As peripécias de um açoriano que foi campeão do mundo de boxe tailandês

Correio dos Açores - Depois de 14 anos na Tailândia, qual é a sensação de regressar aos Açores?
Osvaldo Ochôa - É uma sensação boa. Uma sensação de tranquilidade e de paz que é, no fundo, o que realmente procuro. Vivi muitos anos aqui, na ilha Terceira, e é sempre muito bom rever alguns amigos e comer umas alcatras feitas pela minha tia Lúcia (risos).

Como surgiu o interesse por fazer alta competição no MuayThai (Boxe Tailandês)?
O MuayThai surgiu por volta de 2004, numa altura em que treinava na Holanda com o meu querido e saudoso amigo Ramon Dekkers. Lembro-me que, no final de um treino, ele me perguntou se não estava interessado em fazer combates na Tailândia. Ali sim, seria o topo, porém teria de treinar muito e fazer grandes sacrifícios.   

Como chega a campeão do mundo em 2010?
Não foi fácil. Pelo caminho ficou muito trabalho, suor e lágrimas. Normalmente dizem que o difícil não é lá chegar mas sim permanecer. Acreditem que não é bem assim. Foram anos de treinos com antigos campeões do mundo de kickboxing e de muaythai (thaiboxing). Anos de preparação e muitos sacrifícios, muitos combates pelo mundo, torneios para rankings e ir passando adversário atrás de adversário, atletas de cada continente, até só ter o campeão em título à frente. Depois foi só esperar pelo momento certo para o título estar em jogo. Esta foi a parte mais difícil pois o mais fácil para mim foi mesmo o combate, que na altura foi transmitido em directo para todo o mundo em várias redes de televisão por cabo. 

Fez combates por todo o mundo. Qual o que mais marcou?
Infelizmente posso dizer que o combate que mais me marcou pela negativa foi em Hong Kong em 2008. Fui envenenado poucas horas antes de subir ao ringue com comida que me deram ao jantar. Não consegui acabar o combate porque desmaiei no primeiro assalto e fui de ambulância para um hospital onde fiquei em tratamento e observação cerca de 14 horas. Foi um pesadelo. Por vezes correm-se altos riscos quando estão muitas apostas em jogo, é um vale tudo.

Como se prepara mental e fisicamente para um dos desportos mais sangrentos e duros do mundo?
Sempre fui muito profissional e exigente comigo em todos os períodos, quer antes como depois dos combates. Normalmente duas semanas antes dos combates a minha vida praticamente se resumia a comer, dormir e treinar como um louco. Não havia festas nem saídas nocturnas. Tinha sempre uma grande dieta e o fundamental descanso que aproveitava para ler, tocar guitarra, ouvir muita música e ver filmes.
No que toca aos treinos, a coisa era violenta. Fazia entre 15 a 17 Kms diários de corrida e muito trabalho de ginásio, eram seis horas diárias de Segunda a Sábado entre as 5h30 da manhã até às 9, depois retomava das 15 às 18. Estas horas de trabalho, para além de incluírem as corridas, também tinham muito shadowboxing, corda, trabalho de saco, plastrons/paus, sparring e clinching. A hora de recolha era por volta das 19 horas. Apesar de viver num prédio com câmaras e seguranças, 24 sobre 24 horas, era sempre muito controlado pelo meu treinador e outros elementos da minha equipa.

Como foi o combate no Irão? Como reagiu o público?
Espectacular. Uma experiência única. Os iranianos ultrapassaram todas as expectativas. Nunca tinha visto nada assim. Educados, atenciosos, simpáticos e muito preocupados em que os seus convidados ficassem agradados com o país e o povo. Lembro-me de estar a chegar ao recinto e ter uma multidão à espera para tirar fotografias. Foi extremamente difícil entrar no recinto, mesmo com segurança e polícia. O combate terminou no quarto assalto com vitória minha por KO. Quando terminou parecia que vinha tudo a baixo, foi uma loucura, ao ponto de invadirem os balneários e levarem-me os calções e as luvas. Fiquei quase nu (risos). Fui muito acarinhado e muito bem tratado.

