“A genética é uma das chaves para a rentabilidade das explorações pecuárias”

Mesmo quem não é apaixonado por vacas e, por isso, não acorda às 5h00, todos os dias, chova, faça vento ou sol, para as alimentar e ordenhar, mesmo o cidadão comum sente-se mobilizado pelo interesse que desperta uma palestra onde se afirma que hoje já se pode saber qual a produção média de leite de uma vitela (a vaca à nascença), qual serão os seus parâmetros de saúde e qual será a sua longevidade. E já se estuda a possibilidade de saber tudo isso pelo teste a um embrião. Ou seja, já nem será preciso que a vitela nasça para que se saiba se vai ser uma boa produtora de leite e que índices de proteína e gordura terá o seu leite, conhecendo-se que, quanto mais proteína e gordura, tanto melhor para o produtor e para a indústria.
O produtor nacional de leite, Júlio Amorim, um dos associados da Associação Holstein Genetics, esteve no Pavilhão de São Miguel, nas instalações da Associação Agrícola de São Miguel, a falar de um presente da genética que, nos Açores, só conhece quem tem grande interesse e paixão por vacas e de um futuro que muito poucos sabem que vai existir.
A conferência de Júlio Amorim acontece num momento em que os agricultores micaelenses atravessam uma série de dificuldades, ao nível do rendimento, pela insistência da indústria em não subir o preço do leite à produção e a incapacidade do governo de fazer valer junto dos industriais que os lucros do leite são para derramar, de forma justa, por toda a fileira do leite.
Júlio Amorim começou mesmo por afirmar que os produtores que vivem o sector com o coração, “acreditam na genética, acreditam nas vacas, acreditam na produção de leite e mesmo com todas as adversidades que surgem no sector, continuam a acreditar e a fazer valer o ponto de vista de que, realmente, vale a pena ser produtor de leite e vale a pena ter vacas. E, acima de tudo, vacas da raça Holstein. É em tudo isso que acreditamos com mais fervor”, concluiu.
É esta paixão pelas vacas que levou à criação da Associação Holstein Genetics. “Sentimos que alguma coisa estava a acontecer no mercado mundial da genética e nós estávamos muito parados. Continuávamos na nossa vidinha, metidos dentro das nossas explorações a fazer o que fazemos todos os dias”.
E, entretanto, prosseguiu, “havia muita coisa a acontecer no mundo da genética” que passava ao lado dos produtores portugueses. Então, disse, “começamos pelo mais difícil que foi procurar alguma informação e procurar animais que, realmente, acrescentassem valor aos animais que nós já tínhamos nas nossas explorações. Começamos a comprar animais para fazer uma base genética e, desta forma, trabalhar em embriões. Mais recentemente, fizemos importações de embriões das melhores famílias de vacas do mundo. E fizemo-lo nas mais diversas vertentes”. O objectivo da Associação “é produzir embriões, é vender embriões, porque acreditamos que o nível genético das explorações pecuárias em Portugal tem muito por onde crescer”. 
E uma das formas de atingir este objectivo “é utilizar os melhores touros que estejam disponíveis no mercado. No entanto, para utilizarmos este sémen, vamos utilizá-lo numa vaca. E o touro pode ser espectacular mas, na eventualidade de a vaca não o ser, o progresso genético vai acontecer muito mais lentamente. A forma de o fazer muito mais rapidamente é comprar um embrião aonde a dadora e o touro com a qual foi emparelhada sejam os dois de nível muito elevado. O animal que nascer, resultado deste embrião, será um a cinco patamares acima do efectivo da exploração agrícola. E a partir deste animal, há que fazer todo um trabalho da sua multiplicação, quer seja por recolha de embriões através da fertilização in vitro, utilização de sémen sexado e toda uma panóplia de opções que existem”.
O produtor continental deixou claro que a genética, neste momento, “é uma das chaves para a rentabilidade das explorações pecuárias”, de forma complementar à produção do leite.
É esta a razão porque “queremos também dinamizar o mercado da genética em Portugal. Pela Europa fora e pelo mundo fora, existe um mercado da genética muito forte e, em Portugal, o nosso mercado está muito parado. Falta um pouco de dinamismo e nós queremos trazer este dinamismo ao mercado da genética”, afirmou. 

