Face a face!.... com a Susana Goulart Costa

“Qualquer artista nos Açores tem potenciais desafios que não encontra na azáfama cultural de Nova Iorque”

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Professora Universitária-Historiadora e, actualmente, Directora Regional da Cultura dos Açores

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Tirei a licenciatura em História na Universidade de Lisboa e, desde 1991, sou professora na Universidade dos Açores. Defendi o Doutoramento em 2004 e, em 2017, apresentei as provas de Agregação em História na Universidade dos Açores. Desenvolvi actividade na Universidade até 2016, quando assumi as responsabilidades de deputada regional e, desde finais de 2018, ocupo as funções de Directora Regional da Cultura.

Como se define a nível profissional?
Ao longo de mais de 25 anos a desempenhar actividades académicas, em primeiro lugar tenho um profundo respeito pelos alunos, sejam eles de Licenciatura, Mestrado ou Doutoramento. Tento leccionar com conteúdos actualizados e problematizar as questões, despertando o espírito critico dos estudantes, que considero fundamental ao nível do Ensino Superior. Também dei vários cursos na Área da Aprendizagem ao Longo da Vida da Universidade dos Açores durante dez anos, que foi igualmente uma experiência excelente perante os desafios que o público adulto e mais experiente nos lança, fazendo com que fosse uma aprendizagem mútua. 

Quais as suas responsabilidades?
Actualmente, as responsabilidades são complexas, mas também fascinantes. A Direcção Regional da Cultura dos Açores tem uma presença efectiva nas nove ilhas dos Açores, gere mais de 300 funcionários e um investimento que, para 2020, será quase de 14 milhões de euros. As nossas três bibliotecas estão abertas todos os dias, com excepção do Domingo. Os Museus estão abertos diariamente, excepto à Segunda-feira. Esta dinâmica apresenta exigências logísticas elevadas, para as quais conto não só com a colaboração dos Serviços da Dirceção Regional centrados em Angra do Heroísmo, mas também com o trabalho desenvolvido por todos os directores dos museus e bibliotecas. Entre a defesa do património construído, o desenvolvimento de actividades em parceria com as variadas entidades culturais que existem nas nove ilhas, a promoção da arte nas suas várias manifestações, os incentivos à leitura em várias plataformas e tipologias, a gestão dos museus que pertencem ao Governo Regional dos Açores, a conservação, recolha e divulgação de peças com valor patrimonial, a promoção do património baleeiro e a projecção da cultura insular, seja através de eventos, exposições, espectáculos e em plataformas online, a nossa principal preocupação é reforçar a arte como ferramenta de cidadania e de pensamento critico, que observa, pensa e discute os desafios da sociedade de uma forma diferente dos campos tradicionais. 

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família de hoje continua a desempenhar um papel muito relevante na sociedade, como sempre desempenhou.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
A família tradicional a que se refere é uma família que não é muito antiga, tem cerca de 150-200 anos, uma vez que se consolidou no século XIX. A estrutura familiar anterior era diferente, com outra amplitude e esta mutação ao longo dos tempos é a forma como as pessoas com vínculos genéticos se vão adaptando aos desafios sociais. Esta adaptação é uma das principais características humanas e, tal como no século XIX, quando as pessoas foram adoptando o novo modelo que hoje é referido como tradicional, acredito que haverá capacidades para garantir às novas gerações a estabilidade emocional, afetiva e económica que define a família, tenha ela o enquadramento que tiver.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A sociedade está a evoluir com uma rapidez e eficiência extraordinária do ponto de vista tecnológico. Esta rapidez poderá vir a causar, ainda neste século, um retrocesso na esperança de vida e exigir uma reflexão social e política do modelo europeu que nos é mais próximo. A minha formação em História leva-me sempre a contextualizar os fenómenos na longa estrutura e não no imediato. A mudança é fundamental para a sobrevivência social e o principal desafio é, com base neste conhecimento do que se passou há séculos, perceber as implicações das alterações atuais e tentar lidar com elas de forma a beneficiar o maior número de pessoas. 
Curiosamente, um dos paradoxos dos tempos presentes é, no meu entender, a proliferação de tecnologia (temos máquinas para fazer quase tudo) e muitos de nós estamos sempre a queixarmo-nos da falta de tempo…


Que importância têm os amigos na sua vida?
Poucos, mas bons. 

 Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Gosto de ler, de cinema e de desporto, embora ultimamente não tenha muito tempo livre. 

Que sonhos alimentou em criança? 
Queria ser bailarina profissional! É uma carreira muito exigente do ponto de vista técnico e não consegui.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
Incomoda-me a sobranceria. Admiro a inteligência. 

Que características mais admira no sexo oposto? 
Inteligência e sentido de humor. 

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Leio muito, quer livros da minha área (História), quer ensaios e literatura. Entre Eça, Saramago, Austen e novos autores que surgem, geralmente leio mais do que um livro ao mesmo tempo.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais? 
De forma equilibrada, creio eu, ou seja, gosto de ler e de acompanhar, mas não de forma viciante.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? 
Conseguia viver, claro, mas seria mais lenta a identificar as questões, a obter informação e a dar respostas. Todavia, mais informação não significa mais conhecimento, pois conhecer implica questionar, comparar, criticar e pensar. Consultar uma página web que nos dá milhares de resultados em poucos segundos não significa que se consiga relacionar e apreender tudo o que nos chega. Este é o desafio actual, uma vez que temos muita informação, que nem sempre é acompanhada por conhecimento.  Por isso é que a educação e o sequente espírito critico são fundamentais: não basta saber ler, é preciso perceber e descodificar o que estamos a ler. 

Costuma ler jornais?
Sim.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto sempre de viajar e há uns anos fiz um cruzeiro pelo mediterrâneo que foi uma experiência muito interessante. Mas também gosto muito de Lisboa (onde cresci) e do Porto.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Como de tudo, embora não muito. 

 Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?

 Como vê o fenómeno da pobreza nos Açores e, no caso particular do Nordeste? Em sua opinião, que soluções se poderiam adoptar?
O Governo Regional dos Açores está a implementar a Estratégia de Combate à Pobreza e Exclusão Social que tem uma linha de trabalho de proximidade com a comunidade, dotando-a com novas ferramentas que lhe permitam responder aos desafios sociais constantes.  A pobreza está, de uma forma geral, relacionada com a fragilidade na Educação e a articulação da Estratégia de Combate à Pobreza e Exclusão Social com o Processo, programa que também está a ser desenvolvido na Região, são linhas de trabalho fundamentais. 

Qual a máxima que o/a inspira?
Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem. 

Em que Época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Apesar de ter formação em História e ter um particular interesse no século XIX, gosto dos tempos actuais pela paridade social e de género que permitem, mesmo que saibamos que ainda há trabalho a fazer neste sector, e pelo conforto que a tecnologia nos permite: água canalizada, luz eléctrica, transportes rápidos, etc.

O investimento do Governo dos Açores na Cultura tem sido suficiente? Dá para fazer o quê? Se houvesse maior investimento, o que se poderia fazer mais?
O investimento para a Cultura nos Açores permite continuar a investir neste sector fundamental de forma sustentada e dá para fazer muito, o que, aliás, é visível no dinamismo cultural que existe, quer com apoio governamental, quer não, o que é um sinal muito positivo. Claro que há sempre ambição de fazer mais e, neste sentido, apontaria três questões que merecem a minha atenção: por um lado, apostar na coesão cultural, ou seja, fomentar uma maior circulação dos artistas entre as ilhas dos Açores; em segundo lugar, apostar mais na promoção cultural fora do arquipélago, quer em território nacional, quer internacional; por fim, permitir que, perante a maturidade e a qualidade que muitos dos artistas e produtores culturais apresentam já hoje nos Açores, dar ferramentas que lhes permita programar a médio prazo, ou seja, com base em financiamentos plurianuais. 

Que políticas têm sido adoptadas para estimular a criação cultural e artística nos Açores?
O Governo Regional dos Açores tem programas de apoio financeiro para a Cultura que abrem todos os anos. Além do mais, tem prémios que se materializam de forma financeira em várias áreas artísticas, como a escultura, a fotografia, a arquitetura, cinema e literatura. Também tem apostado na formação e nas residências artísticas em áreas culturais diferentes. 