Porque se retiras neste momento dos ringues?
Tudo na vida tem um tempo certo. Temos de ter o discernimento de saber que a hora chegou. Eu noto a diferença, os anos passam, o coração quer mas o corpo já não consegue suportar tanta dor. Foram muitas lesões, algumas delas graves, como por exemplo ter de fazer dois meses de fisioterapia para poder simplesmente voltar a andar. Os últimos oito combates que fiz, já foram feitos com muito sacrifício, pois as dores que tinha nas pernas já eram imensas. Penduro as luvas com 98 combates profissionais, 92 vitórias e 6 derrotas mas, acima de tudo, termino com saúde. 

Depois das férias na Ilha Terceira, qual o próximo passo?
Neste momento, não tenho planos. Só penso em estar com o meu filho e a minha família. Foram muitos anos de viagens e ausência. Por agora o que mais quero é estar por casa com eles.

O MuayThai marcou a forma de ver o mundo e viver a vida?
Claro que sim. Tive a oportunidade de viajar por quase todo o mundo, Espanha, França, Alemanha, Suíça, Áustria, Inglaterra, República Checa, Irão, Egipto, Qatar, Jordânia, Tailândia, Laos, Camboja, Malásia, Singapura, Hong Kong, Vietnam, Coreia do Sul, Japão e Austrália, foram apenas alguns dos países que tive a sorte de conhecer devido ao MuayThai. Conheci e conheço muita gente, muitas culturas, formas de estar e viver. Ganhei muito, perdi algum e fui roubado, o que faz parte do jogo. Hoje em dia sou uma pessoa realizada e feliz.

Fale um pouco sobre a vida na Tailândia?
A minha vida como atleta na Tailândia não foi nada fácil. Na primeira semana estranhei tudo. Perdi seis quilos, a comida é muito picante e diferente do que eu estava habituado e o calor infernal. Devido aos combates que estava a fazer em Bangkok, em 2006 houve uma tentativa de rapto a um familiar e amigos que estavam a passar férias comigo. Noutra altura, em 2007 tentaram esfaquear-me quando me dirigia para o ringue. Tive de sair do país por uns tempos.
Apesar de ser um país muito bonito e agradável para férias, existe muita mafia, e quando se aposta muito dinheiro tudo conta. O MuayThai movimenta milhões. Para além dos combates tinha imensos convites para palestras em escolas e universidades sobre alta competição e para dar estágios.

Como foi a integração?
Os primeiros seis meses foram muito complicados, como já disse perdi muito peso, era tudo novo e muito diferente dos meus hábitos e costumes. Os treinos super intensos, o calor de morrer, imensos mosquitos e a comida super picante. Mas lá está, ao princípio tudo custa um pouco. A força, a vontade e determinação acabam sempre por fazer a diferença.
  
Como lidou com uma língua tão diferente?
Difícil, muito difícil. Foi um grande entrave. Como não falava tailandês nem eles falavam, ou falam muito mal inglês, foi complicado, com muitos mal entendidos à mistura mas hoje, e passados 14 anos, já domino bem o idioma.

E em termos de gastronomia?
Apesar de muito picante e totalmente diferente, é muito boa. Recomendo uma sopa de marisco que se chama Tom-Yum, a famosa massa frita PadThai e os “petiscos voadores” (insectos fritos, tipo gafanhotos). Uma delícia (risos).

Como avalia a experiência na Tailândia?
Sem sombra de dúvida, e passados estes 14 anos, uma experiência fantástica, quer pelo lado bom quer pelo menos bom (tiramos sempre lições).
Fui campeão do mundo, viajei imenso, ganhei muito e o mais importante: o meu filho luso-tailandês.

Como caracteriza o povo tailandês?
Muito simpático, muito humilde, educado e sempre pronto a ajudar, apesar dos extremos que há entre a pobreza e a riqueza. Devido à religião budista têm uma maneira muito prática de estar e ver a vida.
E o que mais marcou na Tailândia?
A pobreza. Nos últimos três anos estive ligado a algumas acções de caridade e fiquei extremamente impressionado, pois apesar de grande pobreza as pessoas têm sempre um sorriso. É uma bondade verdadeira.

Para quando lançar um livro acerca dessa epopeia no mundo?
Um dia. Desde que estou em Portugal já surgiram algumas propostas para que isso fosse feito. Tenho de pensar bem. Há muito material (fotos, videos, jornais, revistas, cartazes), muitas histórias que se passaram e teria que ser feita uma grande triagem devido ao facto da maior parte da informação estar em tailandês e japonês.     

                     

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