8 de dezembro de 2019

Impressões de um Portuense Ilhéu

Nascido na cidade do Porto, sou fruto da importância geoestratégica dos Açores no contexto da segunda guerra mundial.
Integrando o contingente militar continental que assentou praça em S, Miguel, nos anos da guerra, meu pai cedo se deixou enredar pelas brumas e encantos mágicos que brotavam dos restos da presumível desaparecida Atlântida casando, no pós guerra, com uma micaelense da Maia, e com ela regressando a Leça do Balio, ao tempo lugar idílico do Concelho de Matosinhos.
Circunstâncias trágicas ditaram que eu, em tal lugar e posteriormente na Foz do Douro, não por acaso junto ao mar, crescesse e me tornasse adolescente apenas acompanhado pela minha mãe, que durante quase dezanove anos não voltaria a sentir a doce humidade da sua amada costa norte.
Torno-me pois menino e adolescente na cidade do Porto, objetivamente minha terra, com a qual sempre tive uma identidade mitigada porquanto, ao longo de quinze anos, quotidianamente, minha mão me transmitia aquela nostalgia permanente de S. Miguel, fosse através da recepção, em casa, de amigos trabalhando na então Companhia de Carregadores Açorianos, que aportavam regularmente a Leixões, fosse com as visitas frequentes do tio Carlos Wallenstein e da tia Maria do Bom Sucesso, fosse pelas histórias da minha família, quer dos que permaneceram em S, Miguel quer dos que há muito demandaram terras das Américas.
 De tal sorte que desde cedo enraizei essa singular condição de Ilhéu, sem nunca ter visitado as ilhas, delas apenas conhecendo o que ressaltava das histórias maternas, do roteiro de Raul Brandão lido com afinco ainda muito jovem e das notas histórico geográficas transmitidas na escola primária e apregoadas no liceu.
Eis que no Natal de 1966, superando a saudade e memórias de desgraças passadas plasmadas em fúrias inerentes à natureza açoriana que levaram minha avó, tia e casa materna, minha mãe resolveu passar as festividades com a família que lhe restava em S. Miguel levando-me, naturalmente, consigo.
Iria, finalmente, conhecer a minha outra terra, não a de nascença mas aquela que moldou a minha infância e adolescência numa efabulação de um mítico local de sereias, brumas e tremores de terra. 
Abria-se pois a oportunidade para testar um universo, cheio de nevoeiros, lagoas misteriosas, mágicos vapores, paredes de basalto barrando o Atlântico e de verdes encimados por hortenses a perder de vista, realidades há muito por mim interiorizadas.
Recordo-me bem, a bordo da então Canadian Pacific Airlines rumo a Santa Maria, como este quadro traçado pela minha mãe, ao longo de anos, perpassava pela minha mente enquanto dela se apoderava a ansiedade, de verificar, in loco, toda a pujança nostálgica de uma ilhé há muito afastada da sua origem.
 A curta estadia em Santa Maria, no hotel “ Terra Nostra “,aguardando vez nos Dacotas da SATA para o destino final em S. Miguel, proporcionou à minha mãe conversas sobre pessoas e famílias dela conhecidas há muito, numa toada mista de saudade, revivalismo e ansiedade, que também de mim se apoderaram e me marcaram servindo de ante câmara para o que aí vinha.
Aterrar em Rabo de Peixe, sim no “ Aero-vacas “, receber abraços calorosos de familiares que sempre viveram comigo sem nunca com eles ter estado, confirmar materialmente tudo o que a saudade materna me tinha transmitido, fez de mim, naquele Natal de 1966, um ilhéu continental qualidade que mantenho, com orgulho, até aos dias de hoje.
Não mais parei, desde então, de regressar às ilhas, alargando o horizonte para as do grupo central, não me quedando de todo nas minhas origens micaelenses.
Atravessei o canal eternizado por Nemésio, bebi Gin tónico na Horta, deixei cair a vista na aridez dos Capelinhos, perscrutei o oceano do cume do Monte Brasil, encantei-me com Angra e auscultei, curioso, a afición taurina das gentes da Terceira e, mau grado a diversidade de paisagens e ambientes, pude constatar um traço comum nas gentes que aí habitam. 
