“Sem jovens que se interessem pela música tenho a sensação que a banda vai acabar por fechar por falta de elementos”

Questionado sobre o que nos podia contar acerca da banda, disse que “só podia contar coisas boas”. Um pouco mais a sério, revelou que a banda tem, neste momento, “cerca de 28 músicos”, mas nem todos são da Freguesia. “São todos do Concelho, mas nem todos são do Faial da Terra, que é uma freguesia pequena, com pouco mais de 300 habitantes e para manter uma banda de música, numa freguesia com estas características é extremamente difícil. Vivemos com as nossas dificuldades, mas vamos vivendo e o nosso objectivo é mantê-la aberta”.

Maestro por obrigação 
e amor à camisola

A Sociedade Musical Sagrado Coração de Jesus “tem sede própria, tem uma carrinha de 9 lugares e é uma banda pequena proveniente de um meio rural, que só pretende manter-se activa”, acentuou.
A banda comemorou este ano 125 anos de história e nunca fechou a actividade. “Claro, que há momentos bons e outros maus, mas manteve-se sempre em actividade”.
O maestro e músico João Resendes é terceira geração de músicos na família, já que o seu avô e o seu pai foram maestros. “Sou maestro não por opção, mas por obrigação, porque nos meios mais afastado existem dificuldades em contratar maestros, porque envolve custos e a banda não tem condições financeiras para contratar maestros, porque todos trabalham por carolice e por amor à camisola”.
Nesse prossuposto, a família caminha para ter uma quarta geração de músicos, e quem sabe, mais um maestro na família, isto porque o filho de João Resendes também já faz parte da banda. O seu avô era Francisco Carreiro do Couto e o seu pai é Francisco Venâncio Resendes do Couto, que “foram duas pessoas muito importantes na Sociedade Musical Sagrado Coração de Jesus, modéstia à parte e sem qualquer problema, foram dois elementos que tiveram um papel fundamental na banda, assim como na própria Freguesia do Faial da Terra”.

Farda e instrumentos em condições

Abordando o tema fardamentos e instrumentos, o nosso entrevistado valida que “as fardas e os instrumentos musicais, são os elementos que têm mais desgaste, ou seja, por melhor que estejam, envolve sempre algum desgaste, porque há os músicos que crescem, as fardas deixam de servir e são estes, os dois componentes da banda que nos custam mais, e depois a manutenção dos instrumentos é extremamente cara, se bem que há a preocupação da direcção da banda nesse sentido, visto que não pagamos nada a ninguém, ou seja, é prioritário que o músico tenha farda e o instrumentos em condições. Pode estar tudo mal, mas isto não pode falhar, de forma alguma”.
Para quem costumam tocar? “Para quem nos contrata”.
Onde já tocaram este ano? “Já tocamos na Lomba da Maia, na Maia, Furnas, nos Fenais da Ajuda, São Roque, Ribeira Funda, Ponta Delgada, nas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, na Fazenda do Nordeste, em todas as freguesias do Concelho da Povoação e tem sido assim”.

Ensaios são também momentos de convívio

A sede da banda, situada no centro da Freguesia, não tem bar aberto ao público, por opção, apenas funcionando para consumo próprio. “Temos uma sala de ensaios, o temos águas e servimos chá, só nessas alturas, que também são momentos de convívios”.
A sede original data da década de 60, a actual foi uma construção de 1994, por alturas das comemorações do centenário e foi uma graciosidade da Câmara Municipal de então.
É difícil ser-se maestro? “É muito complicado, e para ser sincero, não quero que esta palavra seja muito forte, mas odeio ser maestro, mas sou maestro devido às contingências da Freguesia, que é pequena. Não temos recursos para gastar e muito menos receitas que pudessem pagar um maestro e sou maestro, porque chegou uma altura que teve de ser”.
João Resendes é músico há 30 anos e toca saxofone. “Tentei fugir ao máximo da possibilidade de poder vir a ser maestro, fui o contramestre de alguns maestros que por cá passaram, tentei sempre fugir dessa possibilidade, mas não é possível. Ser maestro de uma banda é mais do que isso. Acabo por ser maestro, gestor e passo a ter outras peocupações, que não são só as preocupações inerentes à direcção musical. 

Hoje em dia, um maestro 
tem outras preocupações

Surgem preocupações ao nível financeiro, instrumental ou do bem-estar dos músicos, quando a preocupação do maestro deveria ser só, chegar lá, ver os músicos sentados no lugar e vamos tocar. Preocupamo-nos, se o pessoal vai aparecer ou não vai, se vai chegar tarde ou não e as nossas deslocações têm de estar perfeitamente sintonizadas, de forma, a que não fique ninguém atrás, e esta é outra das situações que as bandas passam hoje em dia. No passado, as comissões das festas contratavam uma banda, mandavam o autocarro e a banda ia toda junta tocar, mas a partir de certa altura, as comissões de festas deixaram de fazer isso e só a irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres é continua a fazer isso, e passaram a dizer, «vocês estão convidados e desenrasquem-se». E isto implica que a banda tenha de comprar, no mínimo, uma carrinha e depois tenha de alugar ou fretar outros meios de transporte”.
Assim, torna-se complicado porque começa-se a perder dinheiro antes de tocar? “Nem mais, por isso é que disse, que é impossível contratar-se maestros, mas estou lá porque também tenho esta obrigação para com os músicos. Para além disso, preocupamo-nos exclusivamente em ter as contas em dia”.

Jovens desinteressam-se

Uma outra dificuldade nos meios mais pequenos é ter uma população, que pouco ou nada se vai regenerando. “No passado, pertencer a uma banda era sinónimo de passear, nem todos tinham transporte próprio e hoje em dia, se dissermos a um jovem, vens para a banda e vais viajar, ele vai começar a rir e vai-se embora. Nós, enquanto crianças, para sairmos de casa dizíamos: «Oh pai, vou para a música e tenho de ir para o ensaio». Esta era a forma de podermos sair de casa e termos alguma liberdade, mas isso, hoje em dia não acontece, porque as crianças e os jovens estão completamente afastados das bandas de música, quando para mim, ser músico é um privilégio, tanto é que tive a possibilidade de estudar fora e nunca deixei a música de parte. O objectivo era vir cá, nas férias, e regressar à banda, mas hoje em dia isso já não acontece e há um afastamento das camadas jovens, e a pouca juventude que existe não tem interesse nenhum pela música”.
“No ano passado, abrimos formação musical na sede e só apareceu uma criança, mas este ano ainda não apareceu ninguém e isso reflecte-se depois na banda. Infelizmente, tenho a sensação que a banda vai acabar por fechar, não por condições financeiras ou por não ter sede, mas por falta de músicos”, lamentou
João Resendes é casado e pai. Quando casou foi morar para a Lomba do Loução, mas quase todos os dias tem de ir ao Faial da Terra.
Na Câmara Munipal da Povoação, trabalha no Gabinete de Geografia, Ordenamento e Peotecção Civil, há 22 anos. A sua formação foi feita numa Universidade do Porto, depois no regresso fez Mestrado na Universidade dos Açores.

 

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