1 de dezembro de 2019

A carta de Greccio

S. Francisco de Assis foi pela primeira vez a Greccio por volta de 1209, numa altura em que a pequena cidade sofria o ataque de lobos ferozes, que dizimavam rebanhos, destruíam vinhedos e chegavam a atacar pessoas. Com a chegada do santo, o flagelo acabou e, sobretudo, deu-se uma profunda conversão de toda a cidade. S. Francisco costumava dizer aos seus confrades que «não existe nenhuma cidade grande em que se tenha convertido tanta gente a Nosso Senhor do que nesta terra tão pequenina».
Os habitantes de Greccio entregaram-se de alma e coração a Francisco e imploravam-lhe que ficasse com eles para sempre. Giovanni Velita, o castelão do lugar, tornou-se um dos maiores amigos de Francisco e visitava-o frequentemente na cabana em que ele vivia, no alto da montanha. Foi em atenção à dificuldade do seu amigo Giovanni Velita para fazer aquelas subidas que S. Francisco concordou em mudar-se para perto da cidade.
Poucos anos depois, mais precisamente no dia 29 de Novembro de 1223, o Papa Honório III aprovou a Regra da Ordem fundada por S. Francisco. A criatividade desconcertante do santo ficou patente na audiência que o Papa lhe concedeu nessa ocasião, quando manifestou que o projecto que o entusiasmava era representar em tamanho grande a cena do Natal. A viagem à Terra Santa tinha-o impressionado tanto, em particular a visita a Belém, que queria reproduzir em Greccio o Presépio de Belém. Aliás, parecia-lhe ver uma certa parecença entre as encostas de Belém e as montanhas de Greccio.
Animado pela benevolência do Papa, Francisco chegou a Greccio disposto a realizar o plano. Convocou imediatamente o seu amigo Giovanni Velita para que arranjasse uma gruta que fizesse lembrar a de Belém, com um burro a sério e um boi. Alticama, a mulher de Giovanni, preparou com as próprias mãos a imagem do Menino. Em 15 dias de intenso trabalho, estava completado o presépio. Dizem as crónicas antigas que, depois das canseiras, «veio o dia da alegria, chegou o tempo da exultação!».
Francisco manda arautos pela comarca a convocar os habitantes. Numerosos frades acorrem de vários locais. Naquela noite santa de Natal de 1223, a multidão caminha em procissão piedosa rumo à gruta. Francisco fala-lhes emocionado de Deus feito Homem reclinado numa manjedoura. Comove-se com aquela pobreza divina e com a ternura de Jesus por nós, pega no menino e beija-o, dança com ele ao colo. Diz a crónica antiga – fosse propriamente milagre ou devoção do povo – que o bebé que Francisco apertava ao peito estava vivo e que, naquela noite, dormiu realmente um bebé lindíssimo nas palhinhas da manjedoura.
Esta cena, ocorrida há quase 800 anos atrás, repete-se hoje nos cinco continentes em presépios de todos os estilos e tamanhos, convidando-nos a contemplar Jesus Menino.
Há 2000 anos, os Anjos anunciaram aos pastores da região de Belém que iriam encontrar um bebé envolto em panos, reclinado numa manjedoura, e os pastores foram a correr contemplá-Lo. Para nos dar exemplo, S. Lucas sublinha que foram a correr e que, depois de O verem, regressaram cheios de alegria e glorificavam a Deus por aquilo que tinham visto e ouvido.
Se os cristãos se deixassem surpreender pela pobreza do Natal, se corressem um pouco e compreendessem a estratégia divina do presépio...
Hoje, Domingo, dia 1 de Dezembro, o Papa Francisco vai a Greccio rezar no local em que S. Francisco montou o primeiro presépio. Já tinha ido lá em 2016, numa viagem que só se soube depois. Desta vez, é uma viagem anunciada e com um ingrediente especial: o Papa vai assinar no santuário de Greccio uma Carta, dirigida a todo o povo cristão, acerca do significado do presépio.


 

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Categorias: Opinião

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