Ana Franco vai lançar o livro ‘Basalto’ em Ponta Delgada

“Deixar os Açores é impossível e residir em S. Miguel é um sonho”

Há dois anos, em Ponta Delgada, Ana Franco empolgou com o livro ‘Brisas’ que lançou entre muitos amigos. Agora, vem carregada com o livro ‘Basalto’, onde se procura definir: “Sou/Um vulcão/ Que à superfície/Não veio,/ Uma onda/Que à areia/Não chegou,…”
Na entrevista ao ‘Correio dos Açores’ afirma que não tem baú de memórias porque elas lhe correm no sangue.  Um diálogo em que fala do pintor Ricardo Bensaude: “desgosta-me o silêncio à volta desse pintor”, afirma.
Embora viva lá fora, no Continente, afirma que permanece cá dentro: “não, não perdi a bruma da beleza material e poética das ilhas. Afagam-me e protegem-me”.
E reforça a sua estada/ausente destes nove rochedos: “Mantenho o ‘olhar sublime’ do rosto do Senhor Santo Cristo dos Milagres como farol na bonança e na tempestade”.
Afinal, “deixar os Açores é impossível e residir em S. Miguel é um sonho”. Mas, porque e como se vive assim? O leitor pode encontrar algumas respostas nesta entrevista.


 Correio dos Açores - Escreve que, em São Miguel, nasceu o seu coração e desaguou nas Mercês. Passando da prosa poética para a escrita jornalística, como foi a sua vida de criança e jovem na ilha em 1945. E que importância tiveram os seus pais na sua educação?
Ana Franco, (Docente, poetisa, autora do livro ‘Basalto’) - Nessa ilha do Arcanjo, nasceu o meu coração e nele permanece. Trago como herança a paixão por viver, mesmo na tempestade, tal como o mar que nos embala, revolto ou manso é sempre belo.
Os meus Pais continuam a ser o alicerce da minha vida. Desde a infância, muito atribulada por motivos de saúde, na verdade cimentada com o afecto, com eles aprendi a galgar os degraus na escada da vida e a senti-la como uma dádiva.
A minha juventude foi vivida com intensa alegria e exuberância (dividida entre S. Miguel e Terceira). Continuaram com uma mestria de respeito pela minha liberdade, deixando bem vincada a responsabilidade no agir e pensar. Nas minhas frequentes idas à Terceira, também nos tempos lectivos, frequentava o liceu de Angra. Atraía-me o ser alegre e vivaz dos terceirenses. Aí também cresceram laços de Amizade que permanecem até hoje. 
 
Deixou os Açores com 22 anos, em 1967 para ingressar na Escola de Belas Artes de Lisboa. Porque fez esta opção?
Prosseguir os estudos universitários implicava ter como destino o Continente. À época não havia universidade no Açores. Assim, começaram as frequentes viagens entre o aeroporto de Lisboa e o “aero-vacas” em S. Miguel. 
O leque de atracções para o meu futuro estava sempre ligado às expressões artísticas. Escolhi as Belas Artes em Lisboa para adquirir as bases fundamentais a uma carreira ligada às artes plásticas.
No lar universitário, a convivência diária com diferentes raças e culturas, cursos, a facilidade em assistir a espectáculos, conferências e as viagens frequentes às restantes capitais europeias, foram um complemento à minha formação.
Quando penso no interregno da pintura, consola-me pensar em Sara Afonso. Sara, antes de arrumar os pincéis, chorou durante três horas, “Alguém tinha de pagar as contas”, explicou. Não só as contas exigem esse desprendimento. 

