“Quem faz evoluir a Igreja não é só a Igreja mas sim o Espírito Santo”

A Igreja católica, à semelhança do que acontece com outras religiões, ao longo dos tempos tem-se deparado com novas ideologias, postuladoras de novos movimentos, enraizadas num pensamento contemporâneo assente num discurso de pensadores, sugestionáveis de nova ordem e cocomitantemente de novos discursos, com recurso à Bíblia e à história do próprio cristianismo e de outras religiões. Um desses pensadores é Gianni Vattimo, um italiano liberto de preconceitos que preceitua uma nova roupagem para a acção da igreja, e o seu pensamento tem-se tornado incomodativo enquanto elemento libertador de discussão teológica/filosófica. O filósofo italiano afirma que tanto Heidegger quanto Nietzsche pensam que o fim da filosofia, em sua forma de metafísica, traz como “objecto” as errâncias desta, rememoradas numa atitude de “superação”. É a noção de rememoração da obra de Heidegger atribuído ao pensamento pós-metafísico como retomada ou repensamento, que o aproxima de Nietzsche, da “filosofia da manhã”. Como escreve Tiago da Silva Gomes: “A fraqueza ou debilidade como atributo do pensamento (pensiero debole) pretende mostrar a fraqueza do pensamento metafísico e possibilitar a abertura de espaço para as demais formas de pensamentos não-metafísicos como o da arte e da retórica. O pensamento fraco é aquele que situado no momento histórico pensa sobre todas as questões, mas não se fecha numa interpretação única e determinística. Ele é um pensamento aberto para as possibilidades, pois é passível de questionamento. É um repensamento”. O pensamento fraco é uma atitude pós-moderna que aceita o peso do “erro”, ou seja, do efémero de tudo o que é histórico e humano. É a noção de verdade que se deve adequar à dimensão humana, e não vice-versa.
E como têm surgido novas ideologias, com poder de mensagem, no âmbito das actividades formativas que têm sido promovidas a paróquia de Nossa Senhora dos Anjos, da Fajã de Baixo, promoveu no Centro Cultural Natália Correia acolheu uma iniciativa denominada “Novas Ideologias, Novas Respostas”, que teve como prelector o professor de Filosofia e político Jaime Gama, natural daquela freguesia, e antigo ministro e Presidente da Assembleia da República, que abordou “O Pensamento Débil”.
Jaime Gama refere que Vattimo, do ponto de vista individual, é uma personagem heterodoxa. “Diz ele que repudia completamente o totalitarismo soviético, as experiências, mas acha que há no fundo totem no comunismo e que está como se retorna ao que se era. Ou seja, está a fazer um caminho inverso. Mas ao longo dos tempos afastou-se, aproximou-se, até haver um reencontro com o actual Papa”. 

