e actualidade do nosso carisma e da nossa missão. É como a confirmação de que ainda podemos continuar a ser úteis e a poder servir os jovens e a juventude necessitada.
Fale-nos um pouco sobre a história da Congregação.
Nós, as Religiosas de Maria Imaculada, nascemos em Espanha, nomeadamente em Madrid. A nossa fundadora, a Santa Vicenta Maria Lopez y Vicuña, nasceu em 1847, criou a Congregação inicialmente para dar uma resposta à necessidade da época que era muito evidente para ela e que era uma obra que já tinha sido iniciada pelos seus tios. Vicenta Maria tinha uns tios que dedicavam muito tempo das suas vidas a tentar orientar e preparar jovens que vinham dos campos para a grande cidade, Madrid, trabalhar. Não sabiam ler nem escrever. Essas jovens que trabalhavam como domésticas sofriam abusos por parte dos patrões, contraíam doenças iam parar ao hospital. A tia de Vicenta Maria ia fazer visitas ao hospital e acompanhava estas jovens. E sentiu que poderia fazer algo mais. Abriu uma casa, inicialmente com 3 jovens, que era conhecido como “La Casita”, por ser tão pequena. Como eram de outra zona e não tinham para onde ir, dava-lhes esse acolhimento. 
Ainda jovem, Vicenta Maria acompanhava a sua tia, começou a perceber a necessidade que havia e foi-se identificando com o desejo, daquilo que sabia, de transmitir a essas jovens. A sua experiência de fé e de oração foi confirmada. Sentiu este chamamento de Deus a iniciar uma nova obra, que desse continuidade a essa obra e à necessidade de atender a estas jovens. E fundou a Congregação a 11 de Junho de 1876. Estamos em todos os continentes, menos na Oceania, espalhadas em 21 países. Em Portugal, somos neste momento 31 irmãs e temos 5 comunidades: Braga, Porto, Fátima, Lisboa e aqui em São Miguel.

Em que ano a Congregação veio para os Açores?
A Congregação das Religiosas de Maria Imaculada está cá há 65 anos. Também teve casa em Vila Franca do Campo durante 40 anos. Lá, acolhia-se jovens e era também uma casa de formação com vários ateliês. Muitas das capas da imagem do Senhor Santo Cristo foram bordadas por irmãs nossas e jovens dessa Casa de Trabalho, daí a relação com a imagem. Era uma obra social e uma comunidade que existia lá.
As circunstâncias foram mudando, as irmãs também passaram a ser menos e optou-se por ter somente residência aqui no Convento da Esperança, tendo sido encerrada a de Vila Franca do Campo. 

Sentiu sempre que tomou a melhor opção para sua vida?
Sim, sem dúvida. Fui vendo que me sentia bem naquela vida de comunidade. Gostava de estar em comunidade, de ter um tempo tranquilo a sós e em comunidade, de ter esta missão de ajudar a jovem necessitada – que saía do seu lar – e que podia acompanha-la, ser amiga e irmã, na ausência dos seus familiares. Era uma missão muito de acolhimento e de cuidado. 

                                

Print
Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima