29 de dezembro de 2019

Os abandonados

1 - A quadra que atravessámos chama ao sentimento e leva os mais sensíveis a lembrarem-se dos pobres de todos os dias, mesmo que logo no primeiro dia de Janeiro de cada ano voltem ao esquecimento dos seus concidadãos, dos políticos e, geralmente, da própria comunicação social. 
2 - Excepção feita ao Presidente da República, que tem levado a cabo a cruzada que decidiu empreender a favor dos sem abrigo e dos ignorados pela sociedade. 
3 - Marcelo Rebelo de Sousa tem usado o peso que representa a palavra e a acção do Presidente, transpondo desse modo para o centro do debate político questões relevantes que precisam de resolução e não de intenções, porque essas passam depois de ano para ano, de Orçamento para Orçamento, tornando-se numa promessa requentada, que mina a credibilidade dos governantes e bole com os alicerces da Democracia.
4 - Os sem abrigo não se circunscrevem àquelas pessoas que não têm lar e fazem da rua dormitório, porque muitos há que estão numa cama do hospital, sem família, sem lar e sem condições para se auto cuidar.
5 - Uns foram abandonados pelos familiares, e outros jazem na cama do hospital porque a família não tem condições para cuidar de um dependente acamado, sobretudo quando trabalha sol a sol para manter o sustento. 
6 - Esses concidadãos em fim de vida têm de merecer consideração e apoio adequado do poder público estatal ou regional, porque durante a vida, e de acordo com as posses de cada um, deram um contributo à sociedade e, por isso, não podem ser tratados como indiferença ou como matéria descartável.
7 - Dirão os responsáveis políticos: Para isso existem serviços de cuidados continuados e os governos pagam parte das despesas de internamento através dos acordos de cooperação com as instituições receptoras, o que é verdade, mas importa saber em que condições decorre essa cooperação.
8 - Se há doentes que aguardam meses nos hospitais para serem transferidos para unidades de cuidados continuados, é porque não estão contratualizados com as Instituições mais lugares, ou porque essas instituições não têm condições financeiras para aumentar a sua capacidade pelas razões que passamos a aduzir: 
9 - Um doente a ocupar uma cama num hospital custa, no mínimo, 250,00 euros por dia, o que representa um custo mensal de 7.500,00 euros assumido pelo Serviço Regional de Saúde. 
10 - Enquanto isso, um doente nos cuidados continuados custa cerca de 2.400,00 euros mês, isto é 80,00 euros dia. 
11 - Ora, nos termos da contratação para a prestação de tais serviços, feita neste caso pela Região, a comparticipação pública é de aproximadamente 1.800,00 euros por utente, cabendo o restante custo de 600,00 euros por mês, cerca de  7.200, 00 euros ano, a suportar pela instituição.
12 - Isto é, 40 utentes nessas condições equivalem a um prejuízo anual de 288.000,00 euros, ou a 324.000,00, se a capacidade for para alojar 45 utentes.
13 - Este exercício exemplifica apenas o que se passa com os cuidados continuados, mas o princípio aplica-se à contratualização de serviços em lares e creches.
14 - A União das Misericórdias fez em Dezembro um aviso para o perigo de rotura financeira de muitas das instituições associadas, o que levará ao encerramento de várias unidades cuidadoras.
15 - Esta é uma política que tem de ser devidamente avaliada e coordenada entre o Serviço Regional de Saúde e o da Solidariedade Social, porque o tempo está a esvair-se, e neste caso não há milagres. Haverá sofredores que são sempre os mesmos, os indefesos cidadãos, os abandonados, que são vistos como estorvos pelos mais novos e como um custo não reprodutivo para a sociedade egoísta que se esquece que um dia chegará a sua vez!    

 

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Categorias: Editorial

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