“A produção/criação cultural em ilhas como os Açores enfrenta desafios maiores do que noutros locais”. Quer comentar esta afirmação?
A afirmação deve sustentar-se na questão geográfica, que dificulta a circulação artística pelo facto de sermos um arquipélago. Contudo, por outro lado, a beleza singular de cada uma das nove ilhas é uma inspiração para a arte e, neste sentido, qualquer artista nos Açores tem potenciais desafios que não encontra, por exemplo, na azáfama cultural de Nova Iorque, onde a concorrência é gigantesca. Não são desafios melhores, nem piores, mas sim diferentes e a arte é sensível a esta especificidade e os artistas açorianas têm sabido responder com sucesso às dificuldades que sentem. 

A Cultura deve estar ligada com outras áreas do saber, desde a economia ao social. De que forma se faz esta ligação nos Açores?
Esta ligação é uma missão pública, mas também social e empresarial. A Direção Regional da Cultura trabalha com as escolas, com os lares de idosos, com as casas do povo, com as juntas de freguesia, com as câmaras municipais divulgando, promovendo e colaborando em múltiplas iniciativas. Mas precisamos que todos colaborem, pois a cultura não é do Governo Regional dos Açores, é de todos e as parcerias com agentes sociais e empresariais são fundamentais, quer por iniciativa pública, quer privada. 

Os investigadores foram desafiados a preencher hiatos identificados agora na arte dos Açores. Qual o estado da Arte conhecida nos Açores?
Com a publicação da obra História da Arte nos Açores, em 2018, estamos perante um conhecimento muito elevado, não só do que existe, mas também dos eixos nos quais é preciso pesquisar mais. É um diagnóstico muito importante da qualidade da arte que, ao longo de cinco séculos, se foi registando nas ilhas, dos seus autores, dos agentes promotores e das alterações que esta arte sofreu ao longo do tempo, quer pela passagem do tempo, quer pela absorção de novos modelos artísticos. 

A Direcção Regional da Cultura não deveria incentivar os agentes culturais nos Açores a trabalhar em rede para rentabilizar as iniciativas que tomam e evitar desperdícios?
É o que estamos a fazer.

O Património Cultural Subaquático dos Açores proporciona Uma Viagem pelos Tesouros do Mar dos Açores. Em que medida uma futura exploração destes tesouros põe em risco este património. Qual a sua opinião?
A Direção Regional da Cultura promove e protege o património Cultural Subaquático dos Açores, ou seja, não estamos apenas a investir na divulgação, mas esta é sustentada e orientada pedagogicamente para a defesa e salvaguarda deste (e de todo) o património. Por isso, a exploração dos tesouros que refere é fruto de parcerias entre a Direção Regional da Cultura, os agentes culturais, os Operadores Turísticos, as Associações de Mergulho, etc, precisamente para não pormos em risco este património. 

O que se tem feito para que a rota dos Museus dos Açores seja apreciada por locais e turistas?
Temos promovido a visita aos Museus tutelados pelo Governo Regional com a divulgação em vários suportes e com uma programação que apresenta cada vez maior qualidade, graças ao esforço de todos os diretores das Bibliotecas e Museus da Direção Regional da Cultura. 

Há muitos livros a serem editados nos Açores. Como a Direcção Regional da Cultura separa o trigo do joio?
De uma forma prática, o melhor agente para separar o trigo do joio é a comunidade de leitores e as Editoras têm o seu plano de investimentos que justifica que divulguem determinados autores em detrimento de outros. Por outro lado, temos o Plano Regional de Leitura, com uma comissão de peritos, que identifica os livros que devem ter destaque como leituras aconselháveis a adoptar nos vários graus de ensino. No âmbito dos apoios para a edição de obras, a Direcção Regional da Cultura convida um júri independente para apreciar as obras candidatas, ou seja, confia em especialistas para distinguir o trigo do joio. 

                                                

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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