“Existem espaços que mostram o que o turista gosta de ver em detrimento da nossa identidade cultural”, diz Francisco Maduro-Dias

 A sessão de abertura esteve a cargo de Vítor Meireles dos Santos, Brigadeiro-General e Comandante da Zona Militar dos Açores, começando a conferência por definir o termo “museu”. “Leva-nos à Grécia Antiga, mais precisamente ao museum. Era o local de preservação do estudo das artes e ciências e também inspiração. Mas foi apenas no século XVIII, com a exploração do conhecimento, que assistimos à criação de espaços visitáveis com grande diversidade de objectos e foram estes primeiros espaços, as primeiras sementes dos actuais museus”, conformou explicou. Fez referência ao facto de apenas nas últimas épocas se ter assistido a uma expansão da museologia e que “estamos numa fase em que se atribui ao museu uma relevância cada vez maior, tendência que muito provavelmente se manterá nos próximos anos e décadas”. As finalidades do museu, como espaço, mas também as suas potencialidades, “as quais, por motivos diversos, ainda não se encontram devidamente exploradas”. Na sua opinião, ainda existe muito caminho para ser feito e há que “olhar para o futuro com optimismo e com a consciência e certeza de que eventos como estes [Conferência] nos impelem para esse futuro. O Museu Militar dos Açores tem hoje uma função educativa e de grande relevância entre as finalidades definidas para a sua missão”. O Comandante da Zona Militar dos Açores salienta vários factores que contribuem para a educação, nomeadamente a maneira de apresentação dos objectos expostos, a apresentação gráfica, à estéctica, entre outros. 
Francisco Maduro-Dias, Presidente da Comissão Executiva da Rede de Museus e Coleções Visitáveis dos Açores marcou presença com a apresentação “Conceito, evolução e implementação da Rede de Museus e Coleções Visitáveis dos Açores, enquanto estratégia para a melhoria da museologia regional”. Iniciou com a questão “O que é que está diferente hoje”, recordando a criação das regiões autónomas no ano de 1976. Em 1978/79, “foi criada uma legislação que institucionalizava as salas de etnografia”. Nestas, “supostamente deveriam ter elementos da tradição cultural da respectiva comunidade, mas dependiam dos museus dos extintos distritos”, explica o historiador. “Mas ficamos com 3 museus: Museu Carlos Machado, Museu de Angra do Heroísmo e o Museu da Horta” – sobre este último, Francisco Maduro-Dias afirmou que naquela época era “mais conceito do que realidade. Pouco tempo depois, houve uma tendência de criar uma certa memória da ilha”. Para que o público tivesse ideia de como era o pensamento museológico da época nos Açores, exemplificou a repetição de várias peças nas várias ilhas: “acontecia que ter museus nas ilhas, arriscávamos a ter vários carros de bois, várias carroças, vários lagares e era tudo igual”. Os espaços passaram a não ter qual relevância cultural. Somente para a comunidade onde estavam inseridos. 

“Precisamos de estruturas 
capazes de criar parcerias”

“Não é fácil num arquipélago falar em redes. Ainda hoje não é e naquela altura, muito menos”, referiu Francisco Maduro-Dias. Explicou que foi então decidido que cada museu teria uma temática: por exemplo, em São Jorge seria relativo ao queijo, no Pico, à actividade baleeira visto que “já tinha um princípio de colecção muito interessante relacionado com a baleação”. Na sua perspectiva, os Açores devem questionar-se sobre a sua herança cultural.
A Rede de Museus e Coleções Visitáveis dos Açores existe desde 2016, tendo como vários objectivos: “a valorização do património móvel dos Açores; a cooperação institucional e a articulação entre museus; a optimização e partilha de recursos; a qualificação e difusão da informação relativa aos museus; A cooperação entre museus e entidades detentoras de coleções visitáveis; o fomento de parcerias inovadoras que contribuam para a dinamização e afirmação cultural da Região”; entre outros. Para o Presidente da Comissão da Rede, são precisas “estruturas capazes de criar parcerias” e sendo parceiras, implica uma conservação, valorização, conservação e dinamização do património cultural. Explica que quem tem contacto diário nos museus e consequentemente com as peças, passa a ter uma preocupação tão grande, que “as peças acabam por ser um pouco nossas”. O Museu, sendo um lugar de memória construída, é estudado e o conceito da Rede procura uma forma de partilhar as coisas que fazem parte da nossa história. 
Relativamente ao turismo que se tem feito sentir, frisa que “o turista não é invasor, mas que pode ser”, sendo necessário à comunidade saber enquadrar-se e explicar “o que somos pois ninguém pode receber outro [um estranho, um turista, um visitante] sem saber quem é, o que é e o que está ali a fazer. Existem casos de espaços paramuseológicos em que mostram o que o turista gosta de ver, ou seja, nós somos capazes de recusar a nossa identidade cultural por causa dos turistas”. A 22 de Novembro de 2016, no início do boom turístico, foi criado o decreto-lei dos museus e das colecções visitáveis tendo em conta a política de apresentação, disponibilidade e horários para serem visitados.
Dificuldade na gestão do 
património militar

Da Região Autónoma da Madeira, esteve presente Rui Carita, coronel reformado de Artilharia e professor catedrático aposentando da Universidade da Madeira, com a intervenção “Museus Militares em Antigas Fortalezas: O projecto museológico e museográfico do Museu Militar da Madeira de 2010”. O professor catedrático explicou o percurso do Museu Militar da Madeira que teve o seu início em 1979, “com a ideia de expor armas e uniformes na Câmara Municipal do Funchal”. Dois anos depois, era proposta a exposição “Arquitectura Militar na Madeira dos séculos XVI a XIX” a 10 de Junho: “havia uma tentativa e uma afirmação das futuras regiões autónomas” explicou. “Fomos à Fundação Gulbenkian durante 15 dias, aprendemos como se montavam as exposições, bem como os conhecimento mínimos e toda a gente disse que era uma exposição fantástica, que parecia da Gulbenkian. Claro, era copiada de lá… (risos).” A exposição esteve patente em várias zonas do país, incluindo na Fundação. A inventariação das peças é indispensável, segundo Rui Carita, e se for duplicada para segurança, devido à rotação dos materiais, no caso de exposições itinerantes. E nos dias actuais, a nível informático principalmente. 
“Ninguém sabe tudo. Só com a partilha de conhecimentos é que podemos chegar a algum sítio”, refere Rui Carita. A 1992, graças a Rui Mendonça, engenheiro militar, foi possível adaptar algumas salvas de artilharia para um futuro museu militar “contra todos os inconvenientes que advinham”. O actual Museu Militar da Madeira encontra-se localizado na fortaleza construída no século XVI. Foi ampliado em 2008 e 2009. Ao longo dos anos, foi aumentando o número de peças relativas a diferentes épocas históricas.  
Para o professor catedrático, a mais valia dos museus militares são a sua projecção de forças e no caso do Museu Militar da Madeira é possível encontrar armas das diferentes guerras, exposições da I Guerra e II Guerra Mundial, bem como a Revolta da Madeira de 1931. A preocupação, actualmente, é saber como criar um percurso histórico-urbano para aumentar assim o turismo militar naquela ilha.
                       
 

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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