Partida para o pensamento débil

A desconcentração quer no texto pensante quer no texto lido criar a relação entre os dois e uma dinâmica infinita sempre enriquecida pelo que há-de vir. Cria um espaço de comunidade para a interpretação dinâmica do sentido da palavra. Isto aplica-se à Bíblia, ao texto filosófico e a outros. Há uma interação. É aqui, segundo Jaime Gama,  que Vattimo dá a partida para essa noção de pensamento débil, pensamento frágil. Ele opõe-se aos sistémicos, aos racionalistas fortes, opõe-se a todos aqueles que geraram escolas com ordenação, com vocabulário rígido, com deduções, com gráficos para explicar o pensamento e a sequência das coisas.
Mas isso não se poderá confundir com a superficialidade?, pergunta o padre José Paulo. Nunca, diz Jaime Gama.” O que ele diz é que temos que nos encontrar com aquilo que é pequeno, com aquilo que é frágil, com aquilo que é contingente, que é efémico. Isso também faz parte da totalidade da experiência. O que interessante é que Vattimo poderia ter feito este percurso para percurso frágil e chegar à conclusão ateia. Nós, com o pensamento frágil vamos desconstruir os grandes sistemas e consequentemente também vamos desconstruir Deus, vamos desconstruir as religiões, vamos desconstruir o cristianismo. Esse é o percurso feito, por exemplo, por Sartre, mas também pelos ateus radicais contemporâneos e pelos existencialistas não cristãos”. Mas o caminho de Vattimo é diferente, opina o professor açoriano, “embora este filósofo vá aplicar aos estudos bíblicos e ao cristianismo a mesma noção de pensamento frágil, de pensamento débil, porque vai dizer que o cristianismo se opõe às religiões fortes e que Jesus representa uma ruptura com o Deus temeroso, altivo das religiões tradicionais das religiões pré-cristãos”. Portanto, na leitura de Jaime Gama sobre o pensamento de Vattimo, “o cristianismo vai ser uma religião sem religião e de ruptura com as religiões tradicionais. O que tem levado a conflitos mais políticos com o judeismo, porque esta noção diz respeito à religião de pensamento forte de Vattimo. A noção que ele tem é a de que o cristianismo é uma religião tão de ruptura em relação às religiões totémicas, míticas e mágicas, que acaba por abrir um espaço de liberdade ao ser humano, tão grande que até se pode dizer que a negação de Deus vem a ser no cristinianismo algo que é consentido, cristianismo encarnandon uma mensagem de Deus que é homem e que não é o Deus dos totems, porque o Deus dos Totems é sempre culpado e depois divinizado”. 
O acto de vitimação totémica é sempre celebrado sobre alguém que tem culpa, lembra Gama. Por isso é que “a religião totémica é uma religião sacrificial, mas no caso do cristianismo Jesus é inocente e não culpado, e sendo inocente reverte as religiões fortes para uma religião fraca, no sentido de próxima do homem. Uma religião em que, segundo Vattimo, citado por Gama, é mais importante a caridade do que a verdade. Ou seja, “é mais importante o estudo da ética gerada pela caridade do que a pesquisa do conhecimento cientifico e/ou intelectual. Ninguém nos é capaz de ensinar academicamente a acreditar. Mesmo para acreditar é preciso acreditar em acreditar. Só na cultura italiana é que é capaz de nascer esta tensão nos limites da reflexão sobre a filosofia  e nos limites da reflexão sobre cristianismo, tal como nos filmes de Felini, tal como na obra de Pazolini, entre outros”.
Esta teoria de Vattimo terá mudado algo?, questiona o jornalista José Gabriel Ávila. À questão, Jaime Gama refere que hoje há nas sociedades modernas a tensão inter-religiosa e no espaço cristão e no espaço católico essa teoria de Vattimo terá mudado algo. “Tendo em conta o campo das religiões minoritárias, o campo da reforma protestante, o campo do ateísmo, claramente assumido, mas depois há um espaço meta-católico que envolve hoje muito o que hoje podemos considerar católicos culturais, católicos do silêncio e pessoas que têm uma vivência religiosa mas que não têm uma ligação orgânica igreja concreta, pessoas que têm uma cultura cristã mas que até quando procuram uma expressão religiosa vão buscar os padrões religiosos da sua infância católica mas que não orgânicos praticantes que têm os seus ritos, as partilhas, mas não deixam de estar fora desse campo. O que é interessantes verificar é que hoje na sociedade se abrem zonas de diálogo e de comunicação muito importante entre todos, pois estas pessoas são seres concretos que sofrem as vicissitudes do que é a vida moderna. É importante que esse diálogo exista, tal como se faz em Espanha com Fernando Savater, embora seja mais ordenado que o Vattimo”.


A evolução...

No que se refere ao conceito de verdade, o cristianismo afirma que tem verdades indiscutíveis mas evolui, diz Jaime Gama, mas lembrando também que “quem faz evoluir a Igreja não é só a Igreja mas sim o Espírito Santo. Mas a Igreja abre-se, tem esperança, não é estática, e mesmo os totems podem ser substituídos por outros, e têm-no sido ao longo da história. Ou seja, não haja a noção de que tudo está para sempre no princípio, até porque no principio até não havia Igreja”. Esta noção de abertura e de tensão, criada por Vattimo, também é algo que ao longo dos tempos, segundo o académico, vai fazendo a Igreja, a qual vive esta tensão”. Para Jaime Gama há dois lados, “aqueles que querem mudar para agradar, que também é uma fraqueza, e há os que não querem mudar porque receiam a mudança, também é uma fraqueza”. 
A partir do momento que Vattimo coloca em causa a própria escolástica, há uma série de valores que desaparecem, mas aqui Jaime Gama faz a leitura de que “isso não pode ser interpretado à luz de uma qualquer retórica clerical, jacobina do século XIX-XX, mas sim no sentido de dizer que os deuses poderosos totémicos, pré-cristicos já não têm lugar, mas ele vai fundar essa morte do deus normativo numa mensagem a Jesus e não retirando nunca à dimensão crística a dimensão divina”. 
 Vattimo não é um téologo, garante Jaime Gama, “tem razões imensas de fricção com a  Igreja, é homossexual, defende o fim do celibato dos padres, é a favor da ordenação de mulheres, tem as derivas vegan do vegetarianismo, tem as tentações deambulatórias da protecção incondicional do animal. É um ser humano, não é um santo!” O que é importante – diz Jaime Gama – é que do lado cristão na Itália e fora dela tem havido diálogo com ele, porque ele situa-se também no campo cristão.
Começa por ser um jovem da acção católica, depois tem um percurso muito de esquerda, mas a seguir sai de uma ligação ao comunismo ortodoxo e ao marxismo clássico. Não se pode considerar este filósofo como marxista mas o seu percurso político leva-o a ir colando ao que fez transformar o partido comunista italiano, depois envolve-se no movimento di Pietro. Abandonou o Catolicismo e aproximou-se da Igreja Evangélica Valdense.
                 

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