Uma identidade aparentemente fechada e rude, a bordejar a tristeza, mas que se abre completamente a forasteiros que vierem por bem, numa hospitalidade inigualável e, de certo modo, contraditória com a idiossincrasia isolada e tímida que lhes é atribuída, dando jus à denominação de João de Melo, de serem “gente feliz com lágrimas”.
O certo é que, ao longo destes anos, venho sendo progressivamente invadido por uma crescente insularidade, cujas origens remontam à infância, e cada vez se torna mais difícil para mim regressar a casa, vindo de S. Miguel.
Questiono-me amiúde, a razão de ser de tal apego e da crescente tristeza que sinto quando abandono S. Miguel, onde não nasci nem vivi.
Julgo que a resposta para além de se poder situar nos profundos laços familiares que um açoriano sempre soube preservar e, neste particular, os meus primos não são exceção, encontra-se essencialmente no esplendor mágico e multiforme daquelas paragens.
Estar em S. Miguel, é estar num local que não só nos acolhe mas que mexe e convive permanentemente connosco. 
Esta interligação permanente entre a terra e os que nela habitam ou com ela têm ligações, seja no diálogo com a paisagem, seja no pulsar das suas entranhas, seja no peculiar isolamento atlântico, é foco de um apego a estes locais isolados e é fundamento de uma saudade insular que justifica totalmente a frase de Daniel De Sá que encima este texto e molda claramente a insularidade que em mim se enraizou. 
Sento-me nos Mosteiros, degustando um polvo, como só a gastronomia açoriana nos pode proporcionar, perscrutando o oceano e deixo-me levar pela diáspora deste povo. 
Revejo-me em Florianópolis construindo as primeiras praças desta cidade brasileira, rumo à Califórnia, onde sou armador de pesca da baleia, atravesso o Pacífico, encontrando-me no Hawai com as primitivas colonizações açorianas e, num instante, deixo-me cruzar pelo Québec, Boston, Fall River e NewarK, celebrando as festas do Senhor Santo Cristo.
Neste quadro, não posso deixar de me espantar com a coragem destes ilhéus, cujo sangue corre nas minhas veias e que nunca, ontem como hoje, se conteve nos mínimos horizontes terrestres e, como tal, enganadores, da sua terra de origem.
Soube este povo, interpretar bem o chamamento das ondas que fustigam o basalto das paredes das sua ilhas e, sem hesitar, seguindo os passos dos seus antepassados continentais, espalharam-se pelo mundo, levando para vários pontos do globo uma específica portugalidade e uma cultura única, no contexto das insularidades hodiernas, apenas comparável ao Cabo Verdiana de tempos mais recentes.
Os Raposos, os Moniz, os Botelhos, os Medeiros e outros tantos, mantêm viva a alma açoriana, reproduzem os hábitos e cultura dos seus antecessores, numa assertiva ligação às ilhas encantadas que, mau grado todo o avanço civilizacional e início de invasão turística, continuam possuídas de um mágico isolamento, que as torna peculiares no contexto insular europeu.
É neste quadro, misto de lembranças, nostalgias e visitas, que me revejo e me sinto açoriano e corisco bem amanhado.
Sofro, por vezes, com a saudade de uma terra onde não nasci, onde não vivo, mas onde permaneço, quotidianamente, todos os dias entre brumas, hortenses, colinas de chá, lagoas e um infinito verde.
Sinto-me, na verdade, um continental preso pela insularidade e, como tal, amargurado por ficar em S. Miguel, sempre que desta ilha levanto voo.
Esta saudade e atávica ligação às ilhas, construiu a minha condição de ilhéu sentindo todos os dias, mesmo na mais seca planície terrestre, a envolvência marítima da terra de Antero.
 

Rui Santos

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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