A genética é um investimento

Júlio Amorim falou, em sequência, sobre aquilo que todos já sabemos: “Que houve, nos últimos anos, uma melhoria muito grande na alimentação dos animais. Começou a fazer-se melhores alimentações, e alimentações mais equilibradas com os animais a produzirem mais leite. No conforto dos animais também se gastou algum dinheiro, também se investiu. E, portanto, os animais hoje produzem em média mais do que produziam há alguns anos atrás”. 
Portanto, referiu o produtor, “já estamos a um nível em que apenas nos faltam pequenas coisas. E estas pequenas coisas acreditamos que é a genética do animal e a potencialidade de o animal converter o alimento que lhe colocámos na boca no leite que lhe retiramos. A vaca é o elemento de conversão”. 
Comparou a vaca a um motor. “Nós colocamos gasolina e ele dá-nos velocidade ou força ou o que é que seja. Mas este motor se transformar uma parte desta energia só em calor ou em fumo, nós gastamos muito combustível mas não colhemos o que lá procuramos que é a velocidade, a força. Nos animais é igual. Se nós lhe dermos alimento e elas não converterem tudo em leite, não estamos a ser eficientes. Estamos a perder dinheiro algures por aí e não estamos a converte-lo em leite que é o que nós procuramos”. 
A aposta da associação na genética vai ser feita através da criação de uma plataforma de comercialização de embriões que, seguramente, estará em funcionamento até ao final do ano. “Pretendemos que esta plataforma seja um factor de contacto entre os produtores que têm embriões para vender e o consumidor que queira adquirir estes embriões”, explicou Júlio Amorim. 

Ter que investir em ambiente 
de desânimo

“Qualquer agricultor que queira vender embriões poderá entrar em contacto connosco. Nós publicitaremos na nossa página. Iremos trabalhar estes embriões e se, eventualmente, houver clientes para eles, nós encaminhamos o negócio. Somos o elemento que pretende estabelecer esta parceria e tentar que os embriões sejam uma tecnologia mais barata” isto porque “se tivermos embriões em quantidade, vamos conseguir baixar alguns custos fixos “.
“Queremos vender material genético dos melhores animais, do que melhor existe neste momento para ser vendido. E, lá está, intensificar a utilização dos embriões para o objectivo que cada produtor definir. É importante que o produtor perceba para onde quer caminhar perante a série de opções que tem para escolher”. 
 “A principal abordagem que temos de fazer”, prosseguiu o produtor, “é que a genética não é um custo. É um investimento a longo prazo, que é muito lento, é muito moroso e, pelo meio, há alguns dissabores. Se não houvesse seria espectacular, mas há…”, afirmou.
E, prosseguiu, “uma das formas de podermos planear o investimento é perceber, antes de mais, o que temos dentro da exploração agrícola. Temos de entender o que é que temos para poder decidir de que forma investir. E existem algumas ferramentas de avaliação”.
“Para conhecermos o nosso efectivo”, explicou, “temos que ter registos fiáveis e fidedignos. Temos de ter o máximo de informação compilada para poder olhar e perceber, efectivamente, quem é aquele animal, se é produtivo, se não é produtivo, quem é a mãe e o pai, o avô e o bisavô. Temos de ter esta informação toda registada e com credibilidade. E, infelizmente, ainda há falta de informação”. 
E como é que se avalia o efectivo bovino? “Podemos avaliar pelo pedigree que é o mais usual. E podemos fazer uma outra abordagem e avaliar o efectivo de uma forma mais ampla que é ver quais foram os touros que utilizamos nos últimos 15 a 20 ano, qual era o valor genético destes touros e entender onde é que será que estamos posicionados”. 
“Existem também os programas de emparelhamento das empresas de inseminação que fazem uma leitura muito interessante das explorações dos nossos animais a nível individual e temos, por fim, os testes genómicos que é uma ferramenta, eventualmente a mais fiável, mas também é a que tem um custo mais elevado. Mas faz sentido a sua utilização”. 
“Através do teste genómico, consegue-se determinar em laboratório o DNA do animal e identificam-se os genes que estão contidos no DNA e quais são os que se podem manifestar ou não no animal. E a partir daí pode-se determinar qual o valor genético do animal. Esta informação é cruzada com a informação do pedigree (a linha genealógica) e dá-nos o valor do animal”. 
“É pela via deste teste que se consegue verificar as potencialidades e vulnerabilidades de uma vaca  e determinar o seu futuro da, se é para manter na exploração, se é para deixar filhas ou para rejeitar”.
A partir da fórmula TPI consegue-se, então, determinar, os níveis de produção de leite e a qualidade do leite no futuro, de uma vitela acabada de nascer ou as potencialidades de vitelo, sabendo se será ou não um bom reprodutor.
Ao longo da sua intervenção, Júlio Amorim pormenorizou de que forma se pode tornar uma manda mais rentável no presente e como ela pode atingir a excelência no futuro, obviamente com investimento. 
E, nesta altura, em que o desânimo e está a instalar no seio dos agricultores micaelenses devido à redução do rendimento por a indústria insistir em manter o preço do leite dos Açores o mais barato da Europa, não há muita margem para investimento. O resultado “está a ser baixar os braços…”
                                           

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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