14 de dezembro de 2019

Cesto da Gávea

Amokracias

Travei conhecimento com a obra literária do austríaco Stefan Zweig, doutorado em Filosofia pela Universidade de Viena e considerado um dos mais importantes escritores/pensadores da primeira metade do século XX, quando li “Amok”, um dos seus livros mais conhecidos. Foi há quase 7 décadas, mas ainda recordo a impressão que me fez o estilo da narrativa e a própria história em si, relatando um fenómeno ocasional de loucura destruidora que os indonésios designam por amok. Importámos a expressão, lembrando-me que nos anos liceais, quando alguém se comportava de forma meio louca, dizia-se que “lhe deu um amok”. Ao ver o que acontece à nossa volta neste mundo atacado de consumismo desenfreado, parlamentarismos suicidários, populismos alastradores e outros não sei quantos “ismos” não menos enlouquecidos, o que me vem à memória é o fim dramático da novela de Stefan Zweig, escrita há quase cem anos. 
Se tivermos em conta a questão consumista, um elucidativo exemplo passado comigo nesta pacata e doce Ponta Delgada mostra bem ao que chegámos. Necessitando de um pequeno candeeiro de secretária para iluminar do lado esquerdo estas escritas computorizadas, desloquei-me a uma loja local especializada em questões de iluminação. 
Amavelmente atendido por pessoas conhecidas e competentes -- daquelas que têm “ideias luminosas” – escolhi um modelo discreto, daqueles que têm lâmpada LED, de baixo consumo e boa luz. A seguir, perguntei o que poderia fazer, caso a luminária deixasse de funcionar, ao que me responderam que havia 2 hipóteses: se estivesse dentro dos 2 anos de garantia, trocavam por um iluminador novo; se tivesse ultrapassado o prazo, o destino era o lixo reciclável. Comentando com as pessoas que me atenderam este excesso de sentimento descartável, fui informado que esta é a “moda” atual na indústria, o que eu já tinha confirmado noutros sectores e equipamentos eletrodomésticos. Ao que dizem, este “turnover” permite aos fabricantes um maior ritmo de produção e aos vendedores maior volume de negócios, o que cria emprego e dinamiza a economia. Simultaneamente, a concessão fácil de crédito ao consumo permite o acesso a bens com preços razoáveis, ficando a ideia (desta vez, menos luminosa…) de que estamos no bom caminho.
Todavia, este é um caminho que apresenta dois lados extremamente negativos e perigosos, um de aspeto ambiental e outro de endividamento das famílias. Do lado ambiental, quando se procede à reciclagem de resíduos e equipamentos, o mal é menor -- ainda que exista, pois a reciclagem exige consumo de energia. Pior é a compulsão ao endividamento, facilitada por uma época de juros baixos e publicidade constante, associada a baixos níveis de rendimento, “empurrando” as pessoas para consumos muitas vezes irracionais e desnecessários. Conforme dados do Banco de Portugal recentemente divulgados, os novos empréstimos bancários a particulares estão ao nível que tinham em 2010, nas vacas gordas de José Sócrates, com o impressionante ritmo de endividamento horário de 2 milhões de euros, dos quais aproximadamente 30% são para puro consumo, sendo o restante, cerca de 60% para habitação e 10% para outros fins. 
Já vimos este filme: ao próximo abanão económico-financeiro, com o sobreaquecimento dos valores dos imóveis e o endividamento das famílias, vai tudo novamente por água abaixo, como aconteceu após 2010. Pouco valerá culpar-se A ou B pela queda do castelo de cartas otimista, porque a culpa está de tal modo dispersa que morrerá solteira. O que sabemos, é quem vai pagar a fatura.
Surge toda esta insanidade numa altura em que as democracias e o parlamentarismo que as sustenta dão tristes imagens de ineficácia e divisionismo, conduzindo a situações como a do brexit (com b, cada vez mais minúsculo) e a shows tristes como o que ocorreu na Assembleia da República, envolvendo os deputados André Ventura e Ferro Rodrigues, este agindo na qualidade de Presidente. Se o contágio se propaga, vai ter consequências para a imagem da Assembleia e dos deputados eleitos, já de si tão desgastada por episódios anteriores. É o resultado da pulverização partidária, reveladora de uma falta de bom senso democrático e de uma certa insanidade que varre a política e os políticos, na Europa e no mundo dito “ocidental” em geral. Pudera! Quando, do outro lado do Atlântico e da banda inglesa do canal da Mancha, chegam os exemplos de Trump e de Johnson -- um com uma ameaça de impedimento às costas, o outro a ganhar eleições com um cãozinho ao colo -- ambos carregados de convenientes mentirolas e fake news, pouco se pode augurar ao futuro dos ex-Aliados. Se houver juízo, o que fica da União Europeia pode aproveitar para realizar as urgentes reformas que permitam aos Estados Membros evitar o estado pré-comatoso de “amokracias” para que algumas políticas malsãs, lenta mas persistentemente, os vão empurrando.     

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Categorias: Opinião

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