 Com que recordações ficou do tempo em que percorreu o continente português de Norte a Sul? Nesta altura, perdeu a ilha e os seus amores insulares?
Do norte ao sul viajei com o inerente a um açoriano contemplativo, sensível, generoso, porque a sua estrada é o Mar, infinito e profundo/ a sua cartilha a Natureza/ o seu limite o Oceano.
Viajei, partilhei pela imensidão das raças e culturas, abracei fortes e fracos, corrigi pedantes, lancei trampolins com a mesma força e variedade da linguagem atlântica do Mar que nos abraça. É com uma mágoa ao rubro que sigo o retroceder do ensino. Não é só o futuro que está a aprender, mas também já a ensinar. O ensino tornou-se um charco. Mas há rãs que saltam para os nenúfares, docentes que apontam os reflexos, abrindo ao Sol a raça humana. 

Em 1993 publicou o livro À FACE, a face oculta dos Painéis de Setúbal. Nesta altura, sente o pulsar da pintura dos Primitivos Portugueses e a poesia de Ary dos Santos. Perdeu, definitivamente, a bruma das ilhas…
À FACE, a face oculta dos Painéis de Setúbal, do Convento de Jesus nasceu uma paixão estética ao contemplar pela primeira vez este conjunto retabular. Emerge um paralelismo entre pormenores de pintura e excertos de poesia num elo entre gerações de pintores da palavra e da cor. Eu apenas fui o eco, a caixa de ressonância. 
Admiro a poesia de Ary dos Santos, mas nesse livro em pé de igualdade está Bocage, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Fernanda de Castro, Antero de Quental, Frei Tomé de Jesus, António Gedeão, Sebastião Gama e outros.
Não resisto a transcrever um excerto de António Gedeão sobre este livro: “Fiquei deslumbrado, estupefacto e surpreendido com a qualidade. Não tenho sequer ideia de alguém me ter folheado um livro que merecesse tal deslumbramento (…). É uma peça magistral.”
Não, não perdi a bruma da beleza material e poética das ilhas. Afagam-me e protegem-me.

A partir de 1994 fixou-se em Lisboa no Liceu de Pedro Nunes onde viveu e de lá guarda memórias que não se esvaem. Anos mais tarde leccionou na Escola Secundária Josefa de Óbidos onde encontrou o que considera “colegas de alto porte”. Foram tempos de ensino e de aprendizagem…?
No Liceu de Pedro Nunes, encontrei um ambiente propício à educação para o saber, com actividades culturais de grande alcance, nas quais participei activamente. Com um grupo de alunos, fundei a disciplina opcional de teatro, na qual se destacou, de uma forma brilhante, Carolina Deslandes.

  Até parece que se perdeu em Portugal continental e esqueceu os Açores no Atlântico. Das ilhas nem Brisas…?
Voltava com frequência a casa dos meus Pais, à medida que a saúde e a idade deles avançava. Residir em S. Miguel é um sonho. Amigos, Pais e Ilha residem em mim. 
Prova de gratidão a S. Miguel é também o próximo lançamento de Basalto. Dia 29 de Novembro no Centro Cultural Natália Correia às 18h00 fará três anos que nesta mesma ilha lancei o penúltimo livro intitulado Brisas. Era devolver a Brisa que as ilhas lançam no meu sentir e agir.

Até que um dia, volvida uma ‘imensidão de anos’, (quantos?) recorda-se que nasceu na ilha e regressa para lançar o livro Basalto. Aquele basalto que dá forma às ilhas e que, afinal, não só não lhe saiu da memória como lhe deu forma, tornando-a uma força da natureza?....
Na contracapa deste livro, Anabela Almeida exprime o meu sentir. Basalto é poema/Basalto é poesia. E eu acrescento: Basalto é suporte da frondosa Natureza e meu também.
E então verifica-se que mantém no seu íntimo o ‘Olhar Sublime’ do Ecce Homo; que se considera umas dos Regressantes e que não se esqueceu de Raúl Brandão e das Ilhas (Des)conhecidas. Foi ao baú das memórias ou elas nunca as deixaram no dia-a-dia da vida?
Mantenho o “olhar sublime” do rosto do Senhor Santo Cristo dos Milagres como farol na bonança e na tempestade. Não, eu não sou regressante. Nunca parti para um destino longínquo para sustento das gerações a meu cargo. Eu não tenho essa Altura, quando muito sou uma gaivota, que tal como os filhos das ilhas de bruma, vêm beijar a Terra, a Areia e o Basalto. 
Antes de continuar os diálogos com Raúl Brandão, como anunciara há três anos, convidei-o a submergir no nosso Mar. 
A Raul Brandão, o pintor da palavra, faltou jogar à bola com a bexiga do porco, dançar a valsa e a sapateia, batalhar com limas e flores, sentir com naturalidade as oscilações da escala de Richter, cantar à desfolhada onde o milho é rei…
Não tenho um baú de memórias, elas correm-me nas veias!

