1 de dezembro de 2019

Coisas do Corisco

Natalidade

Porque razão a taxa de natalidade portuguesa tem decrescido, sucessivamente, desde há 9 anos a esta parte?
Porque razão Portugal tem a quarta taxa de natalidade mais baixa  da Comunidade Europeia ou seja, tem apenas 8,5 %, o que  significa que na Europa Comunitária apenas existem 3 países com menos: a  Itália com 7,3%, a Espanha com 7,9 %, e a Grécia com 8,1%?
Antes de tudo, temos que, conscientemente, dizer que o que se passa com a natalidade em Portugal, é muito mais grave do que se imagina, pois o envelhecimento da população portuguesa vai trazer ao país imensos amargos de boca se não se inventarem soluções que remedeiem essa espécie de catástrofe que se desenha no futuro da nação.
Por exemplo em  2.017, morreram 110.197 pessoas, e só nasceram 80.180 nados vivos, algo que bateu um surpreendente mas triste   record nas contas da natalidade portuguesa. Para além disso, não nos podemos esquecer que tal diferença sucedeu num país já de si envelhecido, muito pequeno, pobre, e que  vem vivendo, desde há muitos anos a esta parte,  sob a constante ameaça de um pernicioso défice demográfico.
No meu entender existem 3 razões de fundo que podem justificar esse fenómeno em Portugal.
A primeira deve-se ao facto de  pertencendo à União Europeia e dependendo do euro, Portugal,  logo à partida, passou a ter outras obrigações que não teria se estivesse fora da União assumindo, por isso, as suas responsabilidades económicas  situadas na sua exclusiva responsabilidade. 
De facto, com a sua própria engenharia financeira,   desvalorizando quando necessário fosse a sua moeda, e com o reencontro da sua própria estabilidade financeira, longe, portanto,  das grilhetas com que a Comunidade nos obriga a viver, criaríamos  mais margens de manobra para ultrapassar a triste marca de 17,2 % de portugueses que vivem no limiar da pobreza. 
Na prática, aquilo que se passa com os portugueses, italianos, espanhóis, e gregos, é comparável àquilo que se passa com muitos animais que vivem agregados em comunidades, por isso longe das explicações encontradas pelos políticos para justificarem a alta percentagem de pobreza estabelecida entre nós, e que, no meu entender, escondem coisas muito mais sérias do que aquelas que se inventam sem sentido.
Por isso, uma das coisas importantes na definição  da taxa de natalidade de um país, entronca-se, de uma certa forma, na alimentação. Assim sendo, a taxa de natalidade é muito melhor nas comunidades animais onde a comida abunda, do que naquelas onde as carências alimentares, por vários motivos, sucedem, obrigando à fragmentação das colónias, ou então, pura e simplesmente, fazerem-nas deixar de se reproduzirem.
Por isso a situação da enorme baixa da taxa de natalidade portuguesa, e dos 3 países que nos antecedem, prende-se essencialmente com a sua penúria financeira, o enorme número de gente que vive na pobreza,  por isso, sem os meios económicos que lhes permitam ter alimento satisfatório para fazerem crescer saudavelmente os seus descendentes. 
Portugal com 17,2% de gente no limiar da pobreza, diga-se no limiar da sub nutrição, não pode esperar que surjam  famílias com muitos filhos pois não tendo condições financeiras para uma alimentação e conforto  capazes, escolhem, e muito bem, não cometerem a heresia de ter filhos para passarem fome, e possuírem pais ausentes pelas suas forçadas obrigações laborais.
A segunda questão que promove a desaceleração da natalidade, prende-se com o facto da estrita obrigação que, maridos e mulheres, nos dias de hoje, têm de trabalhar, muitos deles com o prolongamento das suas horas de trabalho para que possam ter uma vida minimamente decente.
De facto, entre a opção da creche com longas horas de permanência dos miúdos, e a decisão de não quererem ser pais ausentes,  ganha a decisão  dos casais optarem por não ter filhos, e se os têm, limitarem-se a um único, no máximo.
Há ainda o terceiro caso com grande peso. O facto de rapazes e raparigas se juntarem com muita facilidade, fazendo uma vida conjugal sem grandes premissas futuras,  afasta-os, com toda a lógica, de quererem assumir a paternidade, adiando, por isso, esse facto para melhores dias que eventualmente lhes traga uma determinada estabilidade financeira, e  emocional.
Os dias de hoje não são dias fáceis para a nossa juventude a qual se encontra aturdida neste nosso mundo, cheio de problemas sociais, e com uma  precariedade  laboral enorme onde o futuro se  afunda numa cidadania  primária. Vive-se, por isso, fora da serenidade que este mundo urgentemente necessitaria para ser  promissoramente estável.
E como sem estabilidade a família sofre; como sem um trabalho sofrivelmente compensador, não existe segurança; como um trabalho precário  trás angústia, os casais jovens, com toda a lógica, acham melhor não ter filhos do que os ter para virem penar perdidos na selva em que a cidadania se tornou.       

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Categorias: Opinião

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