1 de dezembro de 2019

Entre o passado e o futuro

25 de novembro e as datas nacionais

O poder político cobria-se de vergonha no plano internacional, de orgulhos e temores ancilosantes dentro de fronteiras. De pusilanimidade em todos os domínios.
A guerra sem sentido, nem glória possível, destruidora da juventude, que irracional e obsessivamente o País mantinha contra as suas províncias ultramarinas fizera-o perder a credibilidade junto das nações amigas e o domínio político das suas forças armadas.
Internamente, sumia-se o “ditador” glorificado e chefe do Governo que valia mais do que o Presidente da República. Mesmo depois de destituído, o medo que sempre se apodera dos pusilânimes, no caso, governantes, assegurava que o ditador vivesse o que não vivia. Dentro das quatro paredes do nosocómio que o albergava, representou para si próprio o que fora de realização pessoal num passado longo, tanto quanto lho permitia a alucinação da doença e o fingimento dos políticos amigos, até que a irrevogável lei da morte o encontrou. Governava, apenas para si, mas também para os que, reverencialmente, sucedendo-lhe, tinham aceitado dar vã esperança à Nação que resignada, de quando em vez, recordava ter dado ao Mundo o Mundo todo. Olhando para o seu umbigo, os governantes concluíam que evoluir na continuidade e colorir os mitos e preconceitos que povoavam a alma nacional lhes garantiria a estabilidade da governação nacional. Não foi assim, e apesar dos passarinhos, não chegava a “primavera”…
Literalmente sem “rei nem roque”, o País – o seu povo e as suas instituições - cada vez mais necessitado dum “futuro”, como clarificava, em livro que publicara, um general do antigo regime, foi sobressaltado no seu estado de resignação por uma coluna militar motorizada, posta em marcha ao som duma canção de amor, intitulada “Depois do Adeus”… Sim foi o “adeus” ao ditador, às armas e à cauda da Europa, sintetizado pelo marketing revolucionário em três “D”: democracia, descolonização e desenvolvimento.
Na noite de 24 para 25 de abril, a coluna militar percorreu uma centena de quilómetros como se fosse uma caravana, percorreu Lisboa como se fosse o 28 da Carris, parou no Carmo e, junto às suas ruínas, assumiu o governo de Portugal como se fosse o povo unido. Estava consumada a Revolução dos Cravos, mas não a democracia. De seguida, chocar-se-iam as tradicionais opções políticas sobre o modelo político que haveria de substituir a derrubada ditadura. 
Despontaram dentro do movimento militar as opções políticas inspiradas pelos principais exemplos mundiais de governação dos Estados, os extremos da esquerda e da direita. As noites foram curtas e o consenso entre os heróis cada vez mais escasso. Ainda disponham das armas que em abril não tinham usado. Contaram-nas, e foram para a luta em 25 de novembro de 1975. Porém, tal como em abril de 1974, acabariam por vencer aqueles que preferiam a liberdade, a democracia e a esperança de progresso formada nacionalmente. Não foi uma vitória da direita nem uma derrota da esquerda foi uma clarificação dentro do movimento das “forças armadas”, a conclusão de um “processo revolucionário” cujo “curso” havia de terminar naquele novembro.
Os acontecimentos de abril e de novembro, nos anos em que ocorreram, não são equiparáveis em natureza nem em objetivos nem em relevância institucional. Logo, as datas não são equivalentes. Logo, a equiparação não tem fundamento. Logo, se há “idos”, são os de novembro. A similitude é falsa. É um exagero.
O facto dum deputado ter querido festejar o 25 de novembro de 75 como se de um outro 25 de abril de 74 se tratasse não é motivo bastante para toda a “excitação política” e nervosismo que suscitou ao mais alto nível de Estado. Só a representatividade ou as armas, que ele não possui, permitiria que por sua “iniciativa particular” ousasse apoderar-se de símbolo nacional que 27 novembro não é, mas que a precipitação da magistratura máxima quase fazia ser. Vale a pena recordar o ensinamento de Gorbachev quando lhe pediram para identificar o herói do derrube do “muro de Berlim”. A resposta foi imediata: “o povo”.
Só as grandes reformas políticas são verdadeiramente “fraturantes”, por exemplo, o 25 de Abril. E neste entendimento, tudo o que se lhe seguiu, até hoje, são “sequelas”, ou “réplicas” como os sismos, por aqui, nos ensinam. 

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Categorias: Opinião

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