É no capítulo Vivências que fala de quem é, da sua infância, do seu Plátano, do Basalto e das Caldeiras. Afinal, nunca deixou os Açores mesmo tão longe?
Deixar os Açores é impossível. Residir em S. Miguel é um sonho, nunca abandonado e revigorado ano após ano.

Tem um capítulo do livro Basalto dedicado à Natureza dos Açores e ao mar que “enrola o pensamento”. Consegue sorrir nas Tempestades?
Sorrir na tempestade foi e permanece a herança paterna e a milenar das nossas ilhas. A uva para que néctar seja é pisada mesmo que ao som do canto. 
Às ondas, às nuvens, ao Mar entrego, como sempre fiz, o que metaforicamente partilho em Basalto.

A certa altura do livro tem diálogos com Raúl Brandão, que considera o “pintor da palavra”; e escreve ao Homem de Ricardo Bensaude, a Lagoa Henriques e a António Rego. O que foram e são para si?
Ricardo Bensaúde tem raízes em Nós, frequentou as Belas Artes. No acervo da Academia das Belas Artes encontram-se duas pinturas deslumbrantes - “Ao Homem de Ricardo Bensaúde” e um “Nu”. A minha mãe introduziu-me no calor e sabedoria da família Bensaude. Não admira que dessa árvore emergisse tal pintor. Desgosta-me o silêncio à volta desse pintor.
Decisivos na partilha da palavra escrita é justo acrescentar Nazaré Escobar, conhecedora de todos os meus textos publicados ou não; Jaime Gama e Anabela Almeida. Decisivos na publicação de Brisas, já na terceira edição, foram António Rego e Jaime Gama. O prefácio de António Rego em Brisas é um hino poético do qual não sou merecedora. 

E de que mais gostaria de ter falado e não lhe demos oportunidade para isso?
Espero ter correspondido à vossa entrevista. Será certamente mais uma ocasião de partilhar e relembrar aos amigos, familiares e amantes da poesia o lançamento de Basalto, sob o olhar de Natália Correia. Por vós aguardo no próximo dia 29 de Novembro às 18h00, no Centro Cultural Natália Correia, para a partilha desse momento de poesia em Basalto, prefaciado por Carlos Melo Bento e apresentado por Urbano Bettencourt.
Vereis que “agarrar-me ao mar como um rochedo” (Cecília Meireles) e “Sentir um intenso orgulho na palavra Açor” (Sophia de Mello Breyner) resume todo o meu pensar e sentir.

                          ***

 Citação do prefácio de Carlos Melo Bento ao livro ‘Basalto’: “Uma jornalista do Jornal de Letras, perante a sua recusa (a de Ana Franco) em ser entrevistada, terminou o diálogo com uma frase expressiva: – «porque se esconde detrás do que escreve?!»
Mas, e porque o faz agora? Porque “a saúde e o tempo escasseiam”?
“Imposição bendita da saudade, que de mim não distingo, tal como a lava brota sem jamais o Mar, a Terra ou a gentes a poderem deter? Perdão peço se esboço trôpego sou, mas tal como sou escrevo e a Vós confio”.

                                              João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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