Rotas gastronómicas (23)

“O objectivo do restaurante da Associação Agrícola não é vender muito mais, mas sim assegurar a venda para aqueles que já cá vêm”, diz Jorge Rita

Apesar de não se situar exactamente no centro de Ponta Delgada, onde nos temos centrado nesta rubrica de “Rotas gastronómicas”, o Restaurante da Associação Agrícola de São Miguel é frequentemente apontado como um dos mais visitados na ilha.
Independentemente de essa visita ocorrer por parte dos que cá residem ou pelos turistas nacionais ou internacionais que dedicam parte do seu tempo a descobrir a cidade da Ribeira Grande e os seus encantos gastronómicos, o Presidente da Associação Agrícola, e conhecedor dos ritmos do restaurante que ali existe, afirma que o pedido “que ultrapassa todos os outros” é o Bife à Associação.
No entanto, o restaurante que hoje ocupa uma ampla sala requintadamente decorada e com capacidade para 140 pessoas começou por funcionar num outro edifício desanexado do Parque de Exposições de São Miguel, que servia inicialmente como cantina para os funcionários e, uma vez por semana, abria as portas para receber também os agricultores que participam na feira semanal que ali decorre.
Com o passar dos tempos, e já com Jorge Rita como Presidente da Associação Agrícola de São Miguel, houve a necessidade de – com o cimentar da posição que tinha o restaurante – “dar outro destaque e outra dimensão ao restaurante”, implementando também “outra estratégia mesmo sem que existissem ainda muitos turistas na Região”.
“Perspectivávamos que este restaurante também poderia ser um pólo de atracção turística para os Açores, e não nos enganámos até porque alterámos diversos procedimentos, em concreto abrir todos os dias e não fechar entre a hora de almoço e o jantar, porque me parece que poucos restaurantes faziam isso”, conta Jorge Rita.
A decisão em causa – para além de permitir que um maior número de pessoas visite o restaurante – foi tomada também pelo facto de esta ser uma das formas de melhor receber o turista: “Não faz qualquer tipo de sentido porque não podemos querer as pessoas cá e depois não as servirmos bem. Penso que o restaurante da Associação Agrícola de São Miguel teve um impacto muito positivo nestas alterações substanciais que foram feitas, e era essa a expectativa que tínhamos”.

Expectativas são superadas mas turismo 
é ainda “um sector volátil”

As expectativas, afirma, têm sido superadas de ano para ano, uma vez que este espaço, conhecido principalmente pela qualidade da carne que serve, tem vindo a “crescer de forma sustentável, e mesmo que não saibamos ao certo o que poderá vir a acontecer no crescimento por via do turismo, o que acontece neste momento é que o restaurante tem uma grande visibilidade, tem uma grande aceitação e percebemos que todos gostam de vir ao restaurante da Associação Agrícola de são Miguel, até porque o espaço é aprazível”.
Porém, apesar do crescimento sustentável tendo por base as projecções que são feitas anualmente pela Associação Agrícola, não deixa de existir algum “receio” uma vez que o turismo é, pelo menos por enquanto, um sector sem uma estabilidade definida na Região independentemente da sua evolução a nível local e, também, ao nível do país.
“Temos também receio. Sabemos que um dos sectores vitais para a economia da Região tem a ver com a restauração, mas toda a gente sabe também que o turismo é um sector muito volátil. É bom que não nos esqueçamos disso embora, normalmente, ninguém goste de falar sobre esse assunto”, explica.
Por esse motivo, para o também Presidente da Federação Agrícola dos Açores, será muito difícil dissociar a sustentabilidade da restauração da sustentabilidade do próprio turismo, salientando ainda que, no futuro, “o objectivo do restaurante da associação agrícola não é vender muito mais, mas sim assegurar a venda para aqueles que já cá vêm e àqueles que se fidelizam aos nossos produtos”.
Isto porque tanto no caso do restaurante situado no Parque de Exposições de São Miguel como na restante restauração, estes espaços acabam por ser “um dos maiores promotores de venda de produtos da Região Autónoma dos Açores, porque as pessoas ao cá virem não só provam aquilo que é nosso – não só ao nível da carne mas também ao nível dos queijos e derivados dos lacticínios, do ananás e das nossas frutas –, como acabamos promover a verdadeira identidade da região em matéria de produção”, salienta.
De acordo com Jorge Rita, esta promoção dos produtos regionais quando feita dentro dos restaurantes acaba por acarretar muitos factores positivos para a Região, sobretudo, por dois motivos: “Em primeiro lugar, deixamos de ter o custo da exportação ou da expedição, e em segundo lugar temos mais pessoas que se alimentam cá. Há a utilização de mais camas e de mais viaturas porque o turismo é enriquecido também com a fidelização dos produtos dos Açores que acabam por, mais tarde, serem identificados nas prateleiras dos supermercados e os turistas, como gostaram, acabam por estar sempre à procura dos nossos produtos”, explica.

Associação Agrícola tem novos 
projectos que pretendem “alavancar” 
produtos regionais

Assim, de forma a dar a conhecer aos visitantes de todo o espaço circundante ao restaurante um pouco dos produtos açorianos e de fazer a sua parte no que toca à promoção dos mesmos, o presidente da Associação Agrícola de São Miguel adianta que haverá, no futuro próximo, uma reestruturação nas infra-estruturas ali presentes, dando origem a um Centro Interpretativo da Agricultura e a um espaço comercial onde estarão presentes diversos produtos açorianos.
“O restaurante não é um projecto acabado (…), o antigo restaurante serve ainda de apoio às feiras mas virá a ser o próximo Centro Interpretativo da Agricultura, que irá arrancar brevemente com obras de requalificação do espaço. (…) O centro interpretativo ajudará ainda a que existam mais turistas na visitação ao nosso espaço, e vamos num espaço próprio, nos próximos tempos, localizar uma loja com todos os produtos regionais para quem nos visita”, adiantou Jorge Rita.
Esta iniciativa da Associação, procura também “alavancar a qualidade dos produtos em termos de preço”, uma vez que “a questão da qualidade já está bem acentuada em todos os produtos”, diz.

Jorge Rita afirma que é importante “alterar alguns paradigmas da exportação”

Em causa está, de momento, “uma falta de comunicação” entre todas as entidades responsáveis nesta matéria, salienta, uma vez que “há nos Açores uma série de produções que são únicas, com uma grande tradição, e nós ainda não estamos a conseguir valorizar os nossos produtos de uma forma transversal. (…) A comunicação para a valorização é um salto que temos que dar em todos os produtos de uma forma transversal”.
Manter o foco na exportação dos produtos açorianos certificados como tal poderá, no entender de Jorge Rita, causar no futuro um outro tipo de problemas, nomeadamente na escassez de matéria-prima oriunda da Região nos restaurantes ou similares.
“Nós temos que perceber que não se pode apenas falar de exportação porque, essencialmente, temos que assegurar um mercado de qualidade, tanto a nível da carne como a nível do peixe, e esse é um trabalho que tem que ser repensado na Região Autónoma dos Açores”, diz.
Contudo, reforça que estarão a ser dados passos pela Secretaria Regional da Agricultura com o objectivo de certificar o Matadouro de São Miguel, “alterando aqui alguns paradigmas de exportação porque nós precisamos de mais peças livres no mercado regional e precisamos de mais peixe no nosso mercado. Não podemos ter a pretensão de fazer a exportação maciça de tudo e depois termos dificuldades de apresentar o nosso produto”, explica.
Salienta ainda que apesar de esta dificuldade “não existir no momento” há, são visíveis “algumas dificuldades pontuais e por isso isto tem que ficar bem assegurado, embora seja um trabalho que está a ser feito”.
Para além desta certificação que encara como fundamental, Jorge Rita adianta que é ainda importante olhar para os Açores e “pensar rapidamente se vamos continuar a ter este tipo de turismo. Sou a favor de um turismo sustentável e que valorize o nosso produto, não de um turismo de massas, até porque esse dispensamos muito bem, mas um turismo selectivo já que a partir de agora temos essas condições”.
Por esse motivo, de acordo com a sua opinião pessoal, “devemos seleccionar melhor os turistas que recebemos, que são aqueles que gastam mais, que gostam de cá vir, que se fidelizam à nossa produção e que dão valor acrescentado aos nossos produtos, não de escoamento mas de venda para valor acrescentado nos mercados que o valorizam”, diz.
A par disto, será também importante para a Região investir “em mais formação que seja transversal a todos, desde os empresários até todos os colaboradores e profissionais (…), porque a área da hotelaria é uma área muito específica e, se quisermos ter um turismo sustentável, isto faz também parte do bom serviço que se faz na restauração e na hotelaria”, afirmando ainda que, nestes sectores de uma forma geral, “não há notoriedade se não houver investimento”.
No que diz respeito ao volume de clientes, adianta que em primeiro lugar estão os clientes nacionais e os clientes regionais, sendo depois notável a presença de “muitos italianos e espanhóis principalmente”, acompanhados de um crescimento também no que diz respeito aos clientes alemães e aos norte-americanos “que apareceram com a Delta”, salientando que estes “são clientes muito bons”.
Apesar de o cliente local marcar presença com frequência no restaurante, Jorge Rita reconhece que há “mais dificuldade” do cliente local em ir ao restaurante, principalmente na época alta, quando há uma disponibilidade menor no espaço.
Em acréscimo, “o volume crescente de turistas em São Miguel” despoleta também outras dificuldades para os residentes que não devem ficar esquecidas, como o aumento do custo de vida, no entanto “não podemos querer os turistas cá e depois não os querer nos restaurantes, nos hotéis, nas ruas ou nas paisagens”.
“Se queremos o cãozinho também vamos ter as pulgas. E enquanto for assim teremos as pessoas cá, e essas pessoas quanto mais visitarem, mais consumirem e quanto mais gastarem do que é nosso melhor, mas também temos consciência de que quanto mais turismo, mais inflação e as pessoas que cá vivem vão ter mais dificuldades em algumas áreas, nomeadamente na habitação, no custo da própria alimentação e noutras áreas a nível dos serviços”, refere.
Porém, mesmo que existam certas falhas e dificuldades, o Presidente da Associação Agrícola de São Miguel adianta que, no que diz respeito ao restaurante deste espaço, este tem “sucesso tanto a nível regional como a nível nacional”, mostrando-se satisfeito com “a posição que o restaurante tem no mercado e que só favorece a Região pela notoriedade que lhe dá e pela qualidade dos produtos que são apresentados aos clientes”.

 

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Categorias: Regional

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