Associação de Pais e Amigos das Crianças Deficientes não tem capacidade de resposta para os utentes de cuidados continuados e está à espera que o Governo intervenha

Dois anos após a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, nascia em São Miguel a Associação de Pais e Amigos das Crianças Deficientes dos Açores (APACDAA) que, com o apoio de vários pais preocupados, tinha o objectivo de ser a primeira resposta na área da deficiência do arquipélago.
Assim, para garantir que pessoas portadoras de deficiência frequentem ainda hoje “uma escola personalizada que lhes desse apoio à semelhança de todas as outras crianças”, a associação dispõe de quatro valências, nomeadamente o Centro de Actividades Ocupacionais (CAO), que conta com 70 pessoas adultas inscritas, e com três unidades residenciais que, no seu total, acolhem 33 pessoas.
Porém, adianta a presidente desta associação, para que seja possível “dar resposta às necessidades dos pais e de todos os nossos utentes”, por vezes este número é ultrapassado, devido sobretudo à longa lista de espera e ao facto de não haver, neste momento, capacidade para dar resposta a esta lista.
“É muito difícil dizer que não. Além disso a nossa lista de espera é muito longa e não conseguimos ter capacidade para dar resposta a ela. São muitas as solicitações e, de facto, nós não conseguimos. Temos lotação esgotada no CAO já há algum tempo e nas residências também”, explica Maria de Jesus Pacheco neste Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.
De momento, adianta, o maior desafio da APACDAA reside no manter a qualidade dos serviços, algo que se deverá principalmente devido ao aumento do custo de vida e também às alterações que ocorreram na forma de financiamento da associação, sendo actualmente atribuído um valor por cada utente, “quando anteriormente pagavam o vencimento dos funcionários e depois era atribuída uma verba para o exercício das actividades”, diz a presidente que está já no final do seu mandato.
Apesar destas alterações, salienta, os cuidados que são hoje prestados não podem ser de forma alguma revertidos, sendo por isso importante garantir que se continuem a garantir – para além de certos cuidados e da alimentação – as actividades que são extremamente importantes para os utentes, desde os trabalhos manuais à equitação ou à natação, passando ainda pela música e pela fisioterapia.
De momento, adianta Maria de Jesus Pacheco, a Associação de Pais e Amigos das Crianças Deficientes do Arquipélago dos Açores aguarda uma resposta da tutela no que diz respeito ao trabalho de reestruturação que envolve tanto os utentes como os profissionais de saúde que asseguram os cuidados daqueles que frequentam a associação, assegurando que apesar do compasso de espera os serviços prestados não se encontram em risco.
Em causa estão, explica, “respostas mais específicas” que envolvem alguns dos utentes da associação com problemas de saúde mais profundos: “Neste momento estamos a tentar negociar com a tutela a transferência destes miúdos para uma resposta onde seja possível lidarem com pessoal especializado, nomeadamente para a unidade de cuidados continuados. Temos cá miúdos com sonda e outros com oxigénio, e isto envolve uma resposta do âmbito da saúde, não da deficiência, até porque estamos a falar de pessoas que não vivem com as famílias”.
Para além dos cuidados continuados necessários, salienta a presidente da APACDAA, dentro das respostas mais específicas de que necessitam alguns utentes, estão também os cuidados na área da saúde mental, sendo por isso urgente a resposta do Governo Regional, não sendo possível pensar “que as famílias ou os sócios poderão financiar a diferença”.
“Embora a nossa gestão tenha sempre por princípio o rigor, cada vez mais temos que ser mais rigorosos. (…) Não queremos de forma alguma cortar na saúde, na alimentação ou nas outras actividades. Queríamos manter-nos tal qual estamos, só que esta associação de pais é um bocadinho atípica porque praticamente 60% da nossa população tem doentes dependentes ou com alguma deficiência profunda, e isso exige mais pessoal e exige custos”, diz.
Para além disto, Maria de Jesus Pacheco afirma que deveriam existir mais valências, principalmente no lado norte da ilha, na Povoação, nos Fenais da Ajuda ou nos Ginetes, uma vez que diariamente são feitas deslocações para esses locais da ilha de São Miguel e que acarretam custos acrescidos para a associação. 
Nesta associação estão, sobretudo, jovens e adultos, uma vez que as escolas públicas acolhem estas pessoas até ao limite da idade escolar, “exceptuando alguns casos muito específicos”, diz a presidente.
“Passada a idade escolar é que somos mais procurados e é isso que está correcto. Daí que tenhamos um centro onde procuramos desenvolver a vertente pessoal e cognitiva para que aquilo que aprenderam na escolaridade obrigatória não se perca. Deve-se manter o conhecimento quando não é possível evoluir”, explica.
Contudo, segundo aquela que é a sua opinião pessoal, Maria de Jesus Pacheco afirma que “nem sempre o ensino público será capaz de corresponder às necessidades que estas crianças têm. Percebo que a preocupação do Estado, e a nossa também, seja integrarmos os miúdos através de actividades que os integrem na sociedade, sem dúvida, mas eles precisam de um acompanhamento muito mais de perto e específico e a escola não terá essa capacidade de resposta”.
Assim, adianta, “o problema subsiste e é transversal a várias áreas, e o problema talvez seja a falta de condições especiais que as escolas deveriam ter para acolher este tipo de miúdos, para além de ter pessoal qualificado. Não digo que não haja pessoal qualificado, mas provavelmente as escolas precisam de mais professores de educação especial para permitir um acompanhamento mais permanente em relação a estas crianças”.
Para além disso, adianta, é importante ter em conta que as actividades devem adequar-se a cada pessoa, daí que “a área da deficiência exija muito em termos de recrutamento de pessoal, porque é necessário um acompanhamento permanente, (…) e isso exige não só pessoal técnico como pessoal auxiliar”.
Contudo, apesar das dificuldades, Maria de Jesus Pacheco salienta que já começa a haver uma mudança de paradigma no que diz respeito aos estigmas que existem perante a pessoa com deficiência, referindo que “apesar de ainda haver quem olhe para estas pessoas um bocadinho de lado e com algum espanto, estas pessoas devem ser apenas ser vistas como pessoas diferentes porque todas as pessoas são iguais e é necessário que se eduque os nossos filhos para isto desde a infância”.
Neste Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, a presidente da APACDAA apela ainda a que haja uma maior inclusão destas pessoas na sociedade, nomeadamente através da criação de postos de trabalho adequados às capacidades destas pessoas, função esta que deverá também caber ao Estado, através de incentivos aos empresários.
“Apelo a toda a sociedade para estar aberta a criar postos de trabalho adequados às capacidades das pessoas. A integração destas pessoas no mercado de trabalho é muito importante não só para o presente como para o futuro, (…) tanto da nossa sociedade como para a pessoa. E deixo este alerta também ao Estado, é necessário que se criem incentivos para as empresas, sejam pequenas ou grandes empresas, para que admitam nos seus quadros pessoas portadoras de deficiência”, conclui.
Joana Medeiros
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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