1 de dezembro de 2019

Dos Ginetes

Recordando o Padre Evaristo

Já lhe dediquei este espaço há alguns anos mas curiosamente na última Quarta-feira 27 de Novembro a sua imagem regressou à minha memória por ser o dia do seu aniversário natalício se pertencesse ao mundo dos vivos, pois deixou-nos gravada esta data como que a pedir para nunca o esquecer num painel em cerâmica na Sacristia da Igreja dos Ginetes. Tenho recebido várias vezes de gente que sabendo do meu gosto pela história desta terra e pela ligação que sempre tive à paróquia como leigo, pedidos de informação sobre este homem que muito bem conheci, mesmo se já “velhinho”, de natureza irreverente, mas que marcou sem dúvida uma época nos Ginetes.
Foi Pároco da nossa terra de 1918 a 1958, portanto cerca de quarenta anos. Tinha eu 12 anos quando deixou de exercer funções mas continuando a viver nos Ginetes na residência que possuía muito perto da Igreja.
Em 1918 veio substituir um antigo filho desta terra que atingindo o limite da idade para continuar a exercer as funções de Pároco, o Padre Mariano, não conseguiu o nosso amigo Pe. Evaristo manter uma amizade “verdadeira” com o mesmo, que acabou inclusive por Celebrar Missa em sua própria casa.
Evidentemente que não é o melhor exemplo de fraternidade Cristã, mas é a verdade que ficará para a história da Paróquia dos Ginetes que não deve ser colorida com mentiras apenas para mostrar uma imagem perfeita que no tempo nunca existiu. 
Sabemos que era natural da Lagoa onde nasceu em 1884 mas que adoptou esta terra dos Ginetes quando cá chegou e daqui nunca mais saiu. Foi substituído no dia 15 de Agosto de 1958 pelo jovem na altura, Pe. António Leite, com quem conseguiu então manter uma relação “equilibrada” pois já nada tinha a ver com os serviços da Paróquia.
Faleceu a 1 de Maio de 1966 tendo sido sepultado no nosso Cemitério.
Durante a permanência do Pe. Evaristo como Pároco dos Ginetes existiu as mais “rocambolescas” histórias de provocações entre determinadas famílias “influentes” e o próprio que na maioria dos casos não se deixou intimidar, pois era uma pessoa que não obedecia a hierarquias. Em abono da verdade igualmente se conseguisse destabilizar alguém com quem mal se relacionava, no mais completo segredo, não hesitava. Da mesma forma fazia o bem no mais completo anonimato sem tentar “colher os frutos”.
Depois de viver cá com uma irmã que eu já não conheci e que foi sepultada também no Cemitério dos Ginetes veio fazer-lhe companhia uma governanta com um sobrinho da minha idade. Entrámos juntos para a Escola na altura e ficámos amigos. Desta amizade nasceu a minha aproximação às “coisas da Igreja” pois foi o Padre Evaristo quem me cativou para servir no Altar com o meu amigo, sobrinho da governanta e mais tarde seu afilhado. 
Gostava de nos levar a passear de carro algumas vezes ao Domingo, o que era algo de extraordinário na altura, pois era o único que possuía automóvel, creio eu, nesse longínquo tempo da década de cinquenta do século passado.
Ainda temos muita gente nos Ginetes que o conheceu muito bem e que pode testemunhar exactamente o que aqui escrevo.
Obras de restauro foram feitas na Igreja dos Ginetes, freguesia sobretudo na altura muito pobre, mas que ele conseguiu apoios Governamentais no mais completo silêncio, pois era a sua forma de trabalhar. 
Ainda hoje, apesar de já bastante deteriorada, de realçar a bancada que existe na Igreja dos Ginetes construída com a madeira das árvores de plátano que ornamentavam a entrada da nossa terra e que por várias vezes, desde os anos cinquenta do século passado, foram sendo destruídas para dar lugar ao que agora temos que é praticamente nada. Foi o Padre Evaristo quem conseguiu que pelo menos colhêssemos algum benefício de tal barbaridade iniciada há muitos anos. 
Apesar de alguma manifesta rebeldia que irritava o povo, no fundo era um homem bom, com muita fé que as pessoas respeitavam.
Para ele a Celebração da Eucaristia era o acto mais importante. Já muito frágil e não sendo capaz de Celebrar sozinho, tinha eu na altura perto de vinte anos, por isso procurava-me para ir com ele “Celebrar”. Foi uma experiência que nunca esquecerei. Nessa época era a Missa ainda Celebrada em Latim. Como eu tinha frequentado o Seminário imaginava ele que era a pessoa certa para o apoiar. Com o seu estado de saúde tão frágil, apenas repetia o que eu dizia. Não conseguia ler correctamente. Segurava-lhe o braço para ajudá-lo no “Momento da Elevação” e até as palavras da Consagração ele as repetia após eu as sussurrar baixinho ao ouvido. Foi assim durante alguns meses até que teve mesmo de ficar em casa por já não ter forças para andar. Nunca apareceu quem quer que fosse da Diocese para lhe dar apoio nos últimos tempos de vida após tantos anos ao serviço da Igreja. O povo, apesar de não ter as melhores relações com ele acorria visitá-lo com frequência à sua moradia.
Quando faleceu a 1 de Maio de 1966, com 82 anos de idade, muita gente chorou a sua morte. O seu corpo foi exposto em câmara ardente durante a noite na Igreja dos Ginetes, sempre repleta de gente para um último adeus. Alguns foram mesmo beijar-lhe a mão. No dia seguinte foi a sepultar no nosso Cemitério, pois não tinha família, excepção de uns familiares residentes nos Estados Unidos que apareceram depois, como habitualmente acontece, em busca de uma riqueza que não existia.
Foi a Paróquia dos Ginetes quem pagou o funeral, pois morreu pobre e na miséria.
Infelizmente a sepultura com os seus restos mortais cá está, entre tantas outras sem qualquer identificação para recordar alguém, que mesmo não fazendo unanimidade muito deu a esta terra. É verdade que tudo o que é humano termina nesse espaço, mas não ficaria mal perpetuar o nome de alguém que foi durante quarenta anos o guia espiritual do povo desta terra. 

Faleceu um amigo dos Ginetes
Fomos surpreendidos pela morte do Francisco Pimentel da Costa (conhecido por Francisco da Maia) que há muito residia em Mississauga, no Canada. Foi músico distinto da Filarmónica Minerva, grande amigo desta terra que sempre que possível vinha visitar-nos. Ainda no passado mês de Janeiro foi um dos responsáveis com outros Ginetenses, pela ida ao Canadá de uma pequena comitiva da qual também fiz parte com a finalidade de angariar fundos para a nossa Igreja. Ficámos em choque pois apesar da doença que conhecíamos não esperávamos tão rápido desfecho. Para a sua família, sobretudo mulher, filhos, irmãos e sobrinhos os meus mais sentidos pêsames pois sei que apesar de nada eu representar estou a exprimir o sentimento de muita da nossa gente dos Ginetes.

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Categorias: